Iniciamos aqui a última subseção das teorias que compõem as ferramentas lógicas do sistema ockhamiano, a saber, a teoria da significação.
41 Sobre isto, deve-se destacar que resultam três aspectos relevantes: “1) uma definição deve
significar a mesma coisa significada pelo termo que ela define; 2) uma definição deve servir para informar o interlocutor daquilo que o termo definido significa, sendo, por isso, explícita; 3) uma definição deve ser algo complexo, uma oração, com a mesma extensão do que o termo por ela definido”. (FERREIRA, 2010, p. 115).
Seguindo a definição dada por Joice Beatriz, a propriedade dos termos referente à significatio não foge muito daquilo que seu próprio nome indica. Esta seria a própria capacidade de significar entendida no sentido mais amplo. O que nos leva a concluir que, nesta perspectiva, o conceito é usado para construir uma referência objetiva, a qual é o significado (COSTA, 2012, p. 39). Para Ockham, a
significatio, de modo mais amplo, é o que se fixa na mente por meio de uma ou mais
palavras. Ele assevera:
Toma-se significar diferentemente, quando um signo pode supor por aquilo em alguma proposição sobre o passado ou sobre o futuro ou sobe o presente, ou em alguma proposição modal verdadeira. E, assim, ‘branco’ não significa somente aquilo que agora é branco, mas também aquilo que pode ser branco, pois na proposição ‘ um branco pode correr’, tomando o sujeito por o que pode ser, o sujeito supõe por aquelas [coisas] que podem ser brancas. Tomando significar e o correspondente significado no primeiro modo, pela mera mudança da coisa, frequentemente a palavra falada e também o conceito perdem o seu significado, isto é, algo que antes era significado deixa de ser significado. Tomando ‘significar’ e o correspondente ‘significado’, no segundo modo, a palavra falada ou o conceito, pela mera mudança da coisa exterior, não perde seu significado. (OKCHAM, 1999 a, p. 208)
É, pois, nesse sentido, que devemos entender que o significar (significare), de acordo com Joice Beatrice (2012, p. 40), é um ato e não algo dado, como é o caso da significação (significatio). À guisa de exemplo tomemos as palavras de Ferreira:
[...] um dado deve ser nosso ponto de partida, a significação apresenta a sua função básica em determinar de que forma se relacionam as palavras e as coisas. A significação é uma propriedade dos termos e, conforme o seu nome nos alude, sua característica é significar. Essa noção de significação pode ser entendida de duas formas. Uma no sentido amplo, outra no estrito. De forma ampla ela significa, ou seja, o conceito, ou a representação, é usado para se construir uma determinada referência objetiva, a qual denomina-se de significado. O diferencial depositado aqui é a separação entre o significado atribuído a um termo de forma isolada e quando este é tomado dentro de uma proposição. Em suma, essa visão ampla permite entender a significação como aquilo que fica presente na mente por meio de palavras. No sentido estrito, a significação remete a uma única realidade singular, ou seja, a palavra nos remete a um significado que denota um determinado indivíduo.
Para Ockham, o problema da significação nos coloca a necessidade de refletir sua capacidade e função de significar. Assim, ao analisar os termos, percebemos que os termos naturais podem significar de um modo natural, enquanto os termos escritos e orais somente poderiam ter significação estabelecida de forma convencional. Isso nos impele a conceber uma diferença entre o
significar (significare) e a significação (significatio). Portanto, significar apresenta-se como um ato, não simplesmente como algo dado, como é o que ocorre com o modelo da significação. (FERREIRA, 2010, p. 107)
Para Ockham, existem três tipos de significação: a significação natural, a significação representativa e a significação linguística.
Primeiramente, no que diz respeito à significação natural (COSTA, 2012, p. 41), podemos afirmar que esta se dá em um processo espontâneo onde os signos linguísticos mentais significam naturalmente aquilo que significam. Para Ockham, nesse tipo de significação são designados e distinguidos os signos primários e os signos secundários, os quais remetem a intenções da alma (signos primários) e às palavras faladas (signos secundários).
A significação representativa, por sua vez, é edificada nos conceitos de
vestigium e imago42, os quais atuam como signos representativos. Ambos conceitos são capazes de referir a uma realidade distinta entre si (COSTA, 2012, p. 40). Desta maneira, nos alicerces da significação representativa, podemos colocar o vestigium como “causado pela mesma coisa que nos leva ao conhecimento, diretamente, da coisa em si ou por meio de uma proposição contingente referente a ela” (COSTA, 2012, p. 40). De outra forma, ainda podemos ver que “a imago não está necessariamente causada pela mesma coisa que é significada” (COSTA, 2012, p. 40).
Em terceiro lugar, percebemos a significação linguística, a qual é consequência dos demais tipos de significação. Esta espécie de significação exerce, direta e conjuntamente com a teoria da suposição, a estrutura onde coincidem os signos linguísticos com a noção de termo (COSTA, 2012, p. 41). A esse respeito alerta Costa: “Contudo, o que interessa a Ockham é chegar a este nível de significação para deixar claro que é nele onde se dá a função significativa como geradora de conhecimento por meio da teoria da suposição. ” (COSTA, 2012, p. 41).
O questionamento acerca da relação entre a significação, as palavras, os conceitos e as coisas, nos leva a observar a subordinação simultânea e direta entre
eles, que, segundo o que defende Ockham, os signos escritos, orais e mentais significam de maneira direta as coisas (COSTA, 2012, p. 43). Seguindo a interpretação de Joice Beatriz, “a significação destes signos se dá de modo subordinado, pois as palavras são subordinadas aos conceitos. E as palavras somente significam as coisas porque os conceitos previamente as significam de modo natural” (COSTA, 2012, p. 43).
Por fim, para compreendermos o alcance da teoria ockhamiana da suposição, remontamo-nos às palavras de Costa:
[...] existe uma ordem de prioridade no processo de significação. Esta afirmação indica que as mesmas coisas são significadas em primeiro lugar pelos conceitos e após pelas palavras e, dentre estas, as palavras faladas são anteriores às escritas. [...] Com algumas nuances expostas do processo da significação em Ockham, pudemos demonstrar que esta propriedade dos termos se insere num processo semântico de construção e análise das partes que formam nossos discursos na proposição. (COSTA, 2012, p. 43)
Entendido o sentido da teoria da significação, encerramos a explanação acerca das ferramentas usadas dentro do sistema lógico de nosso autor. De posse de todos esses elementos podemos, agora, nos ocupar de descrever e entender o sentido e a estrutura da crítica nominalista ockhamiana ao realismo. Iremos nos ocupar dessa reflexão na próxima seção de nossa dissertação.