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Ill. Foreløbig meddelelse om sildeundersøgelserne

In document NORGES FISKERIER (sider 108-125)

nunca quis se mudar). Com riqueza de detalhes, falou também sobre sua relação com a religião e espiritualidade, algo que o ajudou após esta fase. No entanto, inicialmente, aspectos ligados à religião foram vivenciados na Alemanha de modo a gerar “sequelas” a ele e seu irmão, devido à forma como esta lhes fora “imposta”. Tal vivência alterou a maneira como E. passou a ver a igreja, sendo este um tema recorrente em sua narrativa. E. relata não ter sido batizado até sua mudança para a Alemanha. Houve preocupação por parte da família de que E. sofresse preconceito na escola, uma vez que se mudariam para uma comunidade católica. E. considera a atitude de sua mãe estranha e comenta:

“É minha mãe me batizou seis meses antes de irmos pra Alemanha. Foi um negócio assim bem estranho, até hoje fico me questionando o motivo real. É que hoje ainda tem a liberdade religiosa né, assim um pouquinho mais, mas antigamente era bem estreito, então minha mãe resolveu se prevenir pra não afetar na escola.”

Ainda nesta temática, E. comenta sobre um episódio ocorrido com seu irmão que o marcou muito, algo que o levaria futuramente a escolher outras formas de espiritualidade, que não ligadas à igreja.

“(...) nossa! tem um episódio com meu irmão assim, que foi lamentável ele... Bom criança, ia na igreja tudo lá e tinha aula de religião na escola e ele tirou a pior nota de religião da escola. E aí a diretora mandou chamar minha mãe e meu pai, falando que ele tava indo assim pra um lado do diabo, nossa achei tão lamentável isso, tão arcaico (...). Meu irmão hoje em dia, a gente ri disso, mas meu irmão hoje em dia ele é ateu. Foi tão decepcionante isso. Ele não segue mais religião, mas nossa, esse episódio foi tão forte, assim, o pessoal fica ali, tentando te convencer, tem que seguir o caminho, tem que seguir alguma coisa, então Deus é tudo então, aquilo pesou muito pra ele. Pesou muito, muito, muito, pra ele (pausa).”

Neste relato, E. retrata seu posicionamento frente ao modo como a religião lhes foi imposta. Além disto, um tema importante na relação de E. com a Alemanha foi a percepção de que neste país havia um “direcionamento das pessoas”. De certa forma, a maneira como a cultura e as relações sociais se davam, geravam, na percepção de E., imposições. No exemplo que segue E. retrata a imposição vivenciada, tece críticas, bem

104 como, demonstra o reflexo disto em sua vida nos dias atuais:

“Sabe eu fui induzido na Alemanha a ser católico. Fui induzido à força a acreditar numa crença que eu não acreditava, vi muita história cruel dos católicos lá, eu conheci muitos museus de tortura dos católicos lá, conheci todas as igrejas, nossa, a igreja de Colônia, nossa, tem aquelas gaiolas lá em cima, aquilo era pra pendurar as pessoas lá em cima! E tem museu de tortura lá em Colônia, da época das Cruzadas. Nossa, então sabe, toda essa história da igreja... Quem quis fazer isso? Eu sei, foram os homens que fizeram, mas todas as palavras que me disseram, não me convenceu. Vou na igreja, eu sinto um sono, um sono tão grande! E é chato, mas pelo menos, me identifiquei aqui no Brasil com algumas pessoas que tem o pensamento bem parecido com o meu, de que ó, eu sou cabeça aberta, mas nossa, me fez bem, eu pensava assim, nossa eu sou um cara diferente, não acredito em Deus (...)”

Posteriormente, outras imposições foram também percebidas pelo pai de E. Este veio a ser o motivo que o levou a decidir que a família retornaria ao Brasil. Era chegado o momento na vida escolar em que tanto E. como seu irmão, deveriam fazer uma escolha que implicaria em futuramente serem direcionados para o ensino técnico ou à faculdade. Uma vez que o sistema de ensino alemão funciona de modo a tais escolhas serem feitas a partir do rendimento escolar das crianças até o final do ciclo básico, ocorre o direcionamento ao tipo de educação que a criança terá após o mesmo (tipos de escola são indicadas conforme o aproveitamento do aluno e destas, posteriormente serão direcionadas à faculdade, ao ensino técnico ou profissionalizante). O pai de E. entendeu que independente do modo de vida que levavam (conforto, segurança, etc.) seus filhos deveriam ter liberdade para escolherem quem gostariam de ser. Não era o sistema escolar ou o Estado que deveriam fazê-lo.

“(...) eu tava na quarta série e o meu irmão tava na quinta, ou tava indo pra quinta(...) e a gente ia precisar fazer a escolha do que queria fazer pra vida nessa idade. E meu pai não achou justo crianças né, fazerem essa escolha nessa idade. Então a gente voltou pro Brasil, bem decepcionado, eu não sabia o que tava acontecendo direito, só fui saber assim, lá na sexta série, o motivo real da nossa volta... Provavelmente pelas notas eu teria ficado na Hauptschule69 né, porque né eu não me focava na escola eu não entendi nada

69

“Hauptschule é um dos tipos de escolas secundárias existentes na Alemanha. O aluno ingressa nesta após concluir o quarto ano da Grundschule (escola primária). A partir daí deve seguir um dos tipos de escola secundária existentes: a Hautpschule, a Realschule ou o Gymnasium. A Hauptschule costuma ser recomendada para aqueles que gostam de coisas práticas e preferem o concreto em vez do abstrato. A

Hauptschule é o caminho mais curto para uma qualificação profissional, chamada Berufschule. Conclui-

se a Hautpschule prestando uma prova chamada Hauptschulabschluss (Conclusão da Escola Elementar) ou Qualifizierter, com aproximadamente 14 anos de idade. Após o término da Hauptschule, o aluno deverá frequentar uma Berufschule (Escola Técnica), onde aprenderá uma profissão. Critica-se

105 né, meu professor falou: -há você vai voltar pro Brasil em breve né, eu falei: hã? Mas todos meus amigos foram pra Hauptschule né, meus melhores amigos. Mas assim, essa decisão do meu pai, assim, foi bem aceitável isso não tem nem o que falar, assim, embora o Brasil não seja lá grande coisa, a gente pode criar o que você quiser né, você pode construir sua carreira, se esforçar, começar um negócio novo e ter o livre arbítrio, você escolhe o que quer ser e eu, eu demorei pra descobrir tudo isso aí (...) meus amigos lá viraram encanadores, técnicos em aquecimento, não que eu ache isso ruim mas, então (...)”

E. demonstra entender as razões de seu pai e, ainda que “o Brasil não seja lá

grande coisa” reconhece que há flexibilidade e chances para que as pessoas possam fazer

suas escolhas orientadas por seus desejos e não por imposições do Estado. Retratar o Brasil como não sendo grande coisa, denota a forma como o país é percebido por E., quanto ao seu funcionamento e desorganização, ainda assim, é o lugar onde pôde optar com maior liberdade.

A ascendência alemã aparece em alguns momentos como fator importante, seja pela forma como seus avós viveram no Brasil, seja quanto ao modo empreendedor de seu pai e avós como também, questões ligadas à rigidez e certa “distância emocional” retratadas por E. com ressalvas e críticas, algo que busca mudar em seus relacionamentos.

Percebeu-se que E. referiu grande necessidade de contato com amigos e expressou grande necessidade de afeto. Em certos momentos, nos pareceu sentir-se sozinho quanto a uma série de enfrentamentos, por exemplo, a mudança à Alemanha na infância, o retorno ao Brasil, a doença do pai, transição escola - faculdade, final da faculdade e doença da avó, cuidados com a avó, venda da casa da avó após seu falecimento e o modo como a casa fora saqueada após sua morte. “achei que iam até botar fogo, levaram tudo,

tudo, é difícil.”

a Hauptschule e o modo como as escolas secundárias são divididas na Alemanha. O argumento usado é que nesta escola é oferecida menor capacitação, fazendo com que seus concluintes ingressem no mercado de trabalho em desvantagem, comparados aos estudantes de escolas com maior capacitação, como a Realschule e o Gymnasium. É comum encontrarem-se muitos descendentes de imigrantes na

Hauptschule, devido à dificuldade com a língua alemã.” (fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hauptschule)

106 Entretanto, demonstrou-se altruísta, gosta de resolver os próprios problemas e ajudar ao próximo. Refere gostar de desafios e vive no momento a busca pelo desenvolvimento profissional e por rearranjar seu “lugar” na família. Seu irmão casou-se recentemente e após a morte do pai e da avó, a família diminuiu.

E. sente necessidade de “dar certo profissionalmente” em memória ao pai e não quer trabalhar para outros (não quer ser empregado) sendo este um ponto central em seu projeto de vida (supõe-se a formulação deste projeto de vida mediante à percepção da relação de exploração vivida por seu pai no trabalho). Acredita ser melhor ter o próprio negócio e seguir seu caminho de modo empreendedor. Acha que o ambiente corporativo tem, além da grande competição, falsidades. “No mundo corporativo a pessoa não

cresce, não há desenvolvimento pessoal, mas sim o desenvolvimento da empresa e de metas”. Acha desgastante e não lhe agrada a ideia de trabalhar em uma empresa, além de

possuir ressalvas relativas ao “ser controlado” acredita que seu pai desenvolveu um câncer em função da sua relação com o trabalho; existe ainda a hipótese de que o “ser controlado” tenha relação com as vivências das imposições na Alemanha, por exemplo, quanto à religião e quanto ao rendimento escolar. No Brasil E., com maior flexibilidade, escolhe seguir o próprio caminho profissional, empreendendo e desta forma banindo à sua maneira o controle.

Admira seus avós (imigrantes alemães) pela forma como lidaram com a imigração e se aventuraram no Brasil, no entanto, não consegue compreender por que não tinham amigos e não se relacionavam com outras pessoas, além do pequeno núcleo familiar e alguns conhecidos, estes também alemães. Considera a vida sem amigos isenta de sentido, o que explicita como ponto muito importante em sua vivência cotidiana e em seus projetos para o futuro “estar sempre com os amigos- sou viciado em amigos”.

No momento, além da busca profissional tem lugar importante em sua vida a busca pela espiritualidade. Ainda que se considere ateu, coloca a importância do homem desenvolver o lado espiritual, conhecer-se melhor e energizar-se. Acha que “suga” energias de pessoas ou ambientes e quer aprender a lidar com isto, além de sentir-se muito bem quando tem “experiências espirituais.”

107 Em um primeiro momento achamos nosso colaborador bastante aberto e seguro em suas atitudes e ideias. Num segundo momento, ainda que nossa visão não tenha sido equivocada com relação ao “ser aberto”, percebeu-se grande carência e necessidade de aprovação exterior, tendo nosso colaborador demonstrado dificuldades em ficar sozinho (está sempre em busca de contatos, programas, pessoas etc.). Após lidar com importantes perdas na família e com responsabilidades que arcou sozinho, este momento (de busca por contatos) pode tratar-se de uma transição. E. possui elementos que lhe ajudam a manter seu projeto de futuro em andamento (ter o próprio negócio- próprias ideias- não ser controlado), consegue trabalhar bem sozinho (é acostumado a resolver problemas e assim sente-se seguro) e também está abrindo um negócio em sociedade (site na internet), de modo a experimentar responsabilidades em conjunto. Vive um processo de metamorfose com a mudança que iniciou em seu corpo e comportamento (resolveu emagrecer, ir atrás de meninas, falar abertamente sobre seus sentimentos com amigos etc.).

A ênfase dada ao “ser ateu” e a raiva que possui da igreja nos chama a atenção, uma vez que mantém a busca por assuntos metafísicos. Pode-se dizer, ainda que de forma cuidadosa, que tanto sua avó como seu pai, pessoas que E. coloca como referência em sua vida, seguiram caminhos “solitários” e nosso colaborador, mesmo não concordando com isto e buscando apoio e reconhecimento externos (de amigos, etc.) trilha da mesma forma um caminho igualmente solitário. É possível que a influência dos personagens solitários em sua vida seja forte, evitando que E. usufrua como almeja das companhias que tanto busca.

Observações sobre dados coletados sob outras formas:

Passados alguns dias da entrevista E. enviou-nos um E-mail. Neste, contou sobre lembranças evocadas pela conversa que tivemos: falou-nos das lições da família.

“Só mais uma coisa. Ontem me perguntou sobre a lição que ficou sobre os costumes, acho que a maior lição mesmo é não desistir nunca e não ter medo de reconstruir uma nova vida. Foi isso que vovó e papai me ensinaram.” Algum tempo após a entrevista ocorreu uma festa típica alemã, no colégio onde nosso colaborador estudou e este nos convidou a participar da mesma. Fomos ao local e percebemos que para nosso colaborador a escola ainda é muito importante. Ele nos

108 apresentou aos amigos, a seus professores, mostrou-nos sua sala de aula e fez questão de nos oferecer as comidas alemãs que ali eram servidas. Esta experiência, que se tornou uma experiência de campo quase etnográfica, revelou um dado importante sobre E. “dependente de amigos.” Nosso colaborador se comporta de forma diferente de seus amigos do colégio. Mostrou-se mais aberto, espontâneo, bastante ligado afetivamente às pessoas e sempre preocupado em ajudar, orientar as pessoas presentes na festa etc. Seus colegas mostraram certo distanciamento, não pareciam tão animados com a festa ou com os reencontros que ali se davam.

O sentido da festa para E., diferiu do de seus colegas conforme nossa percepção. Para E. a festa aparentou um resgate de suas raízes e de sua infância. Ao caminhar pela escola, o brilho de seus olhos ao nos mostrar suas dependências, as mudanças no prédio, as professoras queridas, permitiu que pudéssemos apreender sobre uma fase que lhe fora importante. A escola alemã fora o elo de algo que E. não perdeu. Era o local onde estudava antes da mudança para a Alemanha e foi o lugar para onde voltou e reencontrou amigos; percebeu que foi bem recebido e não teve dificuldades em readaptar-se, ao contrário, foi valorizado por ter morado na Alemanha. Suas experiências nesta escola foram menos direcionadoras, quando comparadas às vividas na escola na Alemanha.

Em dado momento passamos por um mural de fotos de adolescentes que foram junto com a escola para a Alemanha. E., imediatamente relatou-nos que tal viagem fizera também com sua turma. Colocou que a viagem foi muito importante, mas diferente do que fora para seus colegas, muitos indo a primeira vez para a Alemanha, para E. se tratou de uma viagem interessante por estar entre amigos e por ajudá-los com o idioma que dominava, por outrora ter vivido no país. Para E. estar entre pessoas que lhe são significativas e compartilhar experiências é algo muito significativo, não importando em qual país vive. Busca lidar com as mudanças que acometeram sua família e naturalmente, si mesmo. Algumas tradições tem espaço em sua vida (como algumas comidas feitas no natal), contudo, estas retratam os sentimentos de E. para com sua avó e seu pai e não, necessariamente, algo que sinta com relação ao país de seus ancestrais ou ao significado atribuído ao ser descendente de alemães.

109 M. 30 anos. Neto de alemães. Natural de Santa Catarina

“(...) e nós sempre tivemos é, dificuldades normais de estrangeiros, porque nós, nós não nos sentimos brasileiros, esse é o, a questão interessante e ao mesmo tempo, não temos a cidadania alemã. Então nós

somos, estamos num lugar onde nós somos brasileiros pelo documento, mas na prática o espírito não é. Essa é a grande situação, que é a dificuldade.”

M. é um jovem doutorando que chamou nossa atenção quando o escutamos falando alemão. O fato de não se ouvir o idioma comumente pelos locais onde transitamos, bem como termos percebido sua desenvoltura em compartilhar seu conhecimento do idioma com outros, foi o que despertou nosso interesse em obter seu relato.

M. colocou-se muito disponível para falar de sua história. Totalizaram-se dois encontros de cerca de 3 horas cada um em que M. discorreu sobre sua vida e sua dificuldade em ser “um alemão no Brasil” colocando por diversas vezes, ainda que em outras palavras, o sentimento de ser um estrangeiro não adaptado à cultura onde está inserido e ao modo como as pessoas agem, devido à “contaminação de brasileirismo” e a forma como é visto pelos outros por, por exemplo, vestir-se com sobriedade, gostar muito de estudar e por ser muito crítico.

Acredita que sua forma de ser será melhor aceita na Alemanha (ou até mesmo nos Estados Unidos, qualquer lugar fora do Brasil, uma vez que sente estar perdendo tempo neste país), pois pensa que não haverá preconceito como no Brasil, sua intelectualidade e trabalho serão valorizados. Acredita ainda, que por ser acostumado à dificuldade de ser um alemão no Brasil, poderá gerenciar bem as adversidades, caso as encontre na Alemanha.

O retorno à Alemanha foi o projeto idealizado por seu avô, tendo este o alimentado durante toda a sua vida e compartilhou disto com M. Nosso colaborador tem assim, o mesmo projeto como algo que o motiva a continuar os estudos e a vida em São Paulo.

“Então é, como te falei, aqui não vejo muita perspectiva. Meu futuro é arrumar a documentação que eu preciso e arrumar alguma coisa com relação à pesquisa, pra depois arrumar um trabalho na Alemanha ou em algum lugar fora, ou mesmo nos Estados Unidos, enfim, eu não gosto tanto,

110 mas, porque aqui eu, eu noto que não sou valorizado pela minha competência, eu sou desvalorizado pela minha, pelo meu problema, de saúde.(...) por esse motivo, eu assim, alguma coisa me diz pode ser algo ingênuo, eu sei o quão dura a vida é fora é porque eu já tenho a experiência um pouco de ser brasileiro e de não ser, ao mesmo tempo. Eu sei o quanto a vida é dura fora, mas alguma coisa me mim diz: olha, você tá perdendo tempo. Essa noção eu tenho desde criança. Aqui você perde tempo, você não sabe, por exemplo é, tem alguém que entenda, outra coisa, você pode passar em todas as Universidades do meu Estado Santa Catarina e você pode perguntar se tem alguém que entende a lógica dos partidos políticos melhor do que eu, você não vai achar ninguém. E nem na cátedra de filosofia política da federal de Santa Catarina você vai achar. Isso também vale pra filosofia alemã. E se eu for lá, todo mundo me conhece e pedir se posso fazer um concurso? Nem um concurso vou poder fazer (risos) nem me inscrever! Entendeu?”

M. inicia sua história de vida relatando como seus avós chegaram ao Rio Grande do Sul em 1929. Estes fugiram do que seria o início do governo do partido nazista. Nas palavras de M. se percebe que enquanto conta o fato, confunde-se com este:

“(...) nós viemos (pausa), nós viemos não né, eles vieram, porque eu nasci aqui, é, em 29 da Alemanha fugidos da, do início do processo do nazismo e muito do que as pessoas acham que os alemães todos são nazistas, na verdade não é bem assim.”

Em 1947, motivados por uma grande seca e ao que M. nomeia como “perseguição” a família migrou para Santa Catarina, onde nascem M. e também seu pai. A subsistência da família foi proporcionada pela criação de suínos e posteriormente, pela produção de leite. M. desde a infância ajudou no trabalho com os animais e aos 19 anos, mudou para São Paulo à convite de uma ordem religiosa para fazer o noviciado. Em São Paulo estudou filosofia e devido a problemas de saúde (M. tem problemas neurológicos e também de visão) foi expulso da ordem religiosa que o convidara, retornando à Santa Catarina. M. tem grande dificuldade em lidar com o modo como fora tratado pela ordem, algo que mesmo depois de passados alguns anos, lhe causa grande tristeza. Associa, entretanto, alguns dos comportamentos dos padres e integrantes da ordem ao fato de serem brasileiros.

“Olha só, isso tem tudo a ver, você confia em brasileiro, gente que é brasileira que todos esses padres que me sacanearam eram brasileiros, não tinha nenhum que era nem descendente de italiano e não faz diferença nenhuma (...), entendeu? (pausa) Toda vez que eu dependi de um brasileiro ou brasileira que não tenha ... Eu me ferrei, entendeu?”

111 O fato de relacionar algumas das dificuldades que passa com o fato destas advirem de “brasileiros” o coloca em sofrimento constante e o afasta por vezes de novos contatos ou novas possibilidades. Suas dificuldades tornam-se maiores e constantes, pois vive no Brasil e não se reconhece como pertencente a este país.

“No seminário eu fui muito mais ridicularizado com relação a meu problema de saúde do que nós fomos em Santa Catarina. Pra você ter uma ideia, era

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