Os relatos de historiadores, folcloristas e tantos outros pesquisadores das manifestações culturais brasileiras dão a entender que a congada faz parte do universo devocional da população negra no Brasil desde o período colonial em que surgiu. Já nos primeiros textos que são produzidos no Brasil descrevendo os fazeres dos congados, há menção sobre presença de elementos da cultura africana nessas festividades. Desse modo, a congada pode ser definida como
Autos brasileiros de assuntos africanos, especialmente reminiscências da rainha Njinga de Angola, falecida a 17 de dezembro de 1663. O tema essencial é a embaixada da rainha Ginga a um potentado negro, às vezes, Henrique rei Cariongo, nome que recorda uma das circunscrições de Luanda, e que outrora foi sobado independente. O enredo referir-se-ia a uma luta entre a guerreira Ginga e um soba de Cariongo, transformado em rei, e não um rei do Congo. É auto popular em todo o Brasil, tendo variantes onde desaparece a rainha e figura sempre um embaixador, que luta e vence o rei local. Noutras regiões, o príncipe vencido e morto é ressuscitado pelo feiticeiro, e tudo acaba em dança e canto (CÂMARA CASCUDO, 2000, p. 138).
A maior parte dos folcloristas faziam descrições semelhantes à de Câmara Cascudo, limitando-se a retratar as vestes, transcrever as canções, anotar tudo o que fosse possível com o intuito principal de catalogar as informações sobre as manifestações culturais para que não desaparecesse sem deixar registro. Tais registros não deixam transparecer a intenção de compreender o sentido do que estava em andamento para a comunidade em que as festividades ocorriam, mas sim catalogar para preservar.
Alguns estudiosos da escravidão no Brasil lançaram seu olhar sobre essas questões e passaram a escrever a respeito da dominação imposta à população negra por diversos meios, inclusive pela religião. Tais autores chamam a atenção para a imposição do catolicismo pela introdução de elementos identificáveis pelos africanos em seu meio, a fim de conseguir substituir suas crenças pela aproximação entre esses elementos familiares e os que precisavam ser ainda compreendidos e incorporados.
62 Nesse sentido, autores que escreveram décadas atrás, como Roger Bastide, que mostra como a junção de elementos católicos e da cultura africana em festas e rituais, formando o que ele chama de “folclore artificial” (1959, p. 22), facilitou a prevalência do colono sobre os escravos. Outros autores que são bem mais recentes partilham de uma mesma opinião: a dominação dos colonos se fez também por meio da disseminação do ritual e dos valores católicos. Toda uma situação é geralmente descrita ao se tratar desse tema, a saber, a necessidade de controle da população escrava, a tentativa de introduzi-los na fé cristã, a necessidade dos próprios africanos de expressar de algum modo a sua fé.
No que se refere especificamente à congada como manifestação que engloba a questão religiosa cristã e os elementos da cultura africana, é possível dizer que
A classe dominante, percebendo que as coroações caíam bem no gosto dos povos negros, utilizava desse recurso para controlar suas manifestações e colaborava emprestando suas joias. As autoridades prestigiavam a solenidade para se assegurar da quietação e disciplina dos escravos que se rejubilavam vendo o seu rei coroado. O esplendor da festa se dava pelos empréstimos de joias, adereços e trajes riquíssimos, cedidos pelos amos. A festa reunia os escravos, mestiços e forros que em procissão buscavam o régio casal, que eram levados à Igreja, onde era coroado pelo vigário (CÂMARA CASCUDO, 2000, P. 150).
No trecho acima, escrito ainda dentro do contexto em que se davam as produções dos folcloristas brasileiros, dos quais Câmara Cascudo é um ilustre representante, aparece além da descrição do acontecimento em si, a ideia de que por meio de algumas concessões e agrados os colonos mantinham os cativos sob seu controle.
Mais recentemente outros autores têm buscado compreender o contexto em que estavam inseridos colonos e escravos, que resultaram no aparecimento de manifestações como a Congada, no sentido de lançar luz sobre as intenções com as quais se permitia ou se incentivava a introdução de elementos da cultura africana em rituais ou festas herdadas da cristandade europeia. As informações que podem ser extraídas de tal realidade muitas vezes levam a entender que
Esse evento permitindo simbolicamente que os negros tivessem seus reis foi um recurso utilizado pelo poder do Estado e da Igreja para controle dos escravos. Era uma forma de manutenção aparente de uma organização social dos negros, uma sobrevivência que se transformou em fundamentação mítica. Na ausência de sua sociedade original, onde os reis tinham a função real de liderança, os negros passaram a ver nos reis do Congo os
63 elementos intermediários para o trato com o sagrado (GOMES; PEREIRA, 2000, p.244, apud DOS SANTOS, 2011, p. 24).
É provável que houvesse entre os colonos brancos o medo de revoltas de escravos que colocassem em ameaça sua vida. A população escrava de fato chegava a ser bem maior que a de brancos em muitos lugares da Colônia. Contudo, nos trechos acima, transparece uma visão muito passiva da população negra. Conforme já foi mencionado, acredita-se aqui que as relações entre negros e brancos no Brasil colonial eram bem mais complexas do que muitos estudos deixam transparecer. Há todo um movimento dentro de diferentes campos do saber, sobretudo na História (mais especificamente na escola histórica conhecida como história cultural), em que tais relações têm sido colocadas à prova.
Para compreender tal complexidade, basta imaginar que as pessoas arrancadas de sua terra natal e trazidas para um ambiente hostil e desconhecido não deixavam lá toda a bagagem cultural de que dispunham. Uma vez no território da Colônia, suas crenças, seu modo de estar no mundo, apesar de submetidos ao cativeiro, não deixavam de existir; ao contrário, passavam a misturar-se com a nova realidade à qual estavam submetidas. Do mesmo modo, a convivência dos africanos com a população branca que o escravizava não se girava em torno da passividade, mas dos acordos e conflitos14.
Não há como se negar a importância dos elementos da cultura africana nos rituais e festas que formam o universo cultural brasileiro. Tampouco fiar-se na crença de que tais elementos não sofreram alterações com a chegada à Colônia, pois
essa rica experiência rítmica e dramático-coreográfica que, a partir do século XVI, passou às Américas com os negros africanos transformados em escravos pelos interesses do capitalismo comercial europeu, mas para sofrer desde logo um progressivo processo de desintegração (TINHORÃO, 2001, p. 162).
Em vista da rica discussão que se trava em torno das questões referentes às relações estabelecidas entre brancos e negros no ambiente colonial e ao longo da história brasileira, importantes informações devem ser ressaltadas a fim de que o trabalho aqui proposto não se mantenha alheio ou assuma uma postura ingênua e apolítica. O fato de existirem ainda hoje
14 Para saber mais sobre a questão das relações sociais entre negros e brancos no Brasil colonial dentro dessa
perspectiva revisionista que propõe enxergar acordos e conflitos nas relações sociais e reconhecer a ação de cada um dos grupos sociais, dando a elas sua devida importância, consultar a obra de Douglas Cole Libby e Eduardo França Paiva, A escravidão no Brasil: relações sociais, acordos e conflitos. São Paulo: Moderna, 2000.
64 manifestações culturais como a congada, cujas origens remontam ao século XVII, deve ser um indicador de que algo importante ocorreu no passado em termos de configuração de uma nova cultura, carregada de características herdadas de culturas muito distintas (africana e europeia, no caso) e que se perpetuou no tempo apesar das mudanças que certamente sofreu – e esta é uma característica primordial da cultura conforme já mencionado: sua dinamicidade.
Então, levando-se em consideração o modo como se formou a congada, com todas as intenções, explícitas ou não, dos grupos sociais envolvidos nessa empreitada, este trabalho caminha agora para a investigação de campo. Os textos que se desenvolvem a seguir têm por objetivo: estabelecer os parâmetros metodológicos a serem utilizados para o trabalho de campo; descrever os grupos e o local da pesquisa; analisar os dados referentes à coleta feita em campo com base nos conceitos estabelecidos anteriormente.
CAPÍTULO IV: A COMUNIDADE DE PINHÕES, UM LUGAR, UM CAMINHO