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In document 132 kV Kulia–Vallemoen (sider 12-15)

Conforme já exposto, a utilização da rádio com o objetivo de educar sempre esteve presente na história da radiodifusão brasileira desde a fundação das primeiras emissoras, percebe-se que desde a instalação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro por Roquette-Pinto na década de 1920, a rádio já nascia com o perfil educativo. Não queremos aqui resgatar todo o processo histórico da trajetória do MEB, mais sim ressaltar as importantes contribuições deste movimento em relação à educação radiofônica como um trabalho no âmbito da comunicação sendo considerado por Pimentel (1999, p. 14) “o principal projeto de educação não-formal do Brasil [...]”.

O Movimento de Educação de Base (MEB) esteve ligado diretamente à igreja católica, criado em 1961 com o objetivo de alfabetizar adolescentes e adultos das áreas mais pobres do Brasil. Pensando em desenvolver um programa voltado para a alfabetização e educação de base, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, a partir de suas emissoras promovia no início um trabalho de evangelização, já que a ação se dava por meio de escolas radiofônicas, a partir de emissoras católicas. Com o passar do tempo firma parceria com o Governo Federal o qual financia o projeto e cria o MEB para os estados no Norte, Nordeste e Centro-Oeste por meio das escolas radiofônicas, cujo programa é destinado à população (jovens e adultos) que não havia frequentado a escola primária na idade considerada adequada, atingindo assim os desfavorecidos na sociedade brasileira. A proposta inicial segundo afirma Fávero (2004, p. 01) era:

O programa teria a duração de cinco anos, devendo ser instaladas, no primeiro ano, 15 mil escolas radiofônicas, a serem aumentadas progressivamente. Para tanto, a CNBB colocava à disposição do Governo Federal a rede de

emissoras filiadas à RENEC – Representação Nacional das Emissoras Católicas, comprometendo-se a aplicar adequadamente os recursos recebidos do poder público e a mobilizar voluntários, principalmente para atuar junto às escolas como monitores e às comunidades como líderes.

Segundo Fávero (2006), o MEB contava com membros da Igreja e com voluntários da comunidade para ministrar as aulas transmitidas pela rádio. Todos os envolvidos no programa passavam por um treinamento, os monitores passavam por uma avaliação referente ao nível de conhecimento nas disciplinas de português, aritmética e conhecimentos gerais. As aulas eram ministradas por monitores do próprio MEB que levavam a alfabetização a uma grande parcela da população considerada economicamente desfavorecida.

Segundo afirma Wanderley (1884, p. 55):

As rádios escolas radiofônicas eram instaladas nas residências dos monitores, localizadas em zonas rurais e atingindo pequenos agrupamentos demográficos, onde nunca houvera antes uma iniciativa educacional. As escolas radiofônicas pertenciam às comunidades e não ao MEB. Os conteúdos basicamente priorizavam a realidade vivida pelo homem do campo propondo desenvolver habilidades voltadas para o cálculo, bem como outros conhecimentos como linguística, trabalho agrícola, saúde.

Nesta perspectiva afirma Pimentel (1999, p. 46):

Os Cursos Radiofônicos tinham como público alvo tanto os monitores como a população das comunidades atingidas pelo MEB, informando e formando grupos em torno de temas importantes para determinada comunidade, como Saúde, Técnicas Agrícolas ou Formação de Cooperativas, utilizando formatos de comunicação usuais dos alunos, como dramatizações ou desafios de cantadores.

Os alunos acompanhavam as aulas radiofônicas por meio de cartilhas que eram produzidas por educadores e especialistas, a

alfabetização, através da rádio promovida pelo MEB não se pautava somente em ler e escrever, dando ênfase também a conscientização da liberdade do pensamento do homem camponês com a finalidade de tornar o homem consciente do que ele é.

Segundo afirma Kaplún (1978, p. 21) a educação, por meio da linguagem radiofônica não pode ficar restrita somente a alfabetização e aos conhecimentos básicos ela implica em transformação:

[...] todas aquelas que procuram a transmissão de valores, a promoção humana, o desenvolvimento integral do homem e da comunidade, as que se propõem a elevar o nível de consciência, estimular a reflexão e converter cada homem em agente ativo da transformação de seu meio natural, econômico e social [...].

O MEB não buscava somente uma educação não-formal a distância pela rádio, tinha objetivos focados também para uma educação libertadora, indo ao encontro da concepção de Paulo Freire que influenciou muito os projetos na questão da conscientização crítica sobre a realizada, na mudança de atitudes e na instrumentação das comunidades, estimulando o sujeito a participar de forma responsável nos processos culturais, sociais, políticos e também econômicos.

Em sua obra “O Rádio Educativo no Brasil: uma visão histórica, Pimentel (1999, p. 49), coloca que os programas de rádio eram divididos em “Aulas para Escolas Radiofônicas, Cursos Radiofônicos e Programas Especiais”. As aulas para as Escolas Radiofônicas tinham o objetivo de auxiliar os monitores na alfabetização e pós-alfabetização, possuindo um caráter comunitário, já os Cursos Radiofônicos destinavam-se os monitores e toda a comunidade que faziam parte do MEB e os Programas Especiais eram destinados a todos os ouvintes com caráter recreativo e lúdico veiculados somente aos finais de semana.

Pimentel (1999, p. 47) destaca os seguintes cursos radiofônicos e lembra que todos eram transmitidos ao vivo:

Técnicas de Alfabetização, Geografia e História da Comunidade, O Fenômeno da Seca (Causas), Curso de Agricultura, Realidade Social, Escola e Comunidade, Sindicalismo e Legislação, História do Brasil, Agricultura e Homem do Nordeste, Higiene e Saúde, Matemática Moderna, Moral e

Cívica, Português, Ciências, Estudos Sociais, Educação de Base Cooperativista, Como Trabalhar em Grupo, Gramática Funcional, Agricultura e Meio Rural, Curso para Animadores, Orientação para Comunidades. Durante cinco anos afirma Pimentel (1999), o MEB conseguiu desenvolver as atividades radiofônicas como havia previsto e combinado junto ao governo, porém com o golpe de 1964, o governo interferiu no seu funcionamento e ano de 1965, o programa é reformulando, os pensamentos e as metodologias passam a ser vinculados a outros projetos radiofônicos educacionais semelhantes.

Para Pimentel (1999, p. 50):

Mesmo assim o Movimento conseguiu ser a maior experiência de educação não-formal a distância no Brasil, chegando a alfabetizar quase meio milhão de camponeses, através de mais de 5.000 grupos locais. Por todo este esforço em realizar um trabalho de qualidade na educação popular, o MEB recebeu, no ano de 1968, o Prêmio Reza Pahlevi, da UNESCO.

A imagem abaixo mostra a participação de Paulo Freire no Simpósio Internacional de Alfabetização de Adultos, realizado em Persepólis no Irã, ocasião em que recebeu o Prêmio Mohammad Reza Pahlevi pelo UNESCO.

Figura 11 - Paulo Freire no Simpósio Internacional de Alfabetização de Adultos, realizado em Persepólis no Irã

Fonte: Freire, 2013.

O MEB recebeu o prêmio da UNESCO por ter desenvolvido um intenso trabalho na alfabetização de adultos, através da linguagem radiofônica nas regiões rurais brasileiras menos favorecidas. Vale destacar que o MEB tinha se apoiado numa rede de escolas radiofônicas, permitindo com seu trabalho que os adultos participassem ativamente no desenvolvimento social e cultural de seu país.

2.4 RÁDIO MEC E PROJETO MINERVA: UMA EXPERIÊNCIA

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