7 Concluding Remarks
A.3 Identifying Permanent and Transitory Income Shocks
De forma bastante elementar, podemos dizer que o marxismo constitui seu conceito de alienação a partir da lacuna deixada por uma atividade laboral explorada, vazia de conteúdo signiicativo (Marx, 1983, p.146-181). Essa ideia do vazio deixado por um tra- balho não libidinal é tão contundente que o sistema capitalista im-
DIREITO, TÉCNICA, IMAGEM 193
possibilita qualquer escolha ao atribuir valor de capital ao trabalho explorado pela extração de “mais-valia”, retirando-lhe qualquer outro valor possível, o que se agrava pela precarização da produ- ção. Resta ao trabalhador apenas a vã tentativa de preencher esse vazio oriundo da deserotização laboral pelo consumo de mercado- rias, o que origina aquilo que Marx (1996) denominou “fetichismo da mercadoria”.
Por isso, segundo Adorno e Horkheimer (op. cit., p.112-114), a manipulação de objetos culturais enquanto mercadorias, pela in- dústria cultural, opera a partir de uma perversidade, pela qual um elemento trágico lhe fornece uma profundidade que o mero entrete- nimento não poderia propiciar, pois, em sua lógica esotérica, aquele que não adere aos seus parâmetros e não introjeta seus sentidos está ameaçado de destruição. Esvaziado de si pelo trabalho alienante, a única esperança de ressubjetivação do humano é a reposição libidi- nal prometida pela indústria cultural. Sem ela, não resta mais nada. Ela se presta a um papel de sublimação do prazer que foi extirpado do trabalho e, consequentemente, da subjetividade de um indivíduo esvaziado e alienado. Por isso, exacerba o fetichismo e mistiica as massas, corroborando a homogeneização universalizante da razão instrumental, sempre pautada pela técnica.
Para tanto, opera-se com uma estética luida e fungível, como tudo na modernidade, de modo que o trágico efêmero também se dis- solve na identidade da sociedade e do sujeito, o que acaba por ratiicar a completa eliminação do indivíduo iniciada pelo esclarecimento.
Na lógica da indústria cultural, o indivíduo é ilusório não apenas por causa da padronização do modo de produção, mas ele só é tolera- do na medida em que sua identidade incondicional com o universal está fora de questão:
O princípio impõe que todas as necessidades lhe sejam apresentadas como podendo ser satisfeitas pela indústria cultural, mas, por outro lado, que essas necessidades sejam de antemão organizadas de tal sorte que ele se veja nelas unicamente como um eterno consumidor, como objeto da indústria cultural. Não somente ela lhe faz crer que o logro que ela
oferece seria a satisfação, mas dá a entender além disso que ele teria, seja como for, de se arranjar com o que lhe é oferecido (idem, ibidem, p.17).
Nessa toada, a televisão é a mídia mais eicaz para realizar o projeto da indústria cultural, engendrando uma completa homoge- neização das subjetividades, uniformizando desejos e erigindo um conformismo do mundo, mais drasticamente do que qualquer outro meio de comunicação. Segundo Ellul (1984a, p.140), ela possui um poder incomparável de adaptação às instituições e se torna o prin- cipal agente de socialização, na medida em que integra o indivíduo no corpo social homogêneo, na coletividade, por meio da renúncia de sua individualidade ou, nas palavras do autor, de “ser eu”. Seu potencial de alienação é imenso, já que dicotomiza o objeto e suas múltiplas signiicações possíveis pela projeção de imagens absolutas e constantemente variáveis – não há tempo para a relexão e o sentido está constantemente excluído.
O objeto sempre está ali, de modo muito mais emblemático do que no Cinema, pois a imagem do objeto sempre está na tela e a tele- visão está sempre projetando imagens, na sala de casa, do quarto de dormir, em outros cômodos da casa, no trabalho, no restaurante, no bar, no carro etc., todos os dias, o dia todo. E se o rádio já era capaz de manipular as concepções de mundo dos ouvintes, a televisão o faz de forma inelutável, pois a imagem fonológica não é absoluta, permite interpretações e relexões críticas, ao passo que a imagem visual é, nas palavras de Ellul (ibidem, p.144), “sedutora, captadora e hipnótica”. É possível ouvir o rádio enquanto se realiza outra ativi- dade, mas é impossível conciliar a atividade de se assistir à televisão com qualquer outro ato – ou se olha para ela ou não.
Sob outro viés, ensina Ellul, que, na sociedade técnica, o apa- relho de rádio passou a servir apenas para proporcionar um fun- do musical, quer transmita uma sinfonia ou um discurso, tudo é banalizado e pasteurizado como ruído. Trata-se de uma forma astuta de se eliminar a relexão que a imagem fonológica poderia propiciar. Para Ellul (ibidem, p.149), isso é tão pernicioso quanto o império da imagem televisiva, pois também denota o achaca-
DIREITO, TÉCNICA, IMAGEM 195
mento da palavra. “Ora, a redução da palavra ao fundo sonoro é, a bem dizer, mais séria do que o silêncio ou a ausência da palavra. É a desvalorização de todo conteúdo possível desta palavra, o seu desprezo completo.” Esse desprezo pelos conteúdos, ou esse es- vaziamento de qualquer relexão a partir da música, e da arte em geral, é igualmente lamentado por Horkheimer (op, cit., p.44), no mesmo sentido, ao dizer:
Outrora, uma obra de arte aspirava dizer ao mundo o que ele era, for- mular um veredicto supremo. Hoje ela é completamente neutralizada. Tome-se, por exemplo, a sinfonia “Eroica”, de Beethoven. A audiência média de nossos dias é incapaz de perceber seu signiicado objetivo. O público ouve essa obra como se ela tivesse sido escrita para ilustrar os comentários do programa.
Em um ou noutro caso, o signiicado foi relegado ao não lugar. Ellul compara a televisão ao surrealismo, airmando que ela desem- penha um papel oposto a este, um antissurrealismo, pois, ao passo que aquele escancara a vacuidade e a vaidade da linguagem, na estei- ra dos cientistas e dos técnicos, banalizando a derrota do discurso, e ediicando a palavra como jogo, com a supervalorização dos signii- cantes (op. cit., p.164), a televisão exclui totalmente o sentido, como um decapante, criando a ilusão de que se vê o próprio objeto “em si”, e não uma representação dele, numa
[...] transformação radical do ver no visual. Visiona-se o ilme. Não é mais a apreensão o objeto, da realidade, pela minha própria vista, mas trata-se de uma imagem desta realidade, vista por outro, codiicada por outro, e que me é posta, simples imagem sem consistência que minha vista faz-me tomar como sendo a própria realidade. Esta imagem tem uma semelhança evidente com o “signiicado”, que é a realidade (idem, ibidem, p.141).
Segundo ele, no limite, a televisão forja uma adequação da ima- gem à realidade, do signiicante ao signiicado, constituindo uma falsa relação com o real, pela abstração inevitável para a interpreta-
ção, na percepção visual de imagens sequenciais, onde “[...] o real é retalhado e recomposto. O audiovisual é a reconstituição de um real destemporalizado, desmontado e depois retemporalizado.” (ibi- dem). Ainal, o que é o processo de captação de imagens e edição senão uma fragmentação e recomposição distorcida da realidade? Há uma reinterpretação do mundo e da sociedade, entregue a um espectador passivo, consumidor de imagens. “A sociedade deixa-se então ver como um lugar de encontro de imagens onde a lógica das coisas ocupa um lugar.” Assim, “De uma sociedade de indivíduos e ações individuais passamos para uma sociedade de papéis a repre- sentar”, emulando a própria distorção do mundo numa teatralização da vida (ibidem).
Essa relexão de Ellul é absolutamente próxima daquela que foi elaborada pelo sociólogo norte-americano Erving Goffman, para quem a interação social no dia a dia, especialmente em lugares pú- blicos, mimetiza uma peça de teatro, ou uma realidade “editada”, “dirigida”, e cada “ator social” teatralizará ações conforme as cir- cunstâncias em que se encontre, marcadas por rituais e posições dis- tintivas relativamente a outros indivíduos ou grupos. Para Goffman (1975, p.77), o desempenho dos papéis sociais tem a ver com o modo como cada indivíduo concebe a sua imagem e pretende mantê-la. Ao ocuparem papéis sociais, as pessoas veem o seu comportamento determinado não tanto pelas suas características individuais, mas, em maior medida, pelas expectativas sociais criadas em face da po- sição que ocupam. Essa relexão no âmbito da sociologia demons- tra que os sujeitos sempre se esforçam por corresponder a padrões de regularidade (ibidem, p.77). Estamos diante de mais um indício da homogeneização de condutas e da supressão de subjetividades operada pela razão totalitária e pela técnica, de que tratam Adorno, Horkheimer e Ellul.
Num mundo da espetacularização e da teatralização da vida, são emblemáticos os programas de auditório e de variedades, e os atuais propositalmente denominados reality shows, que transportam o espectador para a tela, tornando-o parte de um espetáculo, fantas- magorizando sua subjetividade a serviço da imagem e teatralizando
DIREITO, TÉCNICA, IMAGEM 197
a experiência, isto é, destituindo-o, ainda assim, de verdade ontoló- gica como partícipe manipulado de algo já posto. Porquanto, segun- do Ellul, estamos perpetuamente assimilando uma foto da realidade como se fora ela própria, corroborando o triunfo do material, e a pre- sentiicação da vida.
Então, não concebemos o futuro nem o passado, pois a imagem projetada sempre nos traz um sentimento de atualidade, de presença e imediatez. “No mundo artiicial das imagens a relação é puramente gratuita, passageira, da ordem do interesse, mas tão pouco existente quanto o fugaz interesse que dissipa a minha atenção” (Ellul, op. cit., p.146). O falso real constituído e a falsa relação com ele por meio da mediação das imagens criam também uma falsa linguagem, apa- rente, vazia e ictícia – inidônea à comunicação dialógica, pois emis- sor e receptor não se alternam. Porém, ao assistirmos à televisão, visionamos um fato como se dele fôssemos partícipes, locupletados por um sentimento de atualidade, objetividade e completude.
Nesse sentido, a alienação se pleniica, pois nos contentamos com a projeção absolutamente desmobilizadora, acreditando repor uma subjetividade alienada por imagens estéreis.“Eu vi, portanto eu agi. Todo este conjunto não somente esteriliza a intervenção, mas institui uma falsa relação a um falso real. Tomo por realidade o que me é mostrado e o real se apaga.” (idem, ibidem, p.146).
As imagens, que recebemos como fatos, são sempre imutáveis, constituindo um “eterno pela repetição, erguido ao nível de um atual constante” (Ellul, 1984a, p.134). Esquecemos que tais imagens são manipuladas por pessoas, a serviço de um projeto. Nesse ponto, no Brasil, é absolutamente emblemática a relação dos espectadores com as telenovelas, os quais costumeiramente assimilam as personagens como pessoas reais, e introjetam as tramas com tal carga de signii- cação que elas passam a ocupar boa parte de suas preocupações e de seu imaginário. Assim, conclui Ellul (ibidem, p.142), “as contradi- ções sociais, elas serão da mesma maneira suprimidas, neutralizadas, esvaziadas pelo exclusivo motivo de serem imagens inevitavelmente selecionadas [...] Ela [televisão] é realmente uma construção da rea- lidade, aquilo que produz para mim uma explicação satisfatória.”
Destarte, acompanhando o autor, a TV realiza um importante papel de controle social, raptando a liberdade genuína para transfor- má-la num rebotalho de si, e, diz Ellul (ibidem, p.143): “Tudo que se situa fora das normas e dos paradigmas desta sociedade é reduzi- do, incorporado [...]”. Essa conformação de comportamentos opera- -se, principalmente, por uma falsa promessa de reposição libidinal da alienação, e sua eterna sedução se dá por meio da constante pre- sentiicação da imagem, pela efemeridade e fugacidade de projeções, exacerbando a alienação, por im.
A indústria cultural tornou-se tão absoluta e inelutável tam- bém porque as promessas que faz são irrealizáveis completamente na concretude, mas sempre se projetam imageticamente, criando a falsa sensação de realização e pertencimento. Pensando com Jac- ques Ellul, estamos insertos num labirinto absolutamente sem saída, alienados pela exploração do trabalho, esvaziados de subjetividade, reféns das imagens, despojados da palavra, iludidos pela projeção de um real ictício e reconstituído; nosso sentimento de pertencimento e liberdade são falsos, estamos atônitos, afásicos, somos não sujei- tos, não partícipes, e pior – acreditamos numa promessa que jamais, jamais será cumprida, pois é seu descumprimento que movimenta o sistema e o poder. Nesse sentido, complementando a lucidez áci- da de Jacques Ellul, encerramos com uma relexão de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer (op. cit., p.115):
A indústria cultural não cessa de lograr seus consumidores quanto àquilo que está continuamente a lhes prometer. A promissória sobre o prazer, emitida pelo enredo e pela encenação, é prorrogada indeini- damente: maldosamente, a promessa a que ainal se reduz o espetáculo signiica que jamais chegaremos à coisa mesma, que o convidado deve se contentar com a leitura do cardápio. Ao desejo, excitado por nomes e imagens cheios de brilho, o que enim se serve é o simples ecômio do quotidiano cinzento ao qual ele queria escapar. [...] Eis aí o segredo da sublimação estética: apresentar a satisfação como uma promessa rompi- da. A indústria cultural não sublima, mas reprime.