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In document Drømmen om Jugoslavia (sider 30-33)

A avaliação neuropsicológica apresenta-se como uma disciplina com finalidade, procedimento e corpo de investigação intrínsecos. Embora os seus primórdios estejam enraizados em intuitos de determinação e localização de lesões cerebrais, a actualidade conferiu-lhe uma dinâmica multifacetada e multicontextual de acção.

Os objectivos do exame neuropsicológico passaram a estender-se por várias frentes: poderá ser implementado para auxiliar a formular um diagnóstico ou para permitir estabelecer o sistema de cuidados pessoais /familiares ao indivíduo; para avaliar a eficácia de um programa de intervenção, para erigir um programa de reabilitação, ou para fins de investigação; para testar uma questão forense em contexto judicial ou ainda para auxiliar a construir um programa educativo na escola. Destes múltiplos objectivos decorrem diferentes procedimentos de avaliação que variam conforme os contextos e a questão de referenciação.

Os modelos primordiais tiveram origem na investigação neuropsicológica de Luria (Christensen, 1975), vinculadas a uma análise fenomenológica dos défices apresentados pelos doentes neurológicos. Estes modelos orientavam-se para a obtenção de “informação relevante” acerca das capacidades deterioradas e preservadas, numa lógica de posicionamento do indivíduo num determinado patamar de funcionalidade social ou laboral. Embora a postura de Luria se direccionasse para uma avaliação centrada na compreensão do doente, e na sua adesão aos tratamentos, estes primeiros modelos foram comparados a procedimentos de testagem, tendo sido criticados, nos anos que se sucederam, por diversos autores (e.g. Dana & Leech, 1974). As críticas incidiram na forma de perspectivar o sujeito, reduzindo-o a um objecto, classificado e diagnosticado.

Também tradicionalmente, a avaliação colocava examinador e sujeito em extremos hierárquicos, cabendo a este último sujeitar-se às directivas de testagem daquele. A aproximação aos modelos humanistas efectuou-se por intermédio de Berg (1984), que

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propôs a implementação de um “modelo transaccional” de testagem, enfatizando uma relação colaborativa entre examinador e sujeito.

O modelo de Berg foi desenvolvido posteriormente por Fischer (2000), no chamado modelo de Avaliação Colaborativa e Individualizada. Trata-se de um modelo que incide sobre o papel do indivíduo na construção do seu processo de avaliação, numa perspectiva de valorização da sua experiência de vida e da sua percepção pessoal do desempenho ao longo da testagem. Todos os resultados são partilhados de forma aberta e heurística, pelo que o indivíduo tem acesso total aos resultados dos testes, podendo comentar ou questionar as respectivas interpretações. Esta perspectiva inicia um novo paradigma de avaliação neuropsicológica, contrariando a prática tradicional de manter os resultados num lugar intangível.

Na fundação deste modelo ocupam lugar de destaque as perspectivas humanista e fenomenológica, que centram todas as práticas clínicas na procura do entendimento da experiência do sujeito, nas vertentes existencial, reflexiva e comportamental. Nesta óptica, a avaliação neuropsicológica constitui apenas uma ferramenta que auxilia o sujeito no seu esforço de compreensão e adaptação ao mundo. Os procedimentos de avaliação são decididos colaborativamente entre examinador e sujeito, e este é incentivado permanentemente a partilhar o seu entendimento sobre o processo, sobre a forma como integra os resultados na sua experiência de vida, numa lógica mais descritiva do que classificativa.

Concluindo, os aspectos salientes deste modelo são o atendimento ao todo do indivíduo numa perspectiva humanista, fenomenológica e holística, a consideração da sua perspectiva pessoal, da sua complexidade e ambiguidade (Fischer, 2000), e da integração do processo de avaliação neuropsicológica numa abordagem com finalidades heurísticas, na qual o sujeito é visto como um agente activo decisor da sua própria vida.

Nos últimos anos, um outro modelo, fortemente enraizado na tradição psicanalítica e nos princípios terapêuticos defendidos por Lerner (2005), começou a tomar forma, baseado na premissa de que a avaliação serve a intervenção. O modelo da Avaliação Terapêutica (Finn, 2008) parte dos objectivos concretos e dos problemas

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experimentados pelo sujeito para desenvolver o processo de avaliação. Por isso, o modelo direcciona o processo de testagem para variáveis intra e inter-pessoais, conjugando a avaliação das dimensões cognitivas com a reflexão, o diálogo e a atenção permanente à expressão de percepções e de sentimentos pelo sujeito. Aos testes de desempenho nas diferentes áreas são aduzidos o Minnesota Multiphasic Personality Inventory - MMPI, o Rorschach, e testes de funcionalidade psicossocial. O processo de avaliação apoia-se em diálogo constante com o sujeito, utilizando a empatia como técnica de intervenção, a qual permite obter informação e aceder ao mundo subjectivo do sujeito, constituindo, deste modo, um processo intersubjectivo que incentiva à comunicação e à expressão, e que ajuda o sujeito a desenvolver-se e a sarar (ibidem).

Nesta linha de reflexão, Gorske (2008) propõe um modelo de Avaliação Neuropsicológica Terapêutica, fundado na ideia de que a avaliação deve constituir um momento terapêutico, acrescentando ao modelo anterior o valor dos resultados da testagem neuropsicológica das funções cognitivas e motoras.

Actualmente, assiste-se a uma reorientação dos modelos de avaliação neuropsicológica em torno da dualidade sujeito / família. Por um lado, os modelos acima descritos impelem-nos à construção de processos de avaliação claramente colaborativos, co- partilhados, dinâmicos e heurísticos, no sentido de suscitar o envolvimento e o desenvolvimento do sujeito enquanto decisor último do seu próprio percurso. Por outro lado, enfatizam problemas e questões colocados pelo sujeito e pela sua família / cuidadores, subordinando o processo de testagem à intervenção que incrementa o domínio (empowerment) dos mesmos sobre a realidade.

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3.2.

AVALIAÇÃO TRADICIONAL E AVALIAÇÃO ACTUAL DAS FUNÇÕES

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