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Nos anos que circundam a vida de Angela, a Europa (naturalmente, a Itália também) conheceu 16 papas. Os conflitos entre Igreja e Estado atingiam todas as camadas sociais. Alguns homens, possuidores de profundo sentimento religioso, procuraram por reformas sinceras, tanto no interior da Igreja, quanto no Estado. Entre eles, Gregório X (1271-1276), Celestino V (1294) e o rei canonizado São Luiz (1226-1270). Mas nenhum esforço foi capaz de deter o declínio do prestígio do papado. Na Itália, na segunda metade do século em questão, século XIII, assistia-se a guerras constantes entre as cidades inimigas que emergiam

em decorrência do desmoronamento do feudalismo. Como nos aponta Lachance, “[...] os sinais de desagregamento social e político estavam em todo lugar. Dante resumiu habilmente o resultado da crise espiritual política no sexto canto do Purgatório: ‘Ah dividida Itália, imersa em fel, nau sem piloto, em meio do tufão, dona de reinos, não, mas de bordel’”47.

As cidades, que surgiam das rotas comerciais em expansão pela Itália, traziam o aparecimento de uma nova classe social: a mercantil. Esta, por sua força econômica, permitia não só a expansão do Ocidente europeu como também sua aliança com o Oriente. Elas funcionavam como centros comercial, artístico, intelectual e religioso. Nelas se estabeleciam as novas universidades.

Como cidades e comunidades se tornaram movedoras principais da nova civilização, elas se tornaram locais para o estabelecimento das numerosas e poderosas universidades. Paris e Bolonha estavam entre as mais notáveis. Os grandes sistemas escolásticos elaborados nestes novos centros de aprendizagem, competiam com a existência de um padrão de pensamento de controle do clima cultural e intelectual. Nas artes, um novo estilo, mais realístico encontra expressão nas obras-primas de um Giotto e um Cimabue. Um deslocamento da representação de Cristo triunfante para o Cristo que sofre na cruz começa a firmar-se em 1250-1255. 48

Foligno acompanhou de perto o desenvolvimento comercial da Umbria. Localizada no Vale da Úmbria, a poucas milhas de Assis, Foligno possuía uma posição estratégica, em meio às rotas de comércio que ligavam Ancona, Florença e Pisa, sendo eixo do tráfico entre os mares Adriático e Tyrrhenian. O desenvolvimento econômico penetrava o universo religioso da cidade, evidenciado pelo aumento do número de igrejas e conventos construídos no final do século. “A igreja institucional neste período pareceu participar da euforia econômica que Foligno estava apreciando, como foram comprovados pelos resultados de um censo (1295 – 1296), pedido pelo Bispo Bernardo, para avaliar a riqueza de propriedade eclesiástica em sua diocese [...]”49 E, como se poderia esperar, em reação à esta abundância econômica ostentada pela instituição, um grande número de reformadores, entre eles os mendicantes, predominantemente franciscanos, se encontravam atuantes pela região. Os dissidentes da família franciscana, os Espirituais, circulavam ao redor de Foligno e se relacionavam, direta ou indiretamente, com os habitantes desta cidade, inclusive Angela. Entre os mais representativos, encontravam-se os já mencionados Angelo de Clareno, Ubertino de Casale e o poeta dos Espirituais, Jacopone de Todi.

47 LACHANCE, Angela of Foligno, p. 25. 48 Ibid., p. 25.

Além dos grupos acima mencionados, havia também em Foligno a presença do movimento penitencial de mulheres, de comunidades semelhantes ao estilo das beguinas, de movimentos populares como o Flagellanti, Fraticelli e da seita do Espírito de Liberdade. Esta última recebe critica radical por parte de Angela que, diferentemente da seita, não acredita na capacidade humana para conduzir a alma a Deus. Diz ela nas Instruções: “Se há alguns (como esses que dizem ter o ‘espírito de liberdade’) que clamam viver sem desejos e não têm nenhum anseio e de maneira nenhuma e em momento algum são responsáveis por suas ações, eles não devem ser acreditados, pois não dizem a verdade.”50

Em meio a essa efervescência religiosa que circulava pelo vale da Umbria e Foligno, Angela se situava e trilhava seu próprio caminho. Vivia em uma casa simples, em companhia de uma mulher conhecida pelo nome de Mazzuola, no estilo das beguinas. Freqüentava a igreja franciscana próxima de sua casa e o convento de São Francisco que, no final do século XIII, era indiscutivelmente o núcleo central dos Espirituais. Acredita-se que o irmão A, confessor de Angela, pertencia a ele.

Também ligada a esse convento de S. Francisco, encontrava-se uma fraternidade, fundada em 1270, à qual Angela pertencia. Formada por homens e mulheres pertencentes à Ordem de Penitência, essa fraternidade condensava em suas convicções preceitos pertencentes ao franciscanismo, aos Espirituais e ao Fraticelli. Mas não possuímos maiores informações a seu respeito, pois pouco se sabe sobre essa fraternidade de um “franciscanismo subterrâneo”, do qual Angela participou e terminou seus dias no papel central de Mãe Espiritual.

Assim, finalizamos o contexto histórico de Angela. Sua mística comporta todas as características apontadas até aqui, formando, por meio dessas qualidades comuns ao universo místico, um caminho singular e original. Sem dúvida alguma, a trajetória espiritual de Angela, assim como a de todo místico, inicia-se dentro de um repertório coletivo e comum à mística da época, para depois suplantá-lo num mergulho único. É pelo menos o que Angela nos relata ao retornar das trevas: “Quando estou nesta treva não me lembro de nada que seja humano, nem do Deus-homem, nem de nenhuma coisa que tenha forma. No entanto, vejo tudo e não vejo nada”51.

50 LACHANCE, Angela of Foligno, p. 224. 51 Ibid., p. 205.

Fig. 2 Mosteiro Franciscano de Foligno. Foligno, 2005, fotografia col. gentilmente cedida por Dom Bernardo Bonowitz, OCSO.

CAPÍTULO II

COMENTADORES DO LIVRO DA ABENÇOADA