E São Luís, como fica nesse processo de afirmação de uma civilidade a ser validada? Afinal, como já vimos, São Paulo, Pernambuco e Rio de Janeiro estavam construindo a sua civilidade para conquistarem seus espaços na federação. Podia-se verificar esse processo sob o critério de quem se mostrasse como o branco mais europeu.
Recife, local que irradiou a construção da região Nordeste, também era o centro para onde muitos ludovicenses migravam no intuito de realizar seus estudos: “É inegável a presença maranhense na Faculdade de Direito; entre 1832 e 1922, 307 maranhenses passaram pela Faculdade de Recife” BORRALHO, 2000, p. .73).
A maioria desses intelectuais era conhecedora do debate sobre civilidade existente entre as regiões, sejam do Brasil, da França ou dos Estados Unidos. O Maranhão, pelas características de sua bandeira, almejou identificar-se com os Estados Unidos e, assim como Pernambuco, procurou construir seu diferencial quanto à tradição de fidalguia branca.
Nos símbolos maranhenses, identificamos o hino, a bandeira, o escudo do Estado; no brasão da Prefeitura de São Luís, as aspirações e percepções que o ludovicense procurava expressar sobre si.
Figura 18: Bandeira do Maranhão Fonte: MEIRELES, 1994, p. 117.
A bandeira do Maranhão foi idealizada em 1889 pelo poeta Joaquim de Sousa Andrade [Sousândrade], que estudou em Paris e nos Estados Unidos, e foi um entusiasta da República. “É [...] composta de nove listras em sentido horizontal, intercaladas, sendo quatro brancas, três encarnadas e duas pretas, com um quadrado azul no canto superior, unido à lança e tendo ao centro uma estrela branca, representando o estado como membro da federação [...]” (MEIRELLES, 1972, p. 76).
“As cores das faixas traduzem a fusão racial de que se originou a etnia brasileira” (Jornal Cazumbá, 2007, p. 6). Essa leitura atual da bandeira, ao que nos parece, não traduz a visão do poeta na época, visto que as listas são inspiradas na bandeira americana. E a discussão sobre miscigenação só vai se configurar depois, na década de 1930, com Gilberto Freire, na obra Casa
grande e senzala. Sousândrade não participou dessa época, pois faleceu em
1902.
A cor branca simboliza o branco português, que, embora em menor quantidade numérica no estado, é representada, na bandeira, com o maior número de listras. Seria a representação do fidalgo letrado. O vermelho representa o índio, reproduzindo o imaginário romântico. Ao negro, maioria da população, principalmente na capital e na região da baixada, couberam apenas duas listras pretas.
Entendemos que a ideia é de representação das raças, da forma como a sociedade maranhense na época de Sousândrade as concebia, o papel que as pessoas ocupavam na sociedade pela cor da pela não por fusão, ou seja, de miscigenação como a sociedade do século XX passou a concebe, após todo um debate sobre a idéia dos três grupos étnicos formarem a população maranhense.
O branco, como maioria na bandeira, traz o imaginário que a sociedade tem de si: branca, com evidências de civilização, pois, em 1889, quando ela foi idealizada, a preocupação estava em destacar a etnia branca, pelo fato de ela representar civilização.
Para Mário Meirelles (1972), Sousândrade também revelou sua preferência pelo modelo americano quando foi prefeito de São Luís, instituindo no ensino o regime de frequência mista e abrindo o ensino noturno para operários.
Outro exemplo de que as ideias da América do Norte foram bem recebidas pelos ludovicenses no final do século XIX foi a acolhida que teve a missão protestante americana que começou evangelizar em São Luís em 1886. Esse grupo foi recebido como guardião do progresso, pois naquele momento a Igreja Católica estava sendo alvo das críticas que a acusavam de impedir as luzes do progresso e da razão.
Identificado como portador de modernas ideias liberais, a divulgação do evangelho pelas igrejas reformadas penetrou rapidamente o interior da província: Barra do Corda (1893); Grajaú (1905); Carolina (1916); Colinas (1928); Cândido Mendes (1924); Imperatriz (1929); São Domingos (1928); Presidente Dutra (1930); Santa Inês (1930) (SILVA, 1994, p. 111). Em todas essas cidades, foram construídas igrejas protestantes sob a influência de missionários da América do Norte:
Naquele momento, os norte-americanos usufruíam a confiança dos ludovicenses. No Diário Oficial do Estado do Maranhão, de 14 de outubro de 1911, um expediente trata da permissão dada aos Srs. J. A. Bastos & Filhos, da Casa Bastos, acreditada agência de gramophones, para que fosse gravado em discos o hino maranhense, e estes “[...] reputados agentes encarregaram
disso a casa norte-americana VICTOR, de reputação mundial, o serviço de gravação do hino” (MEIRELLES, 1972, p. 188). Essa preferência pelos americanos também fica patente em 1925, quando a empresa norte-americana Ulen & Company foi contratada para realizar “a construção das redes de abastecimento de água e de esgoto, o fornecimento de energia elétrica para luz, tração, bonde e maquinário para prensar algodão”, na cidade de São Luís (MENDES, 2005, p. 20). E a Brightman & Company Incorporation foi designada para gerenciar os sistemas construídos pela Ulen. Essas duas empresas foram apresentadas como as mais competentes do mundo, uma vez que afirmavam já terem executado serviços em vários países da América Latina e nos Estados Unidos.
Figura 19: Escudo do Maranhão Fonte: MEIRELLES, 1972, p. 87.
Esse escudo maranhense traz o contorno do escudo da Confederação Suíça, com uma moldura de estilo barroco e seu campo interno dividido em quatro partes – no lado direito, duas delas trazem as cores nacionais, verde e amarelo; as outras duas, no lado esquerdo, mostram, em cima, a bandeira do estado e embaixo o emblema da instrução: um pergaminho e uma pena em meio a raios de luz. A figura do escudo é emoldurada na cor dourada e encimada por uma coroa de louros (MEIRELLES, 1972).
Idealizado em 1905, o escudo representa a singularidade daquele que detém a civilidade nos trópicos, ao trazer o barroco coroado com os louros da Atenas. Que outro estado brasileiro era reconhecido como culto e letrado? Se Pernambuco reivindicava a tradição dos fidalgos do açúcar e das revoltas que expulsaram o invasor, o Maranhão tinha o branco fidalgo vinculado ao barroco mineiro, precursor da literatura brasileira. Por isso, não faz qualquer referência a invasores ou fundadores:
[...] lá foi aos estudos e à medida que no Liceu estudava a palavra lenta de Sotero, o mestre amigo que sabia Horácio, Ovídio e Virgílio, no atelier de um artista passava as horas de folga familiarizando-se com desenho: estirando as primeiras linhas, contornando imagens, debuxando academias, entre esboços de telas [...] a natureza na sua agitação alegre, num esplendor de cores, numa harmonia de sons [...] (COELHO NETO, 1985, p. 9).
A imagem propagada por Coelho Neto é de uma cidade que respira cultura, onde se podiam encontrar homens conhecedores da literatura grega. Ele recorda Sotero dos Reis, profundo conhecedor do latim, escritor de gramática, residente em um lugar que também cultivava o gosto pela pintura, agraciada por uma natureza singular, alegre, colorida, inspiradora de poetas.
“[...] não sou bairrista, não senhor [...], mas o nosso Maranhãozinho é um torrão privilegiado! [...] E cita com orgulho os Cunhas, os Odoricos Mendes, os Pindaré, e o Sotero [...]” (AZEVEDO, 2002, p. 81). Nessa fala do personagem Freitas de O mulato, Aluísio Azevedo relata todas as características de civilidade da cidade, a Atenas, local onde a moda europeia desfila na festa de Nossa Senhora dos Remédios e dá destaque a João Lisboa como cronista maranhense que escreve sobre a festa.
A obra de Aluísio Azevedo também traz o reconhecimento do português como branco ideal: “Manuel Pedro, apesar de bom, era um desses homens alheados às sutilezas do sentimento; para outra mulher daria talvez um excelente esposo [...]” (AZEVEDO, 2002, p. 25).
O civilizado, mesmo com toda a ironia característica do autor é aquele que, ao olhar a realidade ludovicense, detecta na igreja um impedimento, principalmente para a mulher, de se desvencilhar do romantismo
e da tutela de autoridades religiosas para vir a ser a mãe descrita pelo positivismo, capaz de educar homens que exerçam bem seu papel de cidadão. Manuel já era um fidalgo e, portanto, abdicou de se casar novamente, por não encontrar uma mulher que não estivesse marcada por aquela sociedade carola.
Quando comparamos João Romão, também português, com Manuel Pedro, outra personagem do autor no romance O cortiço, escrita posteriormente, no Rio de Janeiro, vemos Azevedo tirar a personagem do seu envolvimento com uma negra para se casar com uma branca, vindo a se tornar fidalgo, comprando um título de barão da Corte Portuguesa. Isso possibilita uma percepção de que, mesmo com todos os deslizes da personagem, ele, como branco, era o elemento que trazia a visão de superação. O português do Rio usou de subterfúgios para conseguir seu título; já o de São Luís recusava se casar com uma mulher manipulada pela Igreja, isso porque tinha parentela estudando na Europa e ilustres na Corte. Portanto, já era um fidalgo nato.
O mito da Atenas Brasileira se presta, com o seu imaginário, à inserção da cidade na República como civilizada. Localmente, o discurso potencializava, na virada do século, a idealização de projetos para que São Luís voltasse a ter efervescência cultural.
“Relevo, hidrografia e, sobretudo, clima, combinam-se para caracterizar o Maranhão sob o ponto de vista floral, como a zona de transição entre a hiléia grandiosa e as áridas caatingas do Brasil do nordeste” (LOPES, 1970, p. 50.) Eis Raimundo Lopes, em 1916, instruído pela escola francesa, afirmando o Maranhão como espaço de transição, corrigindo Redway e Hinman, escritores da natural advanced Geography, uma obra que trazia as últimas informações sobre cartas geográficas, por eles prolongarem a floresta amazônica até o Piauí. Para Raimundo Lopes Teodoro Sampaio, “um dos nossos, e dos melhores”, que fez do sertão maranhense caatingas falha quando não se reporta a essa especificidade do estado. “[...] apenas Elesée Reclus, o velho e venerado mestre interpreta com exatidão desejável a distribuição florestal maranhense [...]” (LOPES, 1970, p. 50).
Redway e Hinman, que idealizaram cartas geográficas mais generalizantes, Lopes até perdoa, por entender que numa carta geográfica mundial o Maranhão é um recanto. Mas Teodoro Sampaio desconhecer o Maranhão parece inconcebível. O autor se esforça por destacar e inserir na geografia essa região como de transição, elemento deixado à margem, não só pelos escritores da natural advanced Geography, mas também pelos nacionais.
Raimundo Lopes, 1970, na obra Uma região tropical, tem a preocupação em destacar essa região das demais regiões do país: somente o Maranhão, no Brasil, teria essa característica de transição, por isso lamentava que tal especificidade fosse ignorada pela geografia nacional. Seria uma forma de expressar e defender a singularidade maranhense?
Para Lacroix (2006, p. 72), o ludovicense se considera dotado de uma singularidade construída pelo galicismo do século XIX, pois a influência cultural francesa já havia permeado a Corte do século XIX. Porém a construção do mito está relacionada a exposição do tricentenário da cidade de São Luís, em 1912 (BARROS, 2001, p 24). Ser fundada por franceses, ser Atenas, e única área de transição, passou a ser o diferencial ludovicense de civilidade.
Porém, a fundação só fará parte dos monumentos e representações instituídos em 1926 no brasão da cidade e na segunda metade do século XX, com a estátua do fundador La Ravardière sendo colocada em frente à prefeitura, em 1962 (DUARTE; RAMOS, 2007, p. 104). Reforçando esse ideário, Floriano Teixeira realiza a pintura do quadro Fundação da Cidade de
São Luís em 1972 (ARTE DO MARANHÃO, 1994).
Antes disso, como evidenciam os símbolos maranhenses, a Atenas
Brasileira já era o diferencial: a moeda mais valiosa da época, muito antes da
Fundação Francesa. Na Corte, a civilidade maranhense era reconhecida pelas letras. O fato de São Luís ter cultura francesa a tornava igual à capital da República e não fazia muita diferença. A singularidade não estaria em ser Atenas? A tentativa de consolidar o discurso de fundação francesa será mais forte no final do século XX.
Tudo indica que a civilidade a ser efetivada na virada do século XIX era a da Atenas, pois, como veremos, foram erguidas nas praças da cidade estátuas de políticos e poetas, todos filhos da terra.
O Maranhão, no final do período imperial, era conhecido nacionalmente como a província cuja elite recebia mais instrução:
Atendia a mais de 10% de sua população livre, enquanto São Paulo, Minas e Rio de Janeiro atendiam de 8% a 7% [...] A posição do Maranhão destacava-se dentro do contexto nordestino [...] posicionava-se inferior apenas às províncias do sul [...] (CABRAL, 1984, p. 44).
Esse reconhecimento como província de maior índice de alfabetização do Império se deu pela quantidade expressiva de intelectuais que, na época, participaram de movimentos literários como o Romantismo e o Naturalismo. Esses fatos, além de serem definidores do título de Atenas
brasileira, compõem as imagens produzidas pela sociedade e atribuem ao
ludovicense e ao Maranhão o status de estado da República brasileira com maior concentração de homens formados na Europa. Portanto, enaltecer os poetas que “cantaram as riquezas e belezas da terra e o homem maranhense, sua cultura vernacular [...] o padrão de glória [...] correção e elegância da linguagem” (LACROIX, 2006, p. 72) seria o diferencial de uma cidade civilizada.
Os estados eram chamados a compor uma república voltada para o desafio de vir a ser branca e civilizada. Como o Rio de Janeiro, a capital da República, tomou como referência a cultura francesa, as demais capitais procuraram construir suas avenidas e teatros à moda francesa. São Luís, em crise econômica e sem belle époque, já tinha vivido seu apogeu econômico no final do século XIX. Na exposição do tricentenário, em 1912, lançou mão do fato de o francês ter residido três anos na ilha, antes de o português colonizá- la, para atribuir à França a fundação da cidade, fato que também pode ser considerado como afirmação da civilidade.
No período entre 1780 e 1820, São Luís teve uma posição diferenciada no cenário econômico do Brasil com a exportação de algodão. A “riqueza trouxe uma elevação cultural e consequente modificação da sociedade maranhense, o que possibilitou sua projeção no âmbito intelectual”. Valores
culturais franceses como a língua e a moda foram vivenciados pelas elites. A partir de 1850, as joalherias Chevance, Fouquet e Krause vendiam muitos contos em joias “[...] o ourives e cravador Pierre Borel atendia os desejos das mulheres fazendo “bijoux” de acordo com a moda francesa (LACROIX, 2008, p. 47).
A autora também ressalta que, até meados do século XX, a linguagem do maranhense se diferenciava dos estados vizinhos pelo uso de palavras francesas como matinée (matinal), chambre (camisola), coquette (elegante), coqueluche (em moda), expressão de que o maranhense seria diferente.
Para Lourdes Lacroix, 2008, após a decadência da lavoura algodoeira, a economia maranhense experimenta um novo impulso, com a lavoura de cana-de-açúcar, nas décadas de cinquenta e sessenta. Essa nova conjuntura econômica permitiu a alguns membros da elite a manutenção das
aparências das décadas anteriores. Depois de 1890, as fábricas geraram outro
impulso, agora bem menor. A falta de um produto expressivo para exportação se estendeu por toda a primeira metade do século XX.
Ainda de acordo com Lacroix, das últimas décadas do século XIX até a terceira década do século XX, um grupo de intelectuais “mais ou menos coesos trabalhou para preservar tradições engendradas em tempos de faustos” (LACROIX, 2008, p. 61). Assim, os mitos da fundação francesa e da Atenas
brasileira foram construções desses intelectuais maranhenses.
Portanto, com o que já colocamos sobre a preferência ludovicense pelos norte-americanos no século XX, lançar mão da fundação francesa é uma forma de aproximação com a capital da República.
Porém não é seu diferencial, pois era necessário consolidar sua tradição culta singular e integrada, a cultura francesa não servia como novidade de valores, pois durante todo o século XIX, São Luís viveu à moda francesa. A novidade da época era norte-americana.
O hino do estado, escrito em 1911 por Antonio Batista Barbosa de Godois, entusiasta do modelo republicano, bacharel em direito pela Faculdade do Recife (MEIRELLES, 1972), idealizou uma letra, talvez influenciado, pela academia (principalmente a faculdade de Direito), pernambucana, que destacava os ideais da restauração holandesa, feito decantado como obra exclusiva da nobreza da terra (MELLO, 1997).
Reprimiste o flamengo aventureiro E o forçaste a no mar buscar guarida Dois séculos depois, disseste ao luso: - a liberdade é o sol que nos dá vida (MEIRELLES, 1972, p. 116; grifo nosso).
A letra do hino destaca a nobreza da terra como responsável pela expulsão do holandês e pela independência, mas esta não foi a herança ludovicense que o século XIX elegeu como a melhor contribuição dos lavradores para a Republica15. Seus filhos ilustres estudaram em Pernambuco,
na Europa ou nos Estados Unidos; seus poetas, escritores e políticos que migraram para a corte tornaram-se, no imaginário da cidade, capazes de
apagar a barbárie colonial e imperial, como fundadores da tradição civilizada.
O hino acaba por ressaltar o que não foi lembrado pelo brasão idealizado após a expulsão dos holandeses.
15 Nome que na época identificava os proprietários de terras, plantadores, principalmente, de cana e algodão.
Figura 20: Brasão da cidade de São Luís 01 Fonte: MEIRELLES, 1994, p. 21.
Esse escudo representa a força das armas no episódio da expulsão dos holandeses. Os dois escudos pequenos, os pratos da balança, expõem as flores de lis, França, e as armas da Holanda; o outro, as armas de Portugal. A palavra “[...] latina proeponderat indica que a justiça das armas de Portugal foi superior à francesa e à holandesa [...]” (MEIRELLES, 1994. p. 73).
Mário Meirelles relata um esquecimento da ação dos flamengos ao verificar a não utilização do brasão desenhado após o feito alusivo à vitória sobre os holandeses, em 1647: “[...] Antonio Lopes, em rápido estudo sobre o Armorial Maranhense [...] diz que parece ter ficado em letra morta [...] nunca foi que se saiba, esculpido em pedra e que nunca o usaram” (MEIRELLES, 1994, p. 19).
“Não seria melhor que estivessem gravadas em mármore, para eterna lembrança dos vindouros? Não seriam muito próprios para coroarem a porta principal do edifício, onde a câmara municipal, pelo menos da cidade de São Luís, faz suas sessões?” (MARQUES, 1970, p. 157). As respostas para as questões de César Marques podem estar relacionadas com o fato de o Senado da Câmara de São Luís ser composto pela nobreza da terra, cujos esforços foram responsáveis pela expulsão, mas não foram representadas no escudo.
Como a ideia de fundação francesa é do século XX e a expulsão tanto de franceses quanto de holandeses aconteceu no XVII, por obra dos colonos, os primeiro caso vindos de Pernambuco, os últimos expulsos já pelos habitantes da ilha de São Luís, que viviam às turras com as autoridades enviadas por Portugal. É possível que a não utilização do brasão possa evidenciar esses conflitos entre colonos e coroa. E quem sabe tratar-se do não reconhecimento da participação portuguesa na expulsão (XIMENDES, 1999).
Em 1890, Tristão de Alencar Araripe Júnior, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e da Academia Brasileira de Letras (ABL), propôs o desenho de outro brasão para a cidade de São Luís, sugerindo a inclusão de três capulhos de algodão. A proposição não foi aceita porque
refletia o ponto de vista do Instituto, e não o ludovicense. A prefeitura continuou sem brasão até 1926 (MEIRELLES, 1994.p. 22). Por que o algodão em 1890 não refletia o pensamento da cidade?
Já no brasão de 1926 é possível observarmos como a cidade queria mostrar as marcas do algodão:
Figura 21: Brasão da cidade de São Luís 02 Fonte: MEIRELES, 1994, p. 21.
O estudo para definir o que conteria este brasão foi realizado por Antonio Lopes Cunha, membro da Academia Maranhense de Letras (AML), cuja conclusão foi: “Ser ornado com a descrição dos fatos dominantes da história da cidade, fundação, restauração definitiva, luta e sacrifício do povo por suas garantias e irradiação intelectual numa fase da vida nacional” (MEIRELLES, 1994, p. 22).
O brasão traz a representação da civilidade. O francês, presente no modelo do escudo e nas flores-de-lis amarelas, não figura como invasor, mas como fundador. Beckman foi lembrado na data que aparece na fita unificadora dos ramos verdes. Ele foi um dos colonos que lutou, em 1685, pela causa dos lavradores, classe social que originou os letrados da Atenas. Esta representada
pelas sete estrelas de cor branca. Na mitologia grega, as sete filhas de Atlas e Plêiades, mas no brasão evocam os vultos maranhenses consagrados pela história da literatura brasileira.
O hino e o escudo pensados na República buscam inserir o Maranhão na federação como uma sociedade fidalga, diferente da paulista e da pernambucana. A ludovicense, além de branca é culta: fala bem a língua, escreve poesia, contos, romances. Afinal, Pernambuco tinha tradição açucareira e herança fidalga, mas a Atenas Brasileira era maranhense.
O brasão, também traz a inserção da cidade de São Luís, as cinco
quinas abaixo das flores-de-lis são uma referência a São Luís como parte da
América após a expulsão dos franceses. E a bandeira, também, ao refletir os ideais que se definiam no começo do século XX, em que a civilidade norte- americana era a melhor referencia.
Por essas representações, São Luís pode ser vista como uma cidade que, no final do século XIX e começo do XX, quis pertencer ao Brasil e à América como quem tinha os traços da civilidade europeia. Como Recife, procurou afirmar sua tradição no cenário nacional. Essas duas cidades se sentiam portadoras de uma cultura digna de reconhecimento. Recife,