INTRODUÇÃO À CRÍTICA DA RAZÃO PURA
Neste capítulo será realizada a análise comparativa entre as duas edições da Introdução à Crítica da razão pura. O objetivo desta análise é compreender o motivo das principais mudanças operadas por Kant neste texto preliminar. Neste sentido não se pretende realizar uma leitura exaustiva de cada uma das introduções, o esforço analítico deverá ter como meta e limite a reconstituição de aspectos dos textos que nos permitam relacionar as mudanças ao que as motiva. Esta comparação não releva somente as discrepâncias entre as duas edições da Introdução à Crítica da razão pura, mas também as continuidades e o aprofundamento na apresentação de elementos que já estavam presentes no texto preliminar da primeira edição. Como era de se esperar em uma obra cuja apresentação em geral foi muito alterada, a segunda edição da Crítica da razão pura traz outro prefácio, porém suprime completamente o primeiro. O mesmo não ocorre com a Introdução, que é modificada, mas não substituída. O que talvez possamos explicar por um caráter mais sistemático do gênero introdução em comparação com o estilo ensaístico do gênero prefácio.
Análise da Introdução à Crítica da razão pura
O efeito mais facilmente observável das mudanças realizadas por Kant na Introdução à Crítica da razão pura para a segunda edição da obra diz respeito a uma extensão muito maior do novo texto em relação ao primeiro. A Introdução da segunda edição tem praticamente o dobro da extensão do texto introdutório de 1781. O acréscimo no número total de páginas, (consideradas pequenas mudanças na diagramação do texto) de 16 para 30 páginas, pode ser explicado tanto por uma reordenação de grande parte do texto introdutório em novas divisões (a Introdução passou de 2 seções para 7), quanto pela inserção de novos trechos no texto. Hans Vaihinger propõe um esquema que propicia uma compreensão intuitiva destas
alterações. O comentador alemão começa apresentando os títulos das seções da Introdução à Crítica da razão pura na primeira edição da obra:
α) Ideia da filosofia transcendental.
β) Divisão “ “ “
“Diferentemente, a Introdução na segunda edição contém sete seções:” 1) Da diferença entre conhecimento puro e conhecimento empírico.
2) Estamos de posse de determinados conhecimentos a priori e mesmo o senso comum nunca deles é destituído.
3) A filosofia carece de uma ciência que determine a possibilidade, os
princípios e a extensão de todo o conhecimento a priori. 4) Da distinção entre juízos analíticos e juízos sintéticos.
5) Em todas as ciências teóricas da razão encontram-se como princípios juízos
sintéticos a priori.
6) Problema geral da razão pura.
7) Ideia e divisão de uma ciência particular com o nome de Crítica da razão pura.
“O seguinte esquema permite uma visão geral sobre a relação das supracitadas partes constituintes das redações [da edição] A e B [da
Introdução]:” A B Retirado de A Substitui trechos de A Apenas em B 1 2 α 3 4 5 6 β 7
“Isto significa que as seções 3,4,7 da segunda edição foram tomadas da primeira; as seções 1, 2 e 5, 6 pertencem somente à segunda edição; 1 e 2 constituem apenas modificações dos textos da primeira edição; 5, 6 são inteiramente novos. (As seções transpostas 3,4,7 mantém-se quase inalteradas, mas a maioria das mudanças incide sobre a seção 4.) Ambas as seções principais da primeira edição estão distribuídas nas sete seções da segunda edição, na qual o conteúdo da primeira seção da primeira edição (Ideia da filosofia transcendental) é ajustado às seis primeiras seções e à metade da sétima seção; o conteúdo da segunda seção da primeira edição (Divisão da filosofia transcendental) forma a segunda metade da sétima seção da segunda edição.”128
A valorização da função propedêutica do questão transcendental
As mudanças realizadas por Kant na Introdução à Crítica da razão pura na segunda edição da obra dizem respeito fundamentalmente à valorização, como recurso propedêutico, da “questão transcendental” – como passa a ser designada a partir de 1783 – ou “problema geral da razão pura” – como é designada em 1787 –, a qual foi consagrada na fortuna crítica da filosofia kantiana sob a seguinte expressão: como são possíveis os juízos sintéticos a priori? Chama atenção de qualquer leitor habituado com a Introdução à Crítica da razão pura em sua segunda edição a brevidade da apresentação do problema da fundamentação dos juízos sintéticos a priori e da relação deste com a investigação crítica na primeira edição da obra. Todavia, somente com a publicação dos Prolegômenos, em 1783, a Crítica da razão pura passa a ser explicitamente apresentada como solução para a “questão transcendental principal”, a qual, desde então, ganha papel privilegiado no discurso propedêutico de Kant. Tomemos um trecho do texto introdutório aos Prolegômenos que apresenta a ideia de filosofia transcendental através da colocação da referida questão:
“Pode dizer-se que toda a filosofia transcendental, que precede necessariamente toda a metafísica, não é em si mesma senão a solução completa da questão aqui posta, mas numa ordem sistemática e com riqueza de pormenores, e que, por conseguinte, não se possui até agora nenhuma filosofia transcendental: com efeito, o que leva o seu o nome é, na
128 Vaihinger, H. Commentar zu Kants Kritik der reinen Vernunft. Stuttgart: Verlag von W. Spemann,
realidade, uma parte da metafísica; essa ciência deve, porém, primeiramente tornar possível a metafísica e, por conseguinte, precedê-la. Não é preciso, pois, admirar-se se uma ciência inteira e privada, além disso, de todo o socorro das outras ciências, por conseguinte, uma ciência inteiramente nova, é necessária para responder de maneira suficiente a uma só questão, se a resposta à mesma está associada ao esforço e à dificuldade, mais ainda, a uma certa obscuridade.”129
Os textos preliminares da primeira edição da Crítica da razão pura estão longe de enfatizar a importância da colocação da “questão transcendental” para o sentido da investigação crítica, bem como de apresentar a filosofia transcendental como sua “solução completa”. Este recurso propedêutico passa a ser privilegiado por Kant somente com a publicação dos Prolegômenos. Como analisamos anteriormente, a obra de 1783 é concebida por Kant como um plano que sucede a Crítica da razão pura e a partir do qual o leitor “se encontra assim na situação de abranger o todo com a vista, de examinar peça por peça os pontos principais que importam nesta ciência, e organizar muitos pormenores melhor do que podia acontecer na primeira redação da obra <ersten Ausfetigung des Werks>”130. Nos Prolegômenos , a
constituição desta visão geral da Crítica da razão pura recorre a um modo de apresentação ordenado de acordo com o método analítico131. Neste sentido era
fundamental que Kant pudesse conferir unidade às investigações que seriam empreendidas na obra, assim, como vimos no capítulo anterior após a colocação da “questão principal”, ela “é dividida em quatro outras questões e pouco a pouco resolvida”. Segundo Kant a solução destas quatro tarefas “deve constituir o conteúdo essencial da Crítica”, de modo que a resposta a cada uma destas questões, que compõe o conteúdo apresentado sinteticamente ao longo da Crítica da razão pura, corresponde às quatro partes que constituem os Prolegômenos. A centralidade conferida por Kant nos Prolegômenos à colocação da “questão transcendental” para a constituição do sentido da Crítica da razão pura a torna um recurso propedêutico indispensável, o qual deve, portanto, ser apresentado de forma condizente com este valor.
129 Prol. IV:279. pp.43-44. 130 Prol. IV: 263. p.21. 131
“O método analítico, enquanto oposto ao método sintético, [...] significa apenas que se parte daquilo que se procura, como se fosse dado, e se vai até às condições sob as quais unicamente é possível.” Prol. IV: 276, p.40. (nota) Cf. Prol. IV: 263. p.21. Sobre a diferença entre o método analítico e o sintético cf. Logik IX: 149, p.166.
A compreensão da “questão transcendental” é condição propedêutica indispensável para que o leitor possa compreender a própria ideia de uma Crítica da razão pura. No capítulo anterior vimos que no Apêndice de Prolegômenos, ao refletir sobre as falhas de leitura da Resenha de Göttingen Kant destaca o fato de que seu autor anônimo nada disse a respeito da questão principal investigada na Crítica da razão pura – fato que poderia explicar sua compreensão falha da obra132. Todavia a
censura de Kant ao seu malfadado resenhista explicita um problema dos textos preliminares da primeira edição da Crítica da razão pura. Em vista da importância atribuída por Kant à compreensão da “questão transcendental” como condição prévia para a correta interpretação da própria Crítica da razão pura, chama atenção o fato de que na primeira edição da obra, os textos preliminares não tenham destacado a importância da questão proposta. No texto introdutório de 1781 não há sequer o que Kant afirma, nos Prolegômenos, ser a expressão da questão “com precisão escolástica”, isto é, “como são possíveis proposições sintéticas a priori?”133.
Na Introdução da primeira edição o problema da fundamentação da síntese a priori certamente é explicitado, porém, somente de modo breve, num subitem da primeira seção dedicado à “distinção entre juízos analíticos e juízos sintéticos”134.
Neste trecho da Introdução da primeira edição – o qual se mantém em sua maioria no texto da segunda edição –, a divisão entre juízos analíticos e juízos sintéticos é estabelecida a partir da comparação entre os dois modos como sujeito e predicado de um juízo podem estar relacionados: nos juízos analíticos “a ligação do sujeito com o predicado é pensada por identidade” – no texto Kant não explicita o princípio de contradição como fundamento dos juízos analíticos, tal como o faz nos Prolegômenos135 – uma vez que a análise do conceito que ocupa a posição
de sujeito no juízo é suficiente ligá-lo ao predicado, o qual, portanto, já estava “contido (implicitamente)” no conceito do sujeito136; nos juízos sintéticos, ao contrário,
o conceito que ocupa lugar de sujeito na proposição é ligado a “um predicado que nele não estava pensado e dele não podia ser extraído por qualquer decomposição”137. A partir desta distinção Kant destaca duas conclusões
132 Cf. Prol. IV:375-376. p.179. 133 Prol. IV:276. p.40. 134 KrV. A6-10. 135 Cf. Prol. IV:267. pp.25-26. 136 Cf. KrV. A6-7/B10. 137 Cf. KrV. A7/B10. p.43.
decorrentes da comparação entre os dois modos de predicação: a primeira conclusão diz respeito ao caráter meramente explicativo do juízo analítico, através do qual não podemos ampliar nosso conhecimento, mas somente tornar os conceitos “mais compreensíveis” – os juízos sintéticos, ao contrário, são denominados “juízos extensivos” por permitirem a ligação de um conceito a outro que não estava nele contido, portanto, o conhecimento diz respeito aos juízos sintéticos; a segunda conclusão desdobra o problema central da fundamentação dos juízos sintéticos (ou seja, do conhecimento): “que nos juízos sintéticos devo ter, além do conceito do sujeito, alguma coisa de diferente, X, sobre o qual se apoia o entendimento para conhecer o predicado, que não está contido neste conceito, todavia lhe pertence.”138
Nos dois parágrafos seguintes Kant examina em que consistiria este X (esta expressão é quase inteiramente suprimida na reelaboração da Introdução para a 2ª edição da Crítica da razão pura, com exceção de uma ocorrência que será citada abaixo) em cada uma das espécies em que distingue os juízos sintéticos, isto é, nos juízos de experiência e nos juízos sintéticos a priori. É preciso lembrarmos que na primeira edição da Introdução esta divisão dos juízos sintéticos se ampara na apresentação da diferença entre o conhecimento empírico e o conhecimento a priori, a qual havia sido estabelecida logo no início deste texto preliminar139. A partir desta
divisão dos juízos sintéticos Kant conclui que “nos juízos empíricos, ou de experiência, não há dificuldade alguma, pois este X é a experiência completa do objeto que eu penso pelo conceito A, o qual exprime apenas uma parte dessa experiência.”140 A experiência, portanto, fornece a fundamentação da síntese dos
conceitos nos juízos empíricos.
A dificuldade reside noutro ponto: “Nos juízos sintéticos a priori falta, porém, de todo essa ajuda [da experiência]”141. Constituído o problema da síntese a priori,
resta expressá-lo sob a forma de questão:
“Se ultrapasso o conceito A para conhecer outro conceito B, como ligado ao primeiro, em que me apoio, o que é que tornará a síntese possível, já que
138 KrV. A8. p.44.
139 Cf. KrV. A1-2. pp.56-57. Adiante, na dissertação, analisaremos como esta diferença é apresentada
nas duas versões do texto introdutório.
140 Idem.
não tenho, neste caso, a vantagem de a procurar no campo da experiência?”142
Esta formulação está longe da expressar a questão transcendental com a “precisão escolástica” pretendida a partir dos Prolegômenos, contudo seu sentido é o mesmo: a identificação das condições de possibilidade da síntese a priori. Na continuação do texto Kant procura exemplificar a dificuldade da questão proposta examinando o caso de uma proposição sintética a priori:
“Tomemos a proposição: Tudo o que acontece tem uma causa. No conceito de algo que acontece concebo, é certo, uma existência precedida de um tempo que a antecede, etc. e daí se podem extrair conceitos analíticos. Mas o conceito de causa está totalmente fora desse conceito e mostra algo de distinto do que acontece; não está, pois, contido nesta última representação. Como posso chegar a dizer daquilo que acontece em geral algo completamente distinto e reconhecer que o conceito de causa, embora não contido no conceito do que acontece, todavia lhe pertence e até necessariamente? Qual é aqui a incógnita X em que se apoia o entendimento quando crê encontrar fora do conceito A um predicado B, que lhe é estranho, mas que se encontra, contudo, ligado a esse sujeito?”143
Chama a atenção do leitor habituado com o texto dos Prolegômenos e da segunda edição da Crítica da razão pura a proposição sintética escolhida por Kant para exemplificar a referida dificuldade: trata-se justamente de uma expressão da relação de causalidade. A escolha desta proposição sintética a priori não se deve ao acaso. Quem quer que tenha lido os textos preliminares dos Prolegômenos ou da segunda edição da Crítica da razão pura poderá reconhecer que, para Kant, a gênese da questão transcendental se encontra no questionamento do caráter a priori do princípio de causalidade efetuada por David Hume. Assim, o fato de que na Introdução presente na primeira edição da Crítica da razão pura não haja qualquer referência explícita a Hume parece ser intencional: em 1781 a apresentação propedêutica da obra ao leitor teria desviado propositalmente de Hume – ao contrário do que acontece em 1783 ou em 1787, como examinaremos na próxima seção desta dissertação.
Este desvio de Hume na Introdução à Crítica da razão pura de 1781 se deve certamente ao modo como seu autor então concebia a apresentação propedêutica
142 KrV. A9/B12-13. pp.44-45. 143 KrV. A9/B13. p.45.
da obra: em 1781 parecia suficiente explicitar brevemente a importância filosófica da colocação da questão da síntese a priori sem afirmar explicitamente que a Crítica da razão pura nasce como uma tentativa de solucioná-la. O reconhecimento desta importância pode certamente ser identificado nas linhas finais do primeiro item da Introdução. Após destacar a conclusão de que é sobre a síntese a priori que “assenta toda a finalidade última do nosso conhecimento especulativo a priori”144,
uma vez que a importância e necessidade dos juízos analíticos para o conhecimento está somente no seu caráter explicativo, Kant estabelece a relação entre a ideia da obra e a questão que acaba de ser constituída. Todavia, isto ocorre somente de modo implícito:
“Há aqui, pois, um certo mistério, cujo descobrimento tão-só pode fazer seguro e digno de confiança o progresso no campo ilimitado do conhecimento intelectual puro; a saber, descobrir, com a universalidade apropriada, o fundamento da possibilidade dos juízos sintéticos a priori, penetrar as condições que tornam possível cada espécie, e ordenar todo esse conhecimento (que constitui o seu gênero próximo) num sistema, englobando as suas fontes originais, divisões, extensão e limites, sem se restringir a um esboço rápido, mas determinando-o de maneira completa e suficiente para todos os usos. Basta por agora acerca dos caracteres particulares que têm em si os juízos sintéticos.”145
Para o leitor dos Prolegômenos é possível reconhecer neste trecho, suprimido na segunda edição, não somente a relação da questão proposta com a obra, mas também que o plano geral desta decorre da colocação da referida questão, todavia isto talvez não fosse possível para um leitor que dispusesse somente da Introdução presente na primeira edição da Crítica da razão pura. Embora o item seguinte da Introdução de 1781 comece com a afirmação de que “de tudo isto resulta a ideia de uma ciência particular que pode servir à Crítica da razão pura”146, a relação entre a
obra e a questão proposta é apresentada de modo ainda pouco claro e, em comparação com o texto introdutório da segunda edição da obra, não parece suficiente para fazer com que o leitor apreenda a partir daí a ideia de uma Crítica da razão pura. O que não implica que em 1781 ainda não houvesse a ligação entre esta ideia e a colocação do problema dos juízos sintéticos a priori. Esta interpretação
144 Idem.
145 KrV. A10. pp. 45-46. 146 KrV. A11. p. 52.
seria um erro absurdo. Na Introdução de 1781 já havia sido afirmada inclusive a importância filosófica da questão pela possibilidade destes:
“Se houvesse ocorrido a um antigo levantar esta questão, ter-se-ia esta, por si só, fortemente oposto a todos os sistemas da razão pura até aos nossos dias e poupado tantos ensaios vãos, que tão cegamente se empreenderam, sem saber do que propriamente se tratava.”147
Na Introdução de 1781 não há propriamente uma falta em relação a algum conteúdo essencial para a apresentação propedêutica da Crítica da razão pura, contudo no que diz respeito ao modo de apresentar este conteúdo há uma grande distância em relação ao texto preliminar da segunda edição da obra. Observe-se, em comparação com os Prolegômenos e com a Introdução da segunda edição da Crítica da razão pura, a brevidade da colocação da questão e o fato de que sua importância filosófica é apresentada somente em nota e como uma hipótese ligada aos antigos, sem qualquer menção a Hume.
O que se opera a partir de 1783 é uma mudança no modo de apresentação da referida questão e, através desta, na apresentação propedêutica da própria obra ao leitor. Os elementos que constituem esta mudança são a criação uma designação – a “questão transcendental”, expressão utilizada a partir dos Prolegômenos, ou, o “problema geral da razão pura”, expressão do texto de 1787 –; a formulação da questão com o que Kant diz ser uma “precisão escolástica”148, a qual não se
verificava em 1781; a ênfase na importância filosófica da colocação da questão e sua vinculação histórica a Hume; e, a explicitação direta de sua relação com a ideia de uma Crítica da razão pura.
Neste sentido, Kant insere e dedica o sexto item da Introdução de 1787 exclusivamente ao problema geral da razão pura, destacando de início dois ganhos imediatos de sua colocação:
“Muito se ganha já quando se pode submeter uma multiplicidade de investigações à formula de um único problema, pois assim se facilita, não só o nosso próprio trabalho, na medida em que o determinamos rigorosamente, mas também se torna mais fácil a quantos pretendam examinar se o realizamos ou não satisfatoriamente. Ora o verdadeiro
147 KrV. A10. p. 46. 148 Cf. Prol. IV:276.
problema da razão pura está contido na seguinte pergunta: como são
possíveis os juízos sintéticos a priori?”149
Tal como havia feito em 1783 nos Prolegômenos, Kant faz questão de explicitar para o leitor duas consequências benéficas da mera colocação do “problema geral da razão pura”: no nível da elaboração da obra o autor tem seu trabalho facilitado por uma ordenação metódica de suas questões, uma vez que pode “submeter uma multiplicidade de investigações à formula de um só problema”; no nível da interpretação da obra, compreendido o problema proposto, o leitor tem seu trabalho facilitado uma vez que pode julgar se as investigações empreendidas pelo autor da obra tem sucesso na solução proposta – tomando o sucesso ou fracasso na resolução da questão transcendental o leitor ganha portanto um critério para avaliação da obra, bem como um fio condutor para sua interpretação. A colocação do problema geral da razão pura na Introdução adquire assim o caráter