Muitas foram as queixas dos trabalhadores e várias se devem ao rigoroso controle adotado pela empresa, um ritmo que nunca se tinha experimentado na Amazônia. O indivíduo amazônico não seguia esse modelo de produção nem de trabalho capitalista, seus meios eram estritamente de subsistência, o que contrastou com os modelos capitalistas implantados por Henry Ford no Tapajós.
A queda do número de empregados em Fordlândia pode ser interpretada pela não adaptação dos trabalhadores nacionais aos modelos de produção capitalistas211 empregados pela
empresa Ford na Amazônia, pois os trabalhadores locais não estavam acostumados com o ritmo de produção capitalista, que acabava priorizando o tempo de trabalho e produção, realidade bem distante das atividades de subsistências que eram praticadas na Amazônia, ou seja, para o trabalhador local muitas das regras impostas pela companhia Ford eram vistas como uma forma de repressão, e entre essas regras estavam:
- 8 horas de trabalhos diárias;
- controle das horas trabalhadas por meio de ponto de entrada e saída; - rigoroso controle de identificação dos empregados (anexo 9);
- eram proibidas quaisquer tipos de bebidas acólicas;
- não era permitido aos trabalhadores frequentar bares e restaurantes; - medicamentos ministrados de forma obrigatória;
- alimentação baseada nos costumes culturais norte-americanos.
Nesse último caso, a alimentação foi um fator que motivou discórdia entre os trabalhadores e a direção da Companhia Ford Industrial do Brasil, causando uma grande revolta. Segundo David Riker, em suas memórias publicadas em 1983, O último confederado na
Amazônia, em 1934, a alimentação era responsabilidade da empresa, e foi cortada para que um
valor adicional ao salário fosse somado como forma de compensação. Porém, essa manobra causou vasta revolta entre os trabalhadores, que acabaram por amotinar-se com extrema violência e tinham como alvo principalmente os norte-americanos212. Seu pai, que trabalhava
como intérprete em Fordlândia, nesse período, e também era responsável pela fazenda que recebia o gado vindo do Marajó, acabou por salvar-se da violência fugindo por dois dias em meio à selva.
211 LOURENÇO, 1998, p. 137. 212 RIKER, 1983, p.81.
Os alvos dos manifestantes eram principalmente os norte-americanos, que fugiram, muitos para a selva e outros acabaram refugiando-se na vila americana. Porém, a fúria dos trabalhadores voltou-se para as estruturas da companhia, como o relógio de ponto, o refeitório, o escritório, a serraria, a garagem, a rádio, a cafeteria, todos danificadas pela raiva dos envolvidos no levante. A oficina e os arquivos foram incendiados, e o depósito, saqueado. Caminhões, carros e tratores foram jogados no rio Tapajós213.
A falta de articulação por parte dos trabalhadores locais com os supervisores norte- americanos acabou gerando esse levante, que nenhum de benefício trouxe a eles. O ato de danificar as estruturas que “reprimiam” os trabalhadores demonstra a total falta de preparo e discernimento desses indivíduos em negociar condições melhores com os seus superiores. O episódio ficou conhecido como “quebra-panela”, só foi contido três dias depois e duramente reprimido pelo interventor do estado do Pará, o tenente-coronel Magalhães Barata, por meio da polícia militar de Santarém, culminando com a demissão de todos os envolvidos.
Fordlândia, mesmo com todos os investimentos que somaram milhões de dólares, acabou não devolvendo a produtividade de seringueiras que se esperava. Já em 1934, os problemas estavam evidentes.
As plantações de seringueiras acabaram sendo outra grande dificuldade, pois pouco produziram. O ritmo lento na implantação das áreas de cultivo sem dúvida foi um agravante fundamental para que o projeto de Fordlândia não tivesse o sucesso esperado.
A falta de força de trabalho para cultivar as plantações foi um fator agravante, que acabou tendo grande peso quando colocado em análise. Outro ponto que deve ser colocado em destaque é a distância da cidade de Santarém, principal centro urbano da região, onde estava concentrada a maior densidade demográfica, o que poderia solucionar o problema da falta de trabalhadores nas plantações de Fordlândia. Além disso, existiam na área muitos indígenas realocados pelo governo que estavam em sérias dificuldades e gostariam de ser integrados como trabalhadores de Fordlândia, tendo vista as vantagens que seriam oferecidas, como assistência medica, moradia e alimentação, porém, foi estritamente proibida a contratação de indígenas pela direção da empresa214, alegando que seriam preguiçosos e pouco amigáveis, uma forma de
preconceito racial que acabou refletindo no baixo contingente de trabalhadores. É provável que, se de alguma maneira a Companhia Ford Industrial do Brasil (C.F.I.B) tivesse absorvido e integrados os indígenas da região, pois eles demonstravam grande interesse em trabalhar nas
213 NAZENTE, Nestor. Arquitetura Utopista na Floresta Amazônica. In: Encontro Nacional de Tecnologia do
Ambiente Construindo - XIV ENTAC, 2012, p. 663.
plantações de Fordlândia, os problemas referentes à falta de forças de trabalho teriam sido minimizados ou mesmo resolvidos.
Outro elemento que contribuiu para que existissem dificuldades no cultivo da seringueira em Fordlândia foi a irregularidade do terreno destinado215 ao cultivo, como pode-
se observar na Figura 21.
Essa irregularidade não contribuía para o crescimento saudável e cultivo das árvores de seringueira, ocasionando lentidão no crescimento das mudas em Fordlândia, mesmo com a técnica de enxerto. Essa técnica é a união dos tecidos vegetais de duas plantas, passando a formar uma planta com duas partes. É uma forma de reprodução assexuada e usa-se geralmente para melhorar as condições da planta e agilizar seu crescimento.
Gastão Cruls, em seu artigo Impressões de uma visita à companhia Ford industrial do
Brasil, publicado em 1939, destaca que um dos motivos de Fordlândia não ter tido sucesso
diante dos investimentos foi a falta de seleção das árvores plantadas, o que teria contribuído
215 PEREIRA, José. Cidade na floresta: Belterra, a Experiência da Plantation de Seringa de Henry Ford na
Amazônia Brasileira 1934-1945. In: En Avanses del Cesor, 2013, pp. 134 -135.º
para o baixo retorno das plantações216, porém, essa informação não condiz com a matéria sobre
Fordlândia da Revista Cruzeiro, de 1931, que afirma que estariam construindo um viveiro para seleção de boas mudas de árvores que seriam utilizadas nas plantações217. Logo, não podemos
afirmar que a causa da baixa produtividade de Fordlândia tenha ocorrido por uma questão de uma seleção executada sem critérios nas plantas matrizes, a causa mais plausível dessa baixa produtividade foi a questão do solo e das pragas que atacaram as plantas.
Os investimentos somente na área de Fordlândia foram de aproximadamente 20 milhões218 de dólares, mas mesmo todo esse capital não foi capaz de contornar os problemas
que foram cruciais para o fracasso do projeto.
A dificuldade no cultivo da Hevea brasiliensis em seu habitat natural não era algo esperado, pois acreditava-se que não seria necessário nenhum tipo de aclimatação ou mesmo adaptação das plantas já que estavam local nativo. Porém, a remoção da floresta nativa acabou contribuindo para o desgaste do solo onde foram plantadas as árvores de seringueira.
Outro elemento que pode ser somando aos motivos que contribuíram para o fracasso das plantações em Fordlândia foi que a companhia não contava com nenhum especialista em cultivo de seringueira, ou seja, não existiam profissionais especializados219 que conhecessem
os processos capazes de minimizar os prejuízos e contornar o fracasso nas plantações.
As plantações de Fordlândia além de terem seu crescimento comprometido por conta do solo não ser o ideal para o cultivo, devido a suas irregularidades naturais, ainda sofreu com ataques de fungos que acabaram espalhando-se por toda a plantação.
Essa condição patológica, conhecida como o “mal das folhas”, é a doença mais grave para o cultivo de seringueira nas Américas. As árvores com os fungos apresentam como característica principal partes esbranquiçados nas folhas, em pequenos pontos, o que acabava matando-as ainda muito jovens. Esse fungo é comum na região e, por conta da proximidade das árvores uma das outras, acabava alastrando-se de modo muito rápido nas plantações, não dando tempo de ser combatido com eficácia. “O mal das folhas, doença causada pelo fungo
Microcyclusulei, até então era desconhecido pelas equipes técnicas de americanos de
Fordlândia, por isso não estavam preparados para combatê-lo”220.
216 CRULS, Gastão. Impressões de Uma Visita à Companhia Ford industrial do Brasil. In: Revista Brasileira
de Geografia, 1939, p. 6.
217 O Cruzeiro, 28 de novembro de 1931, p. 4. 218 BUENO, 2012, p. 98.
219 GRANDIN, 2010, p. 157. 220 SENA, 2009, p. 93.
Fordlândia torna-se inviável em 1934, suas plantações estavam seriamente comprometidas com o “mal das folhas”, que causava a morte das árvores, tornando assim a viabilidade das plantações de seringueiras impossível, e ainda se tinha como agravante a falta de contingente para trabalhar nas plantações e nas operações ligadas ao parque industrial da Companhia Ford Industrial do Brasil.
O fungo Microcyclusulei era desconhecido pelas equipes de pesquisadores de Henry Ford. Acreditavam que os locais das plantações, por serem muito baixos em relação ao nível do mar, acabavam por contribuir para a disseminação da doença.
A área de Fordlândia deixou de receber investimentos destinados ao cultivo das árvores de seringueira e passou a ser a base de pesquisa da Companhia Ford Industrial do Brasil, ou seja, a cidade ia deixa de ser o principal ponto de investimentos. Como solução, é pensado pela administração da CFIB criar uma nova área de cultivo, onde os erros que foram compreendidos em Fordlândia pudessem de alguma forma ser contornados e finalmente os investimentos pudessem se converter em exploração do látex.