CHAPTER 2. THEORETICAL FRAMEWORK OF THE STUDY
2.2. Identifying the Subjects of the Study
Luciano, em seus escritos, procura antes de tudo reviver os princípios da Grécia clássica, não escrevendo na língua falada em seu tempo, mas como se fazia nos séculos V e IV a.C. Nesse momento, a literatura está centrada na releitura ou reescrita dos clássicos, de maneira que não importa tanto que mito ou fato se vá abordar, e sim como será abordado, pois a mitologia, a história e as tradições já eram conhecidas da maioria das pessoas cultas, de modo que a ênfase maior se põe nos recursos utilizados para dar nova vida aos diferentes temas.
Como resultado dos preceitos aticistas e da sua formação cultural ampla, a escrita luciânica será entrecortada por alusões a outros autores, às vezes de forma explícita, outras vezes de uma forma residual e natural. Em Héracles estão presentes, como em boa parte da obra de Luciano, várias citações de Homero, uma de Eurípides e outra de Anacreonte. Dessa forma fica demonstrado que Luciano conhece muito bem as obras clássicas e sabe como utilizá-las para criar uma nova escrita num contexto, já bem diferente do daqueles outros escritores, renovando os gêneros literários com que trabalha.
Além de influenciado pela Segunda Sofística, Luciano é também e principalmente conhecido por ser um escritor de sátiras menipeias. Embora muito pouco se saiba sobre o próprio Menipo de Gadara, um escravo sírio, conterrâneo, portanto, do nosso autor, que teria sido um dos mais eminentes representantes da escola cínica, a tradição lhe atribui a autoria de treze livros sobre a ignorância dos homens e a inutilidade da filosofia.43 Suas obras não chegaram até nós, mas temos
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notícia de que suas sátiras eram caracterizadas por algumas ações realizadas por filósofos, tais quais as viagens celestes, os banquetes, os leilões públicos e viagens a mundos subterrâneos, entre outros. Tais elementos podem ser encontrados na obra do samosatense: as viagens celestes descritas em Icaromenipo, a caracterização de seres de outros planetas em Narrativas verdadeiras, o banquete em obra homônima, os leilões em Leilão de Vidas, e as viagens a mundos subterrâneos nos Diálogos dos mortos. A sátira menipeia é caracterizada por ser uma mistura de elementos sérios e cômicos, que se chama, na língua grega,44 de
spoudogeloîon, um gênero que explora intencionalmente a junção do riso com
temas graves. Caracteriza-se também por paródias e certo fundo edificante, peculiares da literatura cínica, bem como a quebra de hierarquias e de valores e pela inversão dos mesmos, levando a um rebaixamento e a uma igualação das pessoas, desprezando para isso seus títulos e condições econômicas. Exemplo desse tipo de texto é a obra luciânica intitulada Diálogos dos Mortos.
A paródia, em Luciano, é amplamente utilizada, e não só nos textos com tendência menipeia, tendo como finalidade tanto criticar o modo de escrita que era utilizado por aqueles que contavam histórias fantásticas como se fossem verdadeiras, quanto deixar expresso seu reconhecimento para com a grande literatura do passado. De acordo com Bakhtin, “um autor pode usar o discurso de um outro para os seus fins, pelo mesmo caminho que imprime nova orientação semântica ao discurso que já tem sua própria orientação e a conserva”. Sendo esse movimento que configura a paródia, “esse discurso (...) deve ser sentido como o de um outro” e “em um só discurso ocorrem duas orientações semânticas, duas vozes”.45 44 BRANHAM, in MATUREM, 2009, p. 131. 45 BAKHTIN, 1981, p. 189.
Um exemplo desse uso está presente em Narrativas verdadeiras, em que são feitas críticas aos procedimentos dos narradores das literaturas de aventuras. O tom parodístico fica evidente na forma do texto e em recursos como o preâmbulo, as hipérboles e as fórmulas estereotipadas.46No prefácio se faz um pacto ficcional com o leitor explicando o objetivo com o qual se escreveu o texto e deixa claro que serão contadas mentiras, mas de modo convincente e verossímil, como convém a uma leitura de evasão.
No caso de Narrativas Verdadeiras são apresentadas duas vozes: uma que está no início do texto e tem a função de apresentar a obra aos leitores e deixar claro que mente, mas ao menos assume a mentira; e outra que adota o papel de narrador e personagem da viagem empreendida e não mede esforços para descrever os lugares incríveis em que esteve.
Na sua tentativa de escrever como escreviam seus antecessores, tendo Menipo como arquétipo, Luciano criou o diálogo cômico, em que une a comédia ao já conhecido diálogo filosófico, dando uma nova forma e função ao gênero, até então mais conhecido pelos escritos platônicos. Este recurso será utilizado na literatura cômica, satírica e retórica, não só por Luciano, mas pelos outros sofistas.
Segundo Ipiranga Junior,47 a prosa luciânica tanto se distinguiria da poesia anterior – épica, lírica, teatro – quanto manteria uma relação de alteridade com os outros discursos em prosa – histórico, filosófico, retórico, médico etc., formando o que podemos chamar de um mosaico da realidade vivida pelo autor no seu tempo.
A escrita de Luciano de Samósata não é distinta apenas para nós. Em seu tempo já provocava reações variadas. Filóstrato, em sua Vida dos Sofistas, não inclui Luciano em nenhuma das dez categorias em que dividiu e organizou os
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ALARCÓN, 1981, p.176-177.
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sofistas de seu tempo. Um possível motivo para isso poderia residir no fato de que a escrita de Luciano não poder ser reduzida a um dos modelos descritos por Filóstrato.
A escrita luciânica é emblemática e põe atritos em questão48: seja entre o novo e o velho, o helênico e o bárbaro, seja entre os gregos do segundo século e do passado; por isso é tão representativa de seu tempo.