• No results found

2. LITERATURE

2.1 D IGITAL TECHNOLOGY AND RELATED CONCEPTS

Conceituar palavra não é uma tarefa trivial, uma vez que o termo pode assumir diferentes contornos, segundo as diversas dimensões dos estudos lingüísticos. Decidimos, em razão do interesse particularmente estético de nossa abordagem (análise do caráter poético das estruturas de composição da palavra-valise), não fixar uma definição particular, o que acarretaria encerrá-la no contexto tão somente de uma determinada teoria. Tampouco

percorrer seus vários significados, de acordo com as diversas correntes dos estudos da linguagem vigentes, o que nos desviaria da perspectiva escolhida.

Optamos, sem maiores desdobramentos, por aceitar o conceito de palavra no seu sentido amplo de vocábulo que apresenta significação lexical, ou seja, que representa idéias ou coisas. Assim, ficam excluídos aqueles de função primordialmente gramatical ou instrumental, caso das preposições e conjunções, que atuam na organização das relações entre as palavras. Ainda, orientamos nosso interesse apenas para sua dimensão escrita, para a denominada palavra gráfica, com suas regras próprias. A vantagem de tal escolha é, por um lado, a de que ficamos restritos aos limites do livro analisado e, por outro, que o reconhecimento da palavra se dá imediatamente, em razão dela ser não só

uma unidade delimitada por separador, i. é., por espaços em branco ou quebras de linha, mas também por sinais de pontuação ou ainda por letras de traçado diferenciado, consoante ocupem ou não a posição final na palavra escrita. (ROSA, 2003, p.74)

O conjunto de palavras disponíveis como base para a atuação das regras de formação de palavras representa, numa perspectiva sincrônica, o léxico atualizado de uma língua. O termo

base é aqui entendido como “uma seqüência fônica recorrente, a partir da qual se forma uma nova palavra, ou através da qual se constata que uma palavra é morfologicamente complexa” (ROCHA, 1998, p. 100). Diacronicamente, o léxico pode ser percebido, entretanto, como sendo formado pelas palavras já existentes e aquelas potenciais, derivadas da competência lexical do usuário da língua.

O conceito de “competência lexical” é um dos pontos centrais da “teoria gerativa”. Porém, antes de explicitar sua natureza, passemos brevemente em revista os principais modelos de estudo da Morfologia derivacional. De modo geral, os especialistas costumam agrupá-los em

três grandes correntes: a da chamada Gramática Tradicional ou Normativa, a identificada pela abordagem Estruturalista e aquela denominada de Gerativismo.

A primeira, que tem no século XIX um momento destacado de desenvolvimento dos estudos sobre a constituição de palavras, caracteriza-se pela ênfase colocada na dimensão morfológica. Voltando suas análises para o reconhecimento dos elementos morfológicos básicos (radical-terminações) e suas relações combinatórias, deixa de lado o caráter dinâmico dos processos neológicos. Possui, portanto, uma visada preferencialmente estática e prescritiva. O modelo é reconhecido pela expressão “Palavra e Paradigma”,

no qual as palavras são consideradas como as unidades mínimas na análise lingüística e o termo “paradigma” se refere ao esquema de variações acidentais de forma que diferentes classes de palavras apresentam, dentro de condições contextuais específicas. (BASÍLIO, 1980, p. 24)

A segunda, desenvolvida ao longo da primeira metade do século XX, especialmente a vertente norte-americana, proporcionou um grande avanço nos estudos derivacionais, na medida em que privilegiou a análise sobre a estrutura interna das palavras, com destaque para o morfema como unidade mínima de som e significado. Mas também este modelo, de caráter explicitamente analítico e classificatório, não dava atenção suficiente para os aspectos criativos da morfologia. Ficou conhecido como modelo “Item (ou Elemento) e Arranjo”.

Neste modelo, a análise morfêmica consiste de a) segmentação dos enunciados em morfes, isto é, seqüências mínimas recorrentes a que se pode atribuir significado; e b) classificação de morfes em classes, os morfemas, na base da distintividade fonético-semântica. (BASÍLIO, 1980, p. 25)

A terceira corrente conhecida como Teoria Gerativa desenvolveu-se a partir dos estudos do lingüista norte-americano Noam Chomsky (1928-), tornados públicos nos anos 50 do século

passado, com a proposição de uma gramática gerativo-transformacional. Diferente das anteriores, nesta o aspecto criativo é identificado no uso que se faz da linguagem. Assim, a morfologia, nessa nova perspectiva, amplia os estudos de caráter estruturalista e focaliza seu interesse na capacidade do usuário de uma língua em formar novas palavras. Este modelo é também identificado pela expressão “Item (ou Elemento) e Processo”. Rosa (2003, p. 49) esclarece:

O formato que a análise toma em IP [Item e Processo] é o que se chama

derivação: camadas estruturais que se formam sucessivamente, pela

aplicação de operações a uma determinada cadeia de elementos.

Derivação, nesse sentido, não tem o significado mais comum nos

estudos lingüísticos, quando se opõe a flexão.

Esta última abordagem nos parece a mais adequada para o estudo dos processos neológicos, sobretudo os referentes aos neologismos literários e, em especial, o caso particular das

palavras-valise. Retomando o conceito de “competência lexical”, ele é definido por Basílio

(1980, p.8) como a capacidade que o usuário da língua tem de “formar palavras novas (...) assim como analisar a estrutura de palavras já existentes e estabelecer relações de vários tipos entre elas”. Essa capacidade pressupõe:

a) o conhecimento de uma lista de entradas lexicais; b) o conhecimento da estrutura interna dos itens lexicais, assim como relações entre os vários itens; e c) o conhecimento subjacente à capacidade de formar entradas lexicais gramaticais novas (e, naturalmente, rejeitar as agramaticais).

Nesse ponto, devemos fazer uma ressalva. No caso da palavra-valise tomada como neologismo literário, o item “c” referido acima deve ser relativizado, tendo em vista a grande liberdade presente em sua composição. As regras de formação de palavras e mesmo as gramaticais ficam subsumidas pela singularidade da produção estética.

Mas, de modo geral, o que levaria à produção de novas palavras? Segundo Basílio (2000, p.67) a formação de palavras leva em conta três funções básicas: “a função de denominação, que corresponde, naturalmente, a necessidades semânticas; a função de adequação discursiva e a função de adequação sintática”. Da segunda, distinguimos uma situação particular, tendo em vista a especificidade do discurso literário, a função de composição estética, que, mesmo podendo, em alguns casos, ser cumulativa com as demais, de forma individual ou combinada, guarda uma diferença fundamental: não atende, prioritariamente, às necessidades pragmáticas da comunicação corrente. A idéia habitual é que uma nova palavra só se forma quando se tem uma razão prática para isso, ou seja, para se “adequar” a necessidades de comunicação social e/ou de nomeação referencial. Tal não ocorre com a função de composição estética. Esta possibilita, de outro modo, o denominado neologismo literário, que apresenta uma necessidade expressiva singular.

Diante do quadro esboçado acima, somos levados, imediatamente, a pensar nos estudos de Roman Jakobson (1970) a respeito da Função Poética da linguagem, cuja definição se ampara no reconhecimento de que na construção da cadeia verbal, se apresentam atuantes dois modos básicos de organização dos seus elementos: o por “seleção”, feito com base em elementos associados em paradigmas, a partir do critério da similaridade; e o por “combinação”, que os relaciona em sintagmas, baseado no critério da contigüidade. A função poética se apresenta quando o princípio de similaridade se superpõe ao de contigüidade, isto é, a seqüência que se constitui o faz sob o prisma da equivalência de suas unidades.

No caso da palavra-valise, sua montagem pode ser compreendida a partir desse quadro referencial. O princípio de seleção das palavras/bases orienta, seja pela proximidade sonora, pelo compartilhamento de letras, pelo trocadilho e outros artifícios, sua combinação em

palavra composta. Jakobson (1970, p.149) anota que a “similaridade superposta à contigüidade comunica à poesia sua radical essência simbólica, multíplice, polissêmica”. Basta trocarmos, na afirmação acima, a palavra “poesia” por palavra-valise, para que compreendamos o alcance e a riqueza poética desse recurso. A palavra-valise é, portanto, uma expressão das possibilidades da materialização poética; é, em si mesma, um verdadeiro micro poema, prenhe de significações.