Uma das doen¸cas card´ıacas mais conhecidas ´e a insuficiˆencia card´ıaca, frequente- mente chamada de Insuficiˆencia Card´ıaca Congestiva (ICC) que afeta nos EUA 2% da popula¸c˜ao e ´e a causa principal ou contribuinte para morte de 300.000 pessoas. Ela atinge principalmente pessoas com mais de 65 anos e apresentou um custo anual de 18 bilh˜oes de d´olares ao governo norte americano em 2006 (KUMAR et al., 2010). No Brasil, a ICC foi respons´avel pela morte de 7% dos 300 mil pacientes hospitalizados em 2007 (DATASUS,
2013) e, no Estado de S˜ao Paulo, em 2006, foi respons´avel por 6.3% dos ´obitos (BOCCHI et al., 2012).
A doen¸ca refere-se `a incapacidade do cora¸c˜ao bombear o sangue necess´ario para as fun¸c˜oes metab´olicas, podendo aparecer no est´agio final de muitas doen¸cas card´ıacas como a hipertens˜ao e a isquemia 1. A ICC ´e considerada uma doen¸ca bastante complexa, uma
vez que pode ser resqu´ıcio de diversas outras doen¸cas. A taxa de mortalidade ´e maior nos idosos do gˆenero masculino, e o seu diagn´ostico precoce ´e extremamente importante para aumentar as chances e a qualidade de vida do paciente. Um dos indicativos da ICC ´e o aumento do volume do cora¸c˜ao.
Kumar et al. (2010) explicam que diariamente o cora¸c˜ao impulsiona mais de 6000 litros de sangue para todo o corpo e bate mais de 40 milh˜oes de vezes por ano. O seu peso varia de acordo com o peso e altura da pessoa. ´E respons´avel por cerca de 0,4 a 0,5% do
1 A isquemia se caracteriza pelo desenvolvimento de placas de ateroma, compostas por elemento fibro-gorduroso, na parede das art´erias coron´arias causando a obstru¸c˜ao parcial ou total da art´eria (GUYTON; HALL,2006)
peso corporal, sendo que em mulheres o peso apresenta, em m´edia, de 250 a 300 gramas, enquanto nos homens varia de 300 a 350 gramas.
Kumar et al. (2010) definem tamb´em que o aumento do peso e do tamanho do cora¸c˜ao pode indicar diversas doen¸cas card´ıacas. O aumento do peso ou da espessura do ventr´ıculo indica hipertrofia, enquanto o aumento do tamanho da cˆamara indica dilata¸c˜ao. O aumento do peso em conjunto com o aumento de volume ´e chamado de cardiomegalia. A ICC pode ser discutida sob duas perspectivas: Insuficiˆendia Card´ıaca Esquerda e Insuficiˆendia Card´ıaca Direita. Como os nomes sugerem, a ICC pode estar presente em apenas um lado do cora¸c˜ao, por´em sendo ele um circuito fechado, ´e comum que a insuficiˆencia presente de um lado faz com que o outro trabalhe mais, resultando em um esfor¸co excessivo e gerando uma ICC global.
A Insuficiˆencia Card´ıaca Esquerda ´e a que mais ocorre em pacientes e, de acordo com Spence (1991), com frequˆencia ´e provocada por:
• Isquemia do cora¸c˜ao: falta de suprimento sangu´ıneo no tecido, no caso card´ıaco, diminuindo a quantidade de glicose e oxigena¸c˜ao, podendo levar `a morte da regi˜ao afetada;
• Hipertens˜ao arterial: a press˜ao arterial ´e originada pela for¸ca que o sangue realiza para bombear o sangue para o corpo humano. A hipertens˜ao ´e caracterizada quando este esfor¸co aumenta, fazendo com que a press˜ao nas art´erias tamb´em cres¸ca. Por esse motivo essa doen¸ca ´e popularmente conhecida como “press˜ao alta”. O esfor¸co repetitivo necess´ario para o cora¸c˜ao bombear o sangue pode causar, a longo prazo, o enrijecimento dos ventr´ıculos e, consequentemente, levar `a ICC;
• Doen¸cas valvulares aorta e mitral: interferem no fluxo de sangue no cora¸c˜ao, podendo, por exemplo, diminuir a quantidade de sangue bombeado e fazendo com que o cora¸c˜ao trabalhe mais para suprir essa deficiˆencia.
A Insuficiˆencia Card´ıaca Congestiva Esquerda (ICC Esquerda) pode ainda ser dividida em insuficiˆencia sist´olica ou diast´olica. Na primeira, o ventr´ıculo esquerdo est´a comprometido e h´a insuficiˆencia do d´ebito card´ıaco (bombeamento de sangue). Ela ´e decorrente das doen¸cas citadas anteriormente, como a hipertens˜ao e a isquemia, que prejudicam a contractilidade do ventr´ıculo. Na insuficiˆencia diast´olica o ventr´ıculo tamb´em est´a comprometido. Nesse caso, o cora¸c˜ao, que est´a contra´ıdo devido a s´ıstole, n˜ao consegue relaxar, impedindo que o ventr´ıculo receba a quantidade esperada de sangue e
consequentemente bombeando menos sangue do que o necess´ario. A insuficiˆencia diast´olica, acomete a maioria dos idosos, muitas vezes oriunda de hipertens˜ao. Em alguns casos ´e um processo natural, devido `a perda de contractilidade do tecido card´ıaco eminente com o passar dos anos (KUMAR et al., 2010). A Figura 13ilustra cada uma dessas disfun¸c˜oes durante o ciclo card´ıaco.
Figura 13 – Comportamento do cora¸c˜ao durante a s´ıstole e d´ıastole (quando o cora¸c˜ao recebe e bombeia o sangue respectivamente) quando apresenta alguma dessas disfun¸c˜oes.
Fonte: Roche(2012)
A Insuficiˆencia Card´ıaca Congestiva Direita ´e comumente provocada pela ICC Esquerda devido ao excesso de trabalho imputado ao ventr´ıculo direito, como explicado anteriormente. No caso de ocorrer uma IC Direita exclusiva, ´e prov´avel que o paciente apresente doen¸cas como cor pumonale 2 ou problemas de vasculariza¸c˜ao pulmonar. Os
´orgaos mais atingidos pela ICC Direita s˜ao os rins e o c´erebro.
Para se detectar a ICC ´e levado em considera¸c˜ao principalmente o hist´orico do paciente e, caso sejam observados exames com altera¸c˜oes significativas, s˜ao prescritos exames mais complexos. A Figura 14apresenta a rotina de exames adaptada das Diretrizes
2 A cor pumonale ´e uma s´ındrome caracterizada pela hipertrofia, altera¸c˜ao funcional ou falˆencia do ventr´ıculo direito resultante de doen¸cas pulmonares (OTA; PEREIRA,1988)
Brasileiras para a detec¸c˜ao da ICC, atualizada em 2012, sobre os m´etodos de diagn´ostico e terapˆeuticos.
Figura 14 – Rotina de m´etodos que podem ser aplicados para compor o diagn´ostico.
Fonte: Bocchi et al.(2012)
Nas imagens obtidas por meio de exames de RMN e SPECT a percep¸c˜ao dessa doen¸ca ´e bastante ambivalente. Nas Figuras 15, que mostram imagens provenientes de RMN, a diferen¸ca entre um quadro com problemas e um quadro normal ´e praticamente impercept´ıvel, sendo necess´ario avaliar frames de outros planos anatˆomicos para identificar o problema. Na imagem gerada por SPECT, apresentada na Figura 16 a forma ´e bastante parecida, sendo o fluxo de sangue na regi˜ao, o indicador mais confi´avel para detectar o problema.
Figura 15 – Imagens do ventr´ıculo esquerdo gerados por RMN. Em (a) um paciente sem ICC e (b) um paciente com ICC.
Figura 16 – Imagens geradas por SPECT do ventr´ıculo esquerdo. Em (a) um paciente sem ICC e (b) um paciente com ICC. Percebe-se que o fluxo sangu´ıneo na regi˜ao ´e um indicador mais robusto para o problema.
Fonte: InCor(2012)