• No results found

Ideer om hva som kan forenkle vurdering og valg av trykksårbehandling

Filha de pais ingleses, mas nascida na Nova Zelândia, Katherine inicia seus estudos formais em uma pequena escola de povoado, semelhante àquela que servirá como

cenário para o conto “A casa de bonecas”. Mais tarde, aos 14 anos, ela e as duas irmãs mais

velhas são enviadas a Londres para concluir seus estudos no Queen's College of London. Depois de vivenciar a efervescência cultural da capital inglesa e descobrir seu talento para a escrita5, a jovem não consegue mais se adaptar à realidade provinciana de sua terra natal.

Katherine Mansfield rejeita o estilo de vida de seu país e de sua família. Apesar de morarem na colônia, eles seguem os padrões de comportamento vitorianos, rígidos e conservadores. Depois de demonstrar talento como escritora, publicando alguns de seus poemas, Katherine persuade o pai a enviá-la de volta à Inglaterra, garantindo uma pequena pensão que ela acreditava ser suficiente para que pudesse dedicar-se ao trabalho de escritora. No entanto, Katherine enfrentará dificuldades financeiras por quase toda a sua vida, já que gastava 75 das 100 libras enviadas pelo somente com aluguel.

Pouco depois de seu retorno à Inglaterra, contando então menos de 20 anos, a jovem casa-se com George Bowden, um professor de canto onze anos mais velho. Completamente vestida de preto, a indumentária da noivaanuncia o fracasso do casamento, desfeito no dia seguinte antes de sua consumação. No mesmo ano, Katherine engravida. Sua mãe vai até Londres e leva a filha para passar uma temporada na Alemanha, onde essa

5

Mansfield publica alguns contos na revista do Queen's college, entre eles “The pine tree, the sparrows, and

acaba sofrendo um aborto. O período que passa no país é crucial para a escrita de sua primeira coletânea de contos, Numa pensão Alemã, publicada em 1911. Nos contos, Mansfield retrata os habitantes da Bavária de forma sarcástica e perturbadora, através da narradora, uma inglesa que está de passagem.

O olhar estrangeiro marca a visão de constante exílio da escritora, que jamais voltaria para a Nova Zelândia. Não há um lugar para Mansfield: ela não se sente em casa em seu país, nem na Inglaterra, de onde escreve com saudades as lembranças da infância no país distante, mas, ainda assim, regido pelos valores vitorianos da metrópole. Apesar de ser um período de intensos avanços científicos e tecnológicos, marcado pelo surgimento de inovações no pensamento filosófico, como o positivismo e o evolucionismo, o período vitoriano é marcado por uma rígida moralidade puritana. A produção literária da época assume, de forma geral, uma postura crítica quanto à imposição de um modelo de comportamento baseado nas aparências. O Realismo da Era Vitoriana se esforça por denunciar a hipocrisia da sociedade. Oscar Wilde, com sua comédia de costumes6, destaca- se como um dos autoresqueironizaram severamente as supostas virtudes do meio familiar, considerado a base dos valores vitorianos, assim como Lewis Carroll, mencionado anteriormente.

Além da rigidez dos costumes que Katherine se recusaa aceitar passivamente, a morte do irmão caçula, Leslei, na Primeira Guerra, levam-na a mergulhar mais profundamente nas lembranças de sua terra natal, antes insuportável, utilizando-a como cenário de muitos de seus contos voltados para a temática da infância. Entre eles destacam-

se “Prelúdio” (1918), “Festa no jardim” (1922), “A casa de bonecas” (1922) e “Na praia”

(1922).

Agora, agora quero escrever as recordações de meu país natal até que o

6

A comédia de costumes, ou comedy of manners, satiriza as convenções sociais vigentes. Esse gênero teatral se preocupa com a adaptação, ou não, dos personagens aos códigos sociais. Suas principais temáticas são o escândalo na vida amorosa, o dinheiro e o desejo de ascensão social. Oscar Wilde critica a ânsia do poder simbolizado pelo dinheiro e status social. Em suas peças, Wilde alcança o efeito cômico subvertendo os provérbios que carregavam os valores puritanistas de seu tempo.

estoque se acabe. Não apenas por ser uma “dívida sagrada”, que saldo

com meu país, por termos nascido lá, meu irmão e eu, mas também porque em meus pensamentos caminhamos os dois por todos aqueles lugares relembrados. Nunca me sinto longe. Desejo ardentemente recriá-los ao escrever... Vou contar tudo, até mesmo como a cesta de lavanderia guinchava e chiava. Mas tudo deve ser contado com um senso de mistério, uma luminosidade, um arrebol, porque você, meu pequeno sol, se pôs. Você perpassou a ofuscante orla do mundo. Agora eu devo fazer minha parte. (MANSFIELD, 1996, p.61).

As personagens, geralmente meninas, não aludem apenas às lembranças da autora, mas representam indagações universais, como o isolamento do indivíduo, a insuficiência da linguagem, e, também, questionam elementos da hierarquia social

estabelecida. Em “Festa no jardim”, por exemplo, o cenário reproduz uma típica festa de

jardim inglesa, pomposa, com orquestra e flores. A protagonista, responsável pela organização da festa, é surpreendida pela morte de um carroceiro da vizinhança. Os demais membros da família Sheridan não se importam com a morte, insistindo para que a festa se realize, enquanto Laura mostra uma visão diferente daquela baseada em máscaras sociais, vivida por seus pais.

O conto não aborda apenas a memória do cenário neozelandês, mas o toma como miniaturização da sociedade como um todo. A hipocrisia que circunda as relações na sociedade vitoriana, seja na metrópole ou na colônia, é mostrada por Mansfield a partir de uma feição sarcástica, porém delicada, através do olhar de protagonistas crianças, descobridoras do mundo. O olhar construído por sua escrita levanta questões universais relacionadas à construção da identidade, mesmo voltado para os anos vividos pela escritora quando criança em sua terra natal.

Após contrair tuberculose Mansfield inicia uma busca malsucedida pela cura. Ela, então, decide buscar um tratamento alternativo no Gurdief Institute, uma espécie de retiro religioso na França, onde acaba morrendo, aos 34 anos. Katherine deixa 88 contos, alguns poemas, artigos de crítica para jornais e revistas, além de seus diários e cartas. Sua biografia pode ajudar-nos a compreender o seu projeto literário, no que concerne não apenas à temática, mas também à técnica narrativa. Sua proposta estética faz referência à sociedade burguesa da Inglaterra vitoriana, satirizando as máscaras sociais, que geram relações superficiais, baseadas nas aparências. O sujeito encontra-se, então, isolado, mesmo

que aparentemente integrado a um determinado grupo. Esse abismo entre o indivíduo e o mundo surge na narrativa mansfieldiana sob a incapacidade de comunicação de suas personagens. Elementos da ficção realista e temas e situações corriqueiras são combinados a uma literatura introspectiva, voltada para o autoconhecimento. De que forma os diferentes contextos históricos, culturais e espaciais repercutem sobre a escrita? Para Maingueneau, literatura e sociedade se relacionam impossibilitando a interpretação da obra fora de seu contexto.

Na realidade, a obra não está fora de seu “contexto” biográfico, não é o

belo reflexo de eventos independentes dela. Da mesma forma que a literatura participa da sociedade que ela supostamente representa, a obra participa da vida do escritor. O que se deve levar em consideração não é a obra fora da vida, nem a vida fora da obra, mas sua difícil união. (MAINGUENEAU, 2001, p.46).

A infância, as relações familiares e aspectos do feminino configuram temas recorrentes na obra mansfieldiana. É escrevendo sobre as pessoas comuns que Katherine Mansfield penetra o íntimo do ser humano; através de uma linguagem simples, porém repleta de imagens e símbolos, ela critica os valores burgueses de seu tempo, sem, no entanto, limitar-se a ele.