A revolução, industrial iniciada no século XVIII na Inglaterra, consolidou-se e estendeu-se a outros países, principalmente na Europa e Estados Unidos. A grande demanda por mão-de- obra fez com que houvesse grandes fluxos migratórios, tanto internos como entre países. Assistiu-se a uma perda da população rural e ao crescimento da população urbana, com adensamento das cidades e deterioração da vida urbana. A necessidade de habitação para esta população fez surgir cortiços e favelas, além de significar um crescimento ainda mais intenso das grandes cidades. Segundo Kotkin (2006, p.98), no inicio do século XX, 5% da população mundial vivia em cidades com mais de 100.000 habitantes, três vezes mais que no início do século e algumas cidades européias passaram a ter densidades populacionais
progressivamente maiores, atingindo e ultrapassando as densidades das cidades medievais (KOTKIN, 2006 p.113), conforme mostra a tabela 3.
TABELA 3
Crescimento da população nas capitais européias entre 1800 e 1900
Cidade População ( x 1.000) Percentual de crescimento
1800 1850 1900 1800-1850 1850-1900 1800-1900 Amsterdam 217 224 511 3 128 135 Atenas 12 31 111 158 258 825 Barcelona 115 175 533 52 205 363 Berlim 172 419 1.889 144 351 998 Bruxelas 66 251 599 280 139 808 Budapeste 54 178 732 230 311 1.255 Christiania (1) 10 28 228 180 714 2.180 Copenhagen 101 129 401 28 211 297 Helsinki 9 21 91 133 333 911 Londres 1.117 2.685 6.586 140 145 490 Madrid 160 281 540 76 92 238 Paris 581 1.053 2.714 81 158 367 Roma 163 175 463 7 165 184 Estocolmo 76 93 301 22 224 296 Viena 247 444 1.675 80 277 578
(1) Nome oficial da cidade de Oslo entre 1674 e 1925. Fonte: HALL, 1997, p. 264
O epicentro da revolução industrial ocorreu na região de Lancashire23, no início do século
XIX. A revolução industrial fez com que esta se tornasse, naquela ocasião, a região economicamente mais dinâmica do mundo. A população de sua principal cidade, Manchester, refletia tal pujança e, em trinta anos, viu sua população crescer de 94.000 para 270.000 habitantes.
Nesta mesma região, algumas pequenas cidades experimentaram um crescimento ainda maior, como a cidade de Bradford, que se tornou um importante centro manufatureiro. De uma pequena vila de 16.000 habitantes, cresceu mais de 600% durante a primeira metade do século XIX, chegando a 103.000 habitantes, a mais rápida experiência de crescimento de uma cidade na Europa contemporânea (FIG. 43).
23Região, localizada no noroeste da Inglaterra. Seu nome oficial é Condado de Lancashire, podendo também ser
utilizada a designação Condado de Lancaster. Durante a primeira fase da Revolução industrial, tornou-se a mais importante região comercial e industrial da Inglaterra, e podia ser dimensionada, por exemplo na indústria têxtil onde respondia, no primeiro quarto do século XIX por cerca de 85% da produção mundial — que, apesar da redução percentual devido a industrialização em outros países, se mantém preponderante até antes da primeira guerra quando respondia por cerca de 58% da produção mundial (WALTON, 1987, p.198). Suas principais cidades eram Manchester e Liverpool. Na década de 1970 em uma reforma administrativa, as cidades de Manchester e Liverpool foram retiradas do condado, para os novos condados da Grande Manchester e de Meyerside (WALTON, 1987).
FIGURA 43 - Bradford, final do século XIX
Fonte: BRADFORD, 2008
Enquanto Londres se destacava por sua importância como centro comercial tradicional, a revolução industrial trouxe para as cidades um componente novo, a produção em massa de bens e produtos, que cada vez mais demandavam grandes espaços e plantas industriais cada vez maiores. Esta revolução marcou o início de uma revolução urbana que levou as cidades a passarem por profundas transformações. Modificações na estrutura urbana se fizeram necessárias para atender à demanda por grandes espaços destinados à indústria. Inicialmente focadas na indústria, as transformações tiveram repercussão em atividades correlatas e complementares, como a necessidade de grandes armazéns para a estocagem de produtos in natura, ainda não utilizados pela indústria, e para armazenagem dos produtos já industrializados. Além destas, outras demandas relacionadas a atividades correlatas pressionavam por grandes áreas nos núcleos urbanos para a administração dos negócios, o estabelecimento de bancos e, especialmente para a localização de empreendimentos e negócios comerciais, que para atender à crescente população, expandiram substancialmente sua área ocupada, criando grandes lojas de departamentos. Se a cidade renascentista, em uma escala inicial, e a barroca, de forma mais acentuada, tinham como principal objetivo o lazer e a beleza, a cidade da era contemporânea (pós- revolução industrial) tinha como principal objetivo fazer dinheiro. Embora importante, a necessidade de habitações ao longo dos século XIX e XX era vista como secundária. As condições eram as piores possíveis, predominando favelas e cortiços. As condições mínimas de salubridade não eram observadas. A grande demanda de mão-de-obra pelas indústrias atrairia um grande fluxo migratório campo-cidade, fazendo com que uma grande expansão populacional das cidades se fizesse presente no período de consolidação do capitalismo industrial.
Se a revolução industrial foi um fator importante nas relações econômicas e do modo de produção, na questão urbana se tornaria fundamental. Em seu arcabouço, trouxe um crescimento vertiginoso das cidades. Esta urbanização intensa pode ser evidenciada no
crescimento populacional, no período em consideração. Entre 1750 e 1800, a Inglaterra tinha cerca de 8% da população da Europa, entretanto foi responsável por 70% do crescimento das áreas urbanas do continente (TOYNBEE apud KOTKIN, 2006, p.87).
O crescimento acelerado e não planejado das grandes cidades trouxe vários problemas, tendo sido o maior deles a rápida deterioração das regiões centrais. Ao longo do século XIX, consolidaram-se duas práticas de abordagem a este problema. A primeira, que teve sua origem na Inglaterra, constituiu-se na progressiva suburbanização, a qual foi também adotada e ainda mais radicalizada nos Estados Unidos. Era uma solução de dispersão da população. A solução para o problema da cidade estaria fora da cidade. A segunda abordagem foi a da reforma, adaptação e mudança das regiões centrais das grandes cidades, cuja interferência paradigmática e mais influente foi aquela feita em Paris pelo então prefeito Haussmann24 e pelo imperador Napoleão III25. Embora distintas, é necessário
destacar que as duas intervenções urbanas aqui tratadas (a dispersão de população e a mudança das regiões centrais) tinham algumas premissas comuns, que eram a da melhoria das condições urbanas e da melhoria das habitações, ressaltando-se, entretanto, que, imbuídos em seus princípios básicos estavam as idéias de segregação e de gentrificação. Ambas as intervenções tinham um objetivo comum: um embelezamento (sob focos distintos) da paisagem urbana.