En 8 til 4 jobb?
5.3 Spenning som motivasjon: ”Det er gøy dette her…”
5.3.3 Ideologiske motivasjoner?
No Brasil estudos como o de Antônio Cândido (1997) e Maria Alice Setúbal (2005) deram destaque às mudanças no modo de vida dos rurais14. O trabalho de Cândido (1997) intitulado “Os Parceiros do Rio Bonito” votou-se para a investigação das transformações que envolviam os meios de vida dos caipiras paulistas, entre as décadas de 1940 e 1950. Cândido chamou a atenção em seu estudo para o fato de que mesmo ao trazer consigo uma cultura “rústica” típica de “sociedades camponesas” os caipiras paulistas apresentavam determinadas característica de pertencimento ao mesmo sistema básico de valores da cidade, o que lhe permitiu instrumentalizar a noção de “sociedade parcial e cultura parcial”.
Setúbal (2005) em seu ensaio sobre os modos caipiras de vida desfaz uma abordagem preconceituosa do homem do campo enquanto sinônimo de atraso e de detentor de costumes ultrapassados. A partir dos costumes do homem simples do interior de São Paulo, Setúbal retrata o modo de vida a partir dos aspectos culturais, econômicos e sociais, tais como: a forma de moradia, os hábitos alimentares, o vestuário, as festas, a moda de viola, as prosas, o artesanato, as práticas religiosas e as crenças, os laços de compadrio e solidariedade que definiriam o modo de ser rural. O modo de vida dos paulistas, estudados por Candido (1997) e Sétubal (2005), a partir da análise do cotidiano, aponta para uma perspectiva de cultura como sendo dinâmica e maleável face ao processo de aproximação da sociedade rural com a urbana.
Rambaud (1973) também centrou seus estudos sobre as mudanças dos modos de vida, ao pesquisar o processo de urbanização das sociedades rurais na França, depois da Segunda Guerra Mundial. O autor caracterizou a urbanização como um complexo processo de circulação cultural, no qual as mudanças ocorreriam de forma distinta entre os grupos sociais, mesmo dentro de um mesmo village. Conforme observou Rambaud, as transformações ocorridas nas sociedades rurais advinham da circulação de pessoas, de bens e serviços relacionados à “Cultura Urbana”. Contudo, essa movimentação impactava de forma distinta os diferentes grupos sociais. O autor percebeu que as mulheres e os jovens, por exemplo, se mostravam mais abertos às mudanças culturais e à adoção de novas tecnologias, tornando-se, por vezes, difusores de novos hábitos e
14 Isabel Guerra (1993) afirma que os modos de vida são formas da ação da estrutura, isto são formas da ação coletiva formalizada ou institucionalizada por meio de um mínimo de organização decorrente de uma racionalidade e intencionalidade dos indivíduos.
valores. Já os homens adultos e os idosos se revelavam mais hostis à incorporação de valores provenientes dos meios urbanos.
Os estudos de Rambaud nas aldeias francesas mostraram que naquele local o modo de vida dos rurais se transformou de forma processual e heterogênea. Contudo, o ponto mais significativo nos estudos de Rambaud foi mesmo destacar o processo de penetração da cultura urbana nas sociedades rurais, por meio de vários vetores, tais como: o turismo rural, a educação, o jornal, as atividades não agrícolas, o reordenamento fundiário. Dessa forma, o trabalho deste autor leva a crer que a maior interatividade entre campo e cidade vem se processando via o acesso dos rurais a novas atividades no mercado de trabalho no campo e na cidade, bem como pelo acesso aos meios de informação e de comunicação, aos meios de locomoção, pelo consumo de bens industrializados, mas, também, pela oferta de serviços de lazer por parte dos rurais aos citadinos, favorecida pela valorização destes de uma vida mais tranquila e ambientalmente mais “saudável”. Todo este contexto aponta para o avanço do processo de urbanização dos modos de vida no campo, mesmo que de forma gradual e heterogênea (RAMBAUD, 1973).
Rambaud (1973) afirmava que este processo de urbanização das sociedades rurais se faria por meio da aculturação do modo de vida rural ao urbano, mas não implicaria em um processo homogeneizador e sincronizado. Tratar-se-ia, antes, de um processo de incorporação, por parte de alguns segmentos da sociedade rural, de hábitos de consumo e modos de vida dos citadinos, que implicaria em escolhas feitas pelos rurais daquilo que considerariam relevantes para si entre os elementos da cultura urbana com os quais entravam em contato. Poderia ser um refrigerante, uma camiseta, um trator, um estilo musical, um modo de falar, etc.. A aculturação implicaria, portanto, em graus de abertura diferenciados na adoção de novas práticas ou produtos.
Deste modo, cada indivíduo a partir daquilo que lhe atrairia, interessaria ou julgasse vantajoso, formaria o que Rambaud (1973) denominou de canivar15, que em uma linguagem metafórica poderia ser descrito como uma espécie de bordado que o indivíduo imprimiria em uma tela, a partir das suas escolhas. Na linguagem sociológica o canivar se encaixaria perfeitamente na perspectiva teórica da estruturação de Giddens (1991), que contempla, por um lado, a força da estrutura que atua sobre o indivíduo, representada pela tela, mas, por outro, elenca a capacidade de ação do indivíduo,
15 O canivar pode ser entendido como um bordado em uma tela, ou seja, o indivíduo teria a possibilidade de escolha dentro de uma estrutura constituída.
representada pelo bordado. Dessa forma, os rurais, a partir das referências do mundo que os cercam, seriam capazes de fazer escolhas individualizadas. O canivar seria, portanto, construído por meio das escolhas que o indivíduo, a partir do seu próprio ambiente, realizaria por meio de suas experiências que se materializam nos seus modos de vida.
Ainda segundo Rambaud (1973), não seria conveniente interpretar as mudanças nos modos de vida dos rurais, considerando-se simplesmente, as práticas e comportamentos dos indivíduos de um determinado grupo etário, pois eles podem oscilar sucessivamente de comportamento. Somente quando as práticas e os comportamentos dos rurais se manifestam nas suas referências normativas cotidianas é que se poderia aceitar que o processo de aculturação aos modos de vida urbanos teria se processado de forma efetiva.
Uma das esferas da vida em que o processo de aculturação se mostrou de forma mais clara nos estudos de Rambaud nas sociedades rurais francesas estava relacionada aos padrões de consumo, que deixaram de ser voltados para a autossubsistência e se voltavam para o mercado. De acordo com Sciré (2012) o consumo poderia ser compreendido enquanto um conjunto de práticas culturalmente organizadas, que produziriam uma prática cultural, porque instituiria um espaço endógeno de relações que abrangeria hierarquias, simbologias e sentidos.
O consumo modificaria as relações entre significantes e significados e criaria uma imagem dos rurais sobre a sociedade urbana, mas, também, sobre eles mesmos. Até mesmo os espaços mais isolados recebem serviços comerciais ou culturais por meio das escolas, imprensa, mercado de trabalho, turismo, e também por meio dos pendulares do campo que estão, cada vez mais, marcados pela interação com o ambiente citadino. Assim sendo, é de se esperar que se encontre entre os habitantes do campo a formação de um canivar mais urbanizado.
Diante da pluralidade de contextos das pequenas cidades e do campo brasileiro com espaços ora muito estagnados ora muito dinâmicos, o próximo capítulo apresentará a realidade socioeconômica de Cajuri e Coimbra, na Zona da Mata mineira, a fim de familiarizar o leitor acerca dos municípios investigados.