A apenas alguns meses antes da morte de Adorno, em abril de 1969, a Dialética do Esclarecimento foi reeditada pela primeira vez na Alemanha após vinte e dois anos depois da primeira impressão. O que poderia ser um ótimo atalho para provar a continuidade das ideias de Adorno e Horkheimer tornou-se antes um enigma. Da apresentação ambígua à nova edição alemã de 1969 não podemos tirar nenhuma conclusão acerca das ideias que resistiram ao tempo para então fazermos o enlace da continuidade de suas posições. A ambiguidade reside em duas passagens em específico, a primeira diz o seguinte: “Mas não são poucas as passagens em que a formulação não é mais adequada à realidade atual. E, no entanto, não se pode dizer que, mesmo naquela época, tenhamos avaliado de maneira excessivamente inócua o processo de transição para o mundo administrado”82. Em “não são poucas” fica uma advertência abstrata da
qual fica a cargo do leitor descobrir “as passagens em que a formulação não é mais adequada à realidade”. Ao finalizar a apresentação os autores da Dialética do Esclarecimento alertam sobre a decisão de manter inalterado o escrito: “Contentamo-nos, no essencial, com a correção de erros tipográficos e coisas que tais. Semelhante reserva transforma o livro numa documentação; temos a esperança de que seja, ao mesmo tempo, mais do que isso”83. Novamente ficam sob
81 Ca ta de Ado o a Be ja i de / / . ADORNO, Theodo ; BENJAMIN, Walte . Co espo d ia -
4 . p. .
82 ADORNO, Theodo ; HORKHEIMER, Ma . Dial ti a do Es la e i e to. p. . 83 ADORNO, Theodo ; HORKHEIMER, Ma . Dial ti a do Es la e i e to. p. .
nossa conta até onde interpretamos esse livro como uma documentação ou como “mais que isso”.
Não são poucos os comentadores de Adorno que viram um enlace entre um de seus primeiros escritos, “Atualidade da filosofia”, com um de seus últimos escritos publicado em vida, Dialética Negativa (1966)84 ou de forma mais genérica, com o percurso intelectual de Adorno como um todo85. Como dito anteriormente, por mais que “Atualidade da filosofia” esteja em estreita relação com a tese do continuum da história, foi apenas na Dialética do Esclarecimento que ela tomou clareza definitiva. Portanto, para nossos desígnios, desta relação entre “Atualidade da filosofia” e Dialética Negativa, infelizmente, não podemos deduzir a persistência do continuum.
O tom utópico nunca abandonado por Adorno, algo que é consenso entre seus comentadores86, é um indício, mas não uma prova definitiva da persistência do continuum da história em seu pensamento. Pode muito bem existir um discurso utópico sem o continuum, o inverso, porém, não é possível. A forma de lidar com isso é demonstrando em um dos seus últimos escritos o aparecimento direto ou indireto do continuum. Encontramos, então, na Dialética Negativa, no contexto em que Adorno está criticando como o idealismo alemão, em particular Kant e Hegel, fizeram de suas concepções de tempo sua impossibilidade, fica evidente seu comprometimento com a ideia de continuum: “Eles [Kant e Hegel] glorificam o tempo como atemporal, a história como eterna; e isso a partir do temor de que ela comece”87.
Kant e Hegel tornam-se cúmplices do “antigo mal” [alte Übel] ao fixar o tempo no conceito. Essa passagem tem o mérito da clareza que não obstante pode-se dizer que acompanha toda sentença utópica de Adorno. Clareza essa que poucas vezes Adorno foi capaz de formular, nem mesmo na Dialética do Esclarecimento isso ocorre. O aparecimento tão transparente do continuum surge como para carimbar, sem meias palavras, a radicalidade de sua filosofia da história em uma de suas últimas obras.
84 L -se a ota de odap do li o de Bu k-Mo ss: Este dis u so [Atualidade da filosofía] de , ue o te ía e fo a e io ia la posi i te i a de su testa e to filos fi o de , Negati e Dialektik, o fue pu li ado e ida de Ado o . BUCK-MORSS, Susa . O ige de la Diale ti a Negati a. P g. . Ta Ja eso da es a opi i o: Atualidade da filosofia pode ia so uitos aspe tos, se ista o o u es oço pa a todo o p og a a es ito t i ta a os depois a Dial ti a Negati a . Ma is o ta dio. p. .
85 E seus p i ei os e saios 'The A tualit of Philosoph ' e 'The Idea of Natu al Histo ' Ado o j est de posse de oa pa te do ue a a te iza seu t a alho poste io . THOMSON, Ale . Co p ee de Ado o. p. . 86 Assi , a despeito do pessi is o apa e te e te o pa to de t a alhos o o Diale ti of E leight e t e
Mi i a Mo alia, Ado o ja ais a a do ou po o pleto a espe a ça de ue u a uda ça adi al ai da fosse
possí el . JAY, Ma ti . As ideias de Ado o. p. . 87 ADORNO, Theodo . Dial ti a Negati a. p. .
Essa coerência, da qual ideias no fim da vida de Adorno podem ser ligadas sem prejuízo às mais antigas, não foi percebido sem algum desconforto. Como dito antes, muitos comentadores perceberam essa espécie de continuum do pensamento adorniano. Nosso ponto, porém, coincide com o destes comentadores, mais especificamente de Aguilera88, que vê em Adorno uma coerência que quase desafia um dos princípios fundamentais de seu pensamento de “uma teoria que atribui à verdade um núcleo temporal, em vez de opô-la ao movimento histórico como algo de imutável”89. O desconforto residiria especificamente nisso, como
conciliar uma filosofia que “atribui à verdade um núcleo temporal” e ao mesmo tempo permanece tão constante, sem grandes rupturas.
Entrementes, concordamos antes na coerência do pensamento adorniano que com a resposta que Aguilera e mesmo Buck-Morss dão a esta aparente contradição entre uma “teoria que atribui à verdade um núcleo temporal” com a continuidade do pensamento adorniano, que tomamos a liberdade de denominar de uma espécie de continuum de seu pensamento ao longo de sua vida:
Com Adorno ‘se tem a impressão que sua formulação dos conceitos é anterior a
própria compreensão plena de suas potencialidades’90, parece como se toda sua obra fosse feita de uma só peça, sem mudanças. Certamente é uma ilusão, porque Adorno vai integrando e refinando seu pensamento a partir de seu trabalho, tanto em história da filosofia como em sociologia e arte, porém se baseia em algo real: as pretensões de invariabilidade, por abstratas que sejam, são as mais efêmeras, entretanto que a entrega ao efêmero, ao variável, tende a perdurar91.
A análise de Aguilera passa longe de responder a contradição anteriormente assinalada com a dialética entre o efêmero e o invariável. Dizer que o invariável é desmentido por Adorno como sendo na verdade o efêmero e o efêmero como aquilo que tende a perdurar é demasiado mecânico. Aguilera acerta, porém, que a teoria de Adorno não é descolada da realidade, que ela “se baseia em algo real”. Nossa posição é justamente essa: é porque Adorno se fixa no real que ele não alterou radicalmente seu pensamento. Pois, como um pensamento pode se alterar bruscamente se a história mesma não rompeu com seu continuum? Não importa tanto as máscaras que são permutadas entre o efêmero que se esconde por trás do invariável ou vice- versa, mas justamente o jogo que eles se prestam e no qual em grande parte o presente trabalho propõe a mostrar: por trás dessa realidade cambiante persiste um continuum histórico em que
88 E iste a ui u pa ado o: u a filosofia a e ta o o e hu a a e pe i ia, e t egue a edula te po al da e dade, ue e ige o e ai a o do í io do ue ue de if a , ue se ega a postula ual ue t a s u do e ue i lusi e to a os o eitos o o fe idas hist i as, pa e e o uda e a soluto . AGUILERA, A to io. L gi a de la des o posi i . I : ADORNO, Theodo . A tualidad de la filosofía. p. .
89 ADORNO, Theodo . Dial ti a do Es la e i e to. p. .
90 BUCK-MORSS, Susa . O ige de la Diale ti a Negati a. p. .
os objetos podem mudar suas funções mas sempre continuam a reproduzir o sempre-idêntico e o pensamento que conceitue realmente essa realidade vai acabar refletindo esse mesmo continuum no nível teórico.
Já Buck-Morss, quando diz que “se tem a impressão que sua formulação [a de Adorno] é anterior a própria compreensão plena de suas potencialidades” esquece que o pensamento adorniano não é do tipo de se chegar a algum esgotamento ou do desenvolvimento pleno de um objeto. Podemos demonstrar, inclusive, que muitas formulações presentes na Teoria estética já estão contidas na Filosofia da Nova Música e na Minima Moralia de modo que não perdem em nada em exposição e profundidade. Na Filosofia da Nova Música, publicado em 1949, mas com a primeira parte – Schönberg e o progresso - terminada em 1940-41 da qual extraímos a seguinte passagem, aparece de forma clara e impactante sua formulação do progresso do material estético:
As exigências impostas ao sujeito pelo material provêm antes do fato de que o próprio
‘material’ é espírito sedimentado, algo socialmente preformado pela consciência do
homem. E esse espírito objetivo do material, entendido como subjetividade primordial esquecida de sua própria natureza, possui suas próprias leis de movimento92.
Na Teoria Estética, publicado em 1970 logo após a morte de Adorno, novamente aparece uma variação, com algumas adições, da mesma ideia de progresso do material estético:
Que uma tal arte moderna seja mais do que um vago «espírito do tempo» ou um versado up-to-date deve-se ao desencadeamento das forças produtivas. Ela é tão determinada socialmente pelo conflito com as relações de produção como intra- esteticamente enquanto exclusão de elementos gastos e de procedimentos técnicos ultrapassados93.
Não podemos dizer que a mesma ideia tenha sido potencializada na Teoria Estética, como se antes não houvesse sido devidamente trabalhada. Menos ainda podemos dizer que Adorno está sendo redundante no reaparecimento da mesma ideia. Ambas ocorrem em momentos muito específicos: no desmentir de obras que tentam ressuscitar regras ou modelos composicionais já assimilado e superados na arte. E essas formulações não surgem como um Deus ex machina, mas de um contexto concreto de análises de obras de arte particulares. Assim, antigas ideias voltam, não de forma ipsis litteris, mas emergindo da produção sempre atual e renovada de obras de arte. Tais ideias são, ao contrário, erigidas para se contrapor a uma certa produção artística que tende ao redundante, no trazer de volta o que já foi superado. Portanto, não são tanto as ideias de Adorno que regressam de forma teimosa e arbitrária às suas antigas formulações, elas só refletem a ordem social que está constantemente regredindo ao antigo.
92 ADORNO, Theodo . Filosofia da No a Músi a. p. . 93 ADORNO, Theodo . Teo ia Est ti a. p. .
Aqui reside nossa conclusão: o continuum do pensamento adorniano acompanha e reflete o continuum da história.
1.4 DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO: A PROTO-HISTÓRIA MATERIALISTA DA