Conforme afirmado por North (2005, p. 23), as crenças dos seres humanos determinam suas escolhas no curso de suas vidas. Por sua vez, as mudanças sociais, políticas e econômicas ocorrem a partir das escolhas feitas anteriormente. Isso reforça a necessidade de compreensão das crenças dos indivíduos. North (2005) entende que os pressupostos do comportamento humano normalmente aceitos pela teoria econômica não são capazes de oferecer uma descrição da realidade. Nas palavras de North:
A presunção de racionalidade substantiva funciona bem em mercados competitivos com preços pós-fixados. [...] Mas tão logo sairmos de um modelo competitivo simples e o preço depender do comportamento de outros compradores e vendedores, a complexidade da decisão aumenta e cria a necessidade de se compreender o processo cognitivo. (NORTH, 2005, p. 23, tradução livre)
Ao tentar compreender o processo de formação de crenças, North faz uma breve exploração sobre duas questões complexas debatidas pela neurociência, e que ainda estão em aberto. A primeira delas diz respeito à pergunta sobre qual elemento exerce maior influência na estruturação do funcionamento do cérebro humano: a genética ou o meio ambiente (NORTH, 2005, p. 28).
A segunda controvérsia da neurociência abordada por North está relacionada ao próprio modo de funcionamento da mente humana. Segundo North (2005, p. 30-31), haveria dois modelos que tentam explicar o desenvolvimento do processo cognitivo humano: o modelo “clássico” e o modelo “conexionista”. Em breve resumo, o modelo clássico — que também é referido por North (2005, p. 30) como “abordagem da inteligência artificial” — afirma que o processo cognitivo humano opera de forma similar a um mecanismo computacional, por meio da armazenagem de símbolos e da execução de operações programadas. O segundo modelo, referido como “conexionista”, tenta simular os processos neurais, por meio de uso de estatísticas, aproximações, analogias e tentativas e erros (NORTH, 2005, p. 31).
Ainda em sua investigação sobre o modo de funcionamento da mente humana, North (2005) aborda as conclusões de Friedrich Hayek em “The Sensory Order” (1952). Para Hayek, a mente é conectada ao ambiente e, portanto, o mecanismo por meio do qual se
conhece o mundo externo é ele próprio uma forma de experiência. A cognição humana não é apenas influenciada pela sociedade e pela cultura, mas é em si um processo social e cultural (NORTH, 2005, p. 33-34). Essas primeiras impressões de Hayek seriam confirmadas pelas modernas teorias cognitivas e, com base nesses autores, North conclui que:
A herança cultural fornece a estrutura artefatual — crenças, instituições, instrumentos e tecnologia — que não apenas tem um papel essencial na formação das escolhas imediatas dos agentes em uma sociedade, mas também nos fornece dicas a respeito do fracasso ou sucesso dinâmico ao longo do tempo. Quanto mais rica essa estrutura artefatual, maior a redução de incertezas nas escolhas de um dado momento. Além disso, com o decurso do tempo, quanto mais rica a herança cultural, mais rico será o processo de experimentação e de concorrência criativa, tornando mais provável a sobrevivência da sociedade. (NORTH, 2005, p. 36, tradução livre)
A partir das afirmações feitas anteriormente, North (2005) afirma que há uma íntima relação entre o sistema de crenças e a estrutura institucional, e que elas se influenciam reciprocamente. North usa a figura dos andaimes (scaffolds) como metáfora de toda estrutura artefatual construída pelos seres humanos. Esses “andaimes” construídos pelos seres humanos não apenas definem as regras do jogo político, social ou econômico, mas também determinam quem terá acesso ao processo decisório nos referidos jogos. Por isso, entender as crenças, como elas se formam e se transformam, é fundamental para entender o processo de mudança institucional.
Nesse novo contexto — um mundo não ergódico dominado por incertezas em que as crenças (mesmo as não racionais) fazem parte do esforço cotidiano dos homens para tornar o mundo inteligível —, North (2005, p. 59) apresenta novas proposições sobre a forma em que as instituições se transformam. São elas:
1. A interação contínua entre instituições e organizações em uma configuração de escassez e, portanto, concorrência é a chave para a mudança institucional.
2. A concorrência força organizações a investir continuamente em habilidades e conhecimento para sobreviver. Os tipos de habilidades e conhecimento que indivíduos e organizações adquirem formarão percepções novas sobre oportunidades e, assim, escolhas que irão incrementalmente alterar instituições.
3. A estrutura institucional fornece os incentivos que determinam os tipos de habilidades e conhecimentos percebidos que possuem o máximo retorno (pay-off).
5. As economias de escopo, complementaridades e externalidades de rede de uma matriz institucional tornam a mudança institucional altamente incremental e dependente da trajetória. (NORTH, 2005, p. 59, tradução livre)
Com base nessas proposições, podemos perceber que, em sua obra de 2005, North mantém a divisão conceitual entre instituições e organizações, feita na obra de 1990. Como afirma o mencionado autor, os jogadores não podem ser confundidos com o jogo em questão. As instituições são, assim, as regras do jogo, aquelas restrições criadas pelos homens para orientar a conduta humana. Nas palavras de North (2005, p. 162), as instituições “incorporam a intencionalidade de nossa mente consciente”. Por sua vez, as organizações são grupos de pessoas relacionadas entre si por uma finalidade comum, normalmente para aproveitar as oportunidades criadas pela estrutura institucional existente. A contínua relação entre instituições e organizações é uma das principais fontes de inovação institucional.
No entendimento de North (2005, p. 60), as organizações tentarão aproveitar as oportunidades conferidas pelas instituições e envidarão esforços continuamente para sobreviver. Nessa tentativa, os esforços serão direcionados para a obtenção de informações e habilidades que garantirão a sobrevivência em face da concorrência. Quanto maior a concorrência entre organizações, maior será a obtenção de novas informações e habilidades, o que também acelerará o processo de mudança institucional.
Além disso, considerando que as organizações surgem como uma tentativa de aproveitar os incentivos criados pelas instituições, North (2005, p. 61) afirma que elas são um reflexo do arranjo institucional existente. Por sua vez, as instituições podem surgir como uma derivação das crenças compartilhadas pelos indivíduos em uma sociedade, que nem sempre são orientadas para o aumento de bem-estar da população.
Segundo North (2005, p. 61), o sistema de crenças influencia as decisões tomadas pelas pessoas e, para compreender o processo de tomada de decisões, é necessário entender as percepções dos indivíduos, i.e., o modo como as pessoas captam e processam as informações à sua volta. Nesse contexto, diferentes indivíduos no tempo e no espaço terão diferentes leituras da realidade, o que permite a existência de múltiplos equilíbrios, quer dizer, de diversas situações consideradas ideais pelos agentes (NORTH, 2005, p. 62).
Com base em “Understanding the Process of Economic Change”, de 2005, afirmamos acima que a contínua interação entre instituições e organizações é uma das causas principais para a mudança institucional e que as organizações surgem como forma de aproveitar os incentivos criados pelas instituições. Contudo, North (2005, p. 62) também afirma que a sobrevivência das organizações depende do arranjo institucional existente. Assim, as alterações institucionais promovidas pelas organizações normalmente não serão modificações que ameacem sua própria existência. O resultado disso, segundo North (2005, p. 62), é que as mudanças nas instituições são “tipicamente incrementais e dependentes de trajetória”. Nesse contexto, alterações abruptas ocorrerão apenas quando os participantes não consigam arrumar qualquer outra solução que garanta a continuidade. Por outro lado, o processo de mudança é dependente da trajetória, pois ele é orientado a partir das regras existentes no momento da mudança, que são corroboradas pelas crenças predominantes.