A tipografia foi fundamental na formação e fixação das línguas nacionais. Embora questões políticas e culturais, como a criação das nações (logo, do espírito de identidade nacional), e a Reforma também tenham desempenhado papel essencial nas transformações linguísticas pelas quais passaram as línguas ocidentais, foi, sem dúvida, com a criação e expansão da tipografia que as línguas vulgares tornaram-se línguas literárias, de cultura, e acessíveis a todos os seus falantes. Gradativamente, foram substituindo o latim. Como mostram Martin; Lefebvre (2000, p. 407),
Assim, o século XVI, época de renovação da cultura antiga, é também aquele em que o latim começa a perder terreno. A partir de 1530, sobretudo, esta tendência manifesta-se com nitidez, o que não deve surpreender-nos. O público das livrarias [...] torna-se cada vez mais um público de leigos – frequentemente de mulheres e de burgueses, muitos dos quais pouco familiarizados com a língua latina. É por isso que os Reformistas empregam sistematicamente as línguas vulgares modernas. Os próprios humanistas não hesitam, então, em recorrer a essas línguas para conquistarem um público mais vasto. Desde há séculos, aliás, não acontece o mesmo em Itália? O exemplo de Petrarca não está aí para fazer com que os hesitantes vençam os seus escrúpulos? [...] Mais ainda, o regresso às letras antigas contribui para
fazer do latim uma língua morta: como sublinha Brunot, o ciceronismo, o gosto pela bela língua latina, expulsando solecismos e, sobretudo, barbarismos tradicionais, obrigando a recorrer a perífrases complicadas para exprimir uma ideia ou para designar um objecto novo, começa a afastar os escritores do uso do latim.
Não surpreende, por isso, que a percentagem das obras publicadas em língua vulgar tenha aumentado. É impossível fornecer a este respeito números exactos. Contudo, é significativo, por exemplo, o facto de, em 2254 obras publicadas em Antuérpia, entre 1500 e 1540, terem sido escritas 787 em flamengo, 148 em francês, 88 em inglês e umas vinte em dinamarquês, em espanhol ou em italiano – quase a metade. É evidente que a clientela dos impressores de Antuérpia, cidade comercial, era constituida, em parte, por burgueses recentemente enriquecidos e ainda pouco cultos. Mas quase em toda a parte se fazem comprovações análogas e o progresso das línguas nacionais é geral. Em Aragão, 25 livros em latim contra 15 em castelhano, entre 1501 e 1510; durante os trinta anos seguintes, 115 em latim contra 65 em castelhano. Mais tarde, entre 1541 e 1550, somente 14 em latim e 72 em castelhano.
Inevitavelmente, a partir do momento em que as línguas vernaculares passam a ser escritas, surgem questões relativas ao uso ortográfico dessas novas línguas.
Se, nos períodos anteriores, os textos reproduzidos do Latim sofriam a ação dos copistas, ficando, assim, os textos entregues às suas vontades, apresentando inúmeras flutuações gráficas, com a tipografia, surge uma tendência de fixação das grafias, dando aos livros impressos um caráter estável43.
Ao mesmo tempo, surgem as primeiras gramáticas e tratados ortográficos44, tentativas de descrição e regulamentação das novas línguas. Certamente, muitos tipógrafos procuraram se pautar nas prescrições desses gramáticos e ortógrafos. Contudo, não deve ser descartada a hipótese de interferências ortográficas dos impressores, com o intuito de facilitar o seu trabalho no manuseio dos tipos para a composição dos livros e, também, de uniformizá-los graficamente. Da mesma forma, não pode ser aceita sem ressalvas a ideia de que as formas (orto)gráficas impressas de uma obra correspondam fidedignamente às formas da obra manuscrita confiada ao tipógrafo por seu autor45.
43 "Por outro lado, a tipografia garante às publicações um caráter estável. Estas «escapam doravante à acção dos
copistas que, até então, em parte voluntariamente, em parte sem nisso pensarem, modernizavam os textos à medida que os reproduziam» (A. Meillet); e, doravante, os seus sucessores, os tipógrafos, têm tendência para eliminar as fantasias ortográficas e as expressões dialectais que corriam o risco de tornar o livro menos facilmente acessível a um público vasto." (MARTIN; LEFEBVRE, 2000, p. 406)
44 António de Nebrija publica, em 1492, sua Gramática da língua castelhana. Em 1536, Fernão de Oliveira
publica a Gramática da linguagem portuguesa.
45 Sobre esta questão, Martin; Lefebvre (2000, p. 411) fazem algumas considerações sobre a língua inglesa: "E,
enquanto as gramáticas da língua inglesa se multiplicam, a ortografia tende a normalizar-se, em virtude da acção dos tipógrafos, que, por vezes sistematicamente, eliminam as fantasias ortográficas mais embaraçosas dos manuscritos que os autores lhes confiam. Este esforço de uniformização torna-se evidente quando se
3 ESCRITA E SEU ESTUDO
Dada sua complexidade, a escrita tornou-se objeto de estudo de vários e renomados estudiosos da linguagem. Contudo, como lembra Cagliari (2009a), cada estudioso fará sua análise de acordo com as concepções de linguagem que considera corretas (não sendo excluídas, assim, possibilidades de equívocos).
Com o estruturalismo, que inaugurou a Linguística Moderna, questões fonológicas e, por extensão, ortográficas, ocuparam a atenção de alguns linguistas, preocupados em estabelecer propostas eficazes para a descrição e sistematização das línguas46. Contudo, foi na Europa que linguistas empreenderam pesquisas voltadas para reformas ortográficas orientadas exclusivamente pela fonologia estruturalista. Merece destaque a linha de pesquisa francesa, liderada por Nina Catach.
Ela foi uma pesquisadora preocupada com os aspectos teóricos e históricos da ortografia da Língua Francesa. Para a linguista, o sistema ortográfico mais eficaz seria aquele mais próximo do sistema fonológico. Em função disso, desenvolveu um sistema cuja unidade básica da escrita é o grafema, equivalente ao fonema para a fonologia.
Com o desenvolvimento da pesquisa, Catach criou um complexo emaranhado de subsistemas, culminando, por fim, no sistema chamado Língua L, único capaz de explicar certas particularidades da escrita.
Embora Nina Catach seja uma figura importante para estudos sobre escrita e ortografia, não haverá, na presente dissertação, um aprofundamento de suas ideias47. Como o intuito da presente pesquisa é analisar e descrever a ortografia de Vieira, servirão de apoio teórico ideias desenvolvidas por Luiz Carlos Cagliari, estudioso que tem orientado várias
compara os originais manuscritos que chegaram até nós com os textos impressos. Eis, por exemplo, o resultado de tal confrontação no caso de uma tradução de Ariosto por Harington:
Manuscrito Texto impresso
bee be on one greef grief thease these swoord sword noorse nurse skolding scolding servaunt servant"
46 Por exemplo, Kenneth Lee Pike, linguista norte-americano, valeu-se de modelos fonológicos estruturalistas
para desenvolver seu modelo, denominado fonêmica, para a descrição de línguas indígenas das Américas e de outros lugares. Sua intenção não se bastava apenas nisso: queria elaborar sistemas de escritas para as línguas ágrafas.
47 As informações aqui expostas foram tomadas de Cagliari (2006). Para maior aprofundamento, consultar
pesquisas sobre sistemas de escrita e, especificamente, sobre a ortografia da Língua Portuguesa, além de ter produzido vários trabalhos sobre esses temas48.