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De entre os métodos qualitativos, destaca-se a análise de conteúdo com recurso a dados provenientes de entrevistas. “A entrevista é um dos mais poderosos meios para se chegar ao entendimento dos seres humanos e para a obtenção de informações nos mais diversos campos” (Amado & Ferreira, 2013, p. 207), permitindo a análise do sentido que os indivíduos dão às práticas e aos acontecimentos com os quais se confrontam (Quivy & Campenhoudt, 2008), produzindo informações valiosas sobre as suas experiências de vida, atitudes, opiniões e aspirações, e, desta forma, recolhendo dados que, de algum modo, são mais difíceis de obter ou mesmo inacessíveis usando outras técnicas de pesquisa, tais como questionários e observações (Rose & Grosvenor, 2001).

A opção metodológica para a recolha dos dados recaiu na realização de entrevistas semiestruturadas (Amado & Ferreira, 2013; Bardin, 2009), porque têm como função proceder a um diagnóstico e/ou caracterização, fornecendo pistas para a descrição e compreensão do processo em estudo. Este tipo de entrevista baseia-se num guião, elaborado e validado previamente, onde se define e regista o que se pretende obter (cf. anexo I). Não obstante a existência do roteiro, permite-se ao entrevistado discorrer sobre o assunto.

7.3.1. Estrutura da entrevista

Na elaboração das questões colocadas nas entrevistas, procurámos cingir-nos aos temas de interesse do trabalho, evitando abordar áreas do foro da vida pessoal e íntima, sem qualquer relevância e interesse, e assegurando o anonimato e a confidencialidade no tratamento e na divulgação das informações, quer de nível pessoal, quer institucional, salvaguardando-se, deste modo, o estrito respeito pela reserva da vida privada, bem como pelos direitos, liberdades e garantias fundamentais (cf. Lei n.º 67/98).

Na fase de preparação e estruturação, elaborámos um guião de entrevista que incluiu as dimensões abordadas, os objetivos que se pretenderam alcançar e as questões fundamentais, ordenadas de uma forma lógica e organizada com a finalidade de permitir obter o máximo de informação (Amado & Ferreira, 2013) sobre todos os tópicos (Bell, 2010). O guião contempla duas fases de aplicação da entrevista, no início e no final do processo formativo, aos mesmos indivíduos que frequentaram formação de professores para a educação especial.

O guião de entrevista foi estruturado em três partes. As duas partes iniciais correspondem à primeira fase das entrevistas. A primeira parte centrou-se na recolha de alguns dados demográficos dos entrevistados, designadamente, identificação, habilitações académicas e profissionais, situação e experiência profissionais com indicação de prática docente, ou não, com alunos com necessidades educativas especiais (quadro 2).

Quadro 2 - Guião de entrevista relativo à caracterização dos entrevistados

Dimensões Indicadores Identificação Data de nascimento

Género Habilitações académicas e

profissionais

Habilitação profissional inicial Habilitação académica atual Situação e experiência

profissionais Relação jurídica de emprego

Tempo de serviço global em educação e ensino

Experiência docente com alunos com necessidades educativas especiais

A segunda parte centrou-se nas dimensões relativas à motivação para o exercício de funções docentes em educação especial, às motivações para a frequência de formação de professores para a educação especial e às expectativas face à formação em educação especial (quadro 3).

A motivação faz parte dos fatores humanos internos que influenciam os comportamentos humanos. De uma forma geral, “motivo é tudo aquilo que impulsiona a pessoa a agir de determinada forma ou, pelo menos, que dá origem a uma propensão a um comportamento

específico” (Chiavenato, 1995, p. 65). Deste modo, ao questionar-se o motivo por que alguém age de determinada forma entra-se na questão da motivação (Chiavenato, 1995).

Quadro 3 - Guião de entrevista da primeira fase das entrevistas

Dimensões Objetivos Motivação para a educação

especial Verificar a motivação para o exercício de funções docentes no grupo de recrutamento de educação especial. Motivação para a formação em

educação especial

Determinar as motivações para a frequência de formação de professores para a educação especial.

Expectativas no início da

formação Identificar as expectativas iniciais face à formação de professores para a educação especial.

Nesta parte do estudo procuramos, assim, verificar a motivação dos indivíduos para o exercício futuro de atividade docente no grupo de recrutamento de educação especial. Para tal, os entrevistados foram questionados, na primeira e na segunda fases das entrevistas, acerca da intenção de concorrerem para o grupo de recrutamento de educação especial, designadamente em situação de igualdade de circunstâncias com o grupo de recrutamento correspondente à sua formação inicial. Por outro lado, pretendemos determinar as motivações que levaram os indivíduos a frequentarem uma formação de professores para a educação especial e conhecer as expectativas iniciais que tinham face ao processo formativo, ou seja, o que pretendiam esperar e obter da e com a formação.

A terceira parte do guião, correspondente à segunda fase das entrevistas, incidiu nas dimensões da motivação para o exercício de funções docentes em educação especial, de considerações sobre a formação recebida para esta modalidade educativa e de propostas que contribuíssem para a melhoria do modelo e da formação de professores para a educação especial (quadro 4).

Quadro 4 - Guião de entrevista da segunda fase das entrevistas

Dimensões Objetivos Motivação para a educação

especial

Verificar a motivação para o exercício de funções em educação especial.

Considerações sobre a formação recebida

Analisar as considerações sobre a formação de professores para a educação especial frequentada.

Analisar o impacto da formação de professores para a educação especial na atividade docente.

Processo de formação Contribuir com propostas para a melhoria do processo de formação de professores para a educação especial.

Nesta fase das entrevistas, aplicadas aos mesmos indivíduos da fase anterior e que decorreu no final do processo de formação de professores para a educação especial, procurámos verificar a motivação para o exercício de atividade docente no grupo de recrutamento de educação especial e comparar com a situação averiguada na primeira fase. Esta análise baseou-se no questionamento dos entrevistados acerca da opção que tomariam em situação de concurso de recrutamento de professores face à possibilidade de poderem concorrer em pé de igualdade para os grupos de recrutamento correspondentes à formação inicial e à educação especial.

Acerca das considerações, os entrevistados foram estimulados a efetuarem um balanço sobre a formação recebida, sem alinhamento, de forma a poderem destacar livre e espontaneamente os aspetos mais significativos, tendo apenas como ponto de partida as expectativas reveladas inicialmente. No seguimento das manifestações pessoais, tivemos a preocupação de introduzir, nesta dimensão, alguns tópicos de análise sempre que o entrevistado não os abordava, designadamente, a praticidade, os conhecimentos, as atitudes e valores e o impacto da formação na atividade docente.

Na dimensão relativa ao processo de formação, partindo da sua experiência profissional docente com alunos com necessidades educativas especiais e da frequência desta formação, os entrevistados foram desafiados a emitir opinião acerca do processo de formação de professores para a educação especial, propondo aspetos ou fatores que, na sua perspetiva, poderiam contribuir para a melhoria da formação dos professores desta modalidade educativa.

7.3.2. Validação do guião de entrevista

Após a elaboração e discussão do guião de entrevista, passámos ao processo de validação do seu conteúdo, prosseguindo, para tal, as seguintes etapas:

I. Elaboração de uma primeira versão do guião de entrevista a partir da revisão bibliográfica, da experiência docente e dos objetivos do estudo.

II. Validação do guião, efetuada por peritagem, com consulta de quatro peritos: dois docentes universitários doutorados especialistas em metodologia qualitativa; dois docentes de educação especial com o grau de mestre em exercício de funções docentes em educação especial.

III. Reformulação do guião de entrevista a partir das sugestões propostas pelos peritos. As sugestões apresentadas incidiram, sobretudo, na alteração de alguns termos menos claros e/ou geradores de potenciais dificuldades de compreensão.

IV. Realização de uma entrevista piloto a um docente de educação especial com o objetivo de avaliar a clareza e a pertinência das questões da entrevista. De todo este processo resultou a versão final do guião de entrevista.

7.3.3. Procedimento de recolha de dados

O processo de recolha de dados iniciou-se pelo contacto com os docentes coordenadores dos cursos de formação de professores para a educação especial no sentido de articular e facilitar o acesso aos participantes. Posteriormente, em data acordada, deslocámo-nos às três instituições de ensino superior colaborantes e, em plenário, explicámos os objetivos e a metodologia adotada, salientando a garantia de anonimato da informação registada, o regime de voluntariado dos participantes e a importância da participação no estudo. Após a anuência e a disponibilidade dos participantes, as entrevistas realizaram-se em espaços das instituições, gentilmente cedidas para o efeito.

As entrevistas iniciaram por uma introdução genérica, com destaque para os objetivos e a descrição das etapas do estudo, assegurando o anonimato e disponibilizando o acesso a toda a informação registada em sistema áudio. Procurámos, assim, motivar individualmente os participantes e dar um tom geral de conversa, livre e aberta (Quivy & Campenhoudt, 2008), de modo a que a informação pretendida fluísse naturalmente.

Na condução das entrevistas, procurámos adotar uma postura geradora de empatia que envolvesse o participante no trabalho, colocando as questões e dando o tempo necessário para os participantes responderem e exporem as suas perspetivas e argumentações. Por vezes, houve necessidade de reconduzir a entrevista para os objetivos do estudo. Ao longo deste processo de recolha de dados, mantivemos a mesma rotina e procurámos que as entrevistas fossem aplicadas de forma o mais homogénea possível (Quivy & Campenhoudt, 2008), evitando a parcialidade (Bell, 2010).

A primeira fase das entrevistas decorreu nos meses de novembro e dezembro de 2013. A segunda fase realizou-se nos meses de abril e final de maio de 2014. As entrevistas foram gravadas em sistema áudio com o consentimento voluntário de todos os participantes. Posteriormente, executámos pessoalmente a audição dos registos e a respetiva transcrição (cf. anexo III).

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