4. RESULTS
4.1 I NTERVIEWEE AND RETAILER BACKGROUND
Os fatores envolvidos no ganho de peso do filho foram observados em algumas famílias, embora nem todas tenham associado fatos com o início do ganho de peso do filho.
• condição social da família.
A questão do “como”, “o quê” e “o quanto” comer, não podem ser vistos fora do contexto econômico, cultural e social da família. Os hábitos alimentares de uma família refletem os padrões culturais e sócio-econômicos dominantes de uma determinada sociedade, e sofrem mudanças quando ocorrem modificações nesses padrões. O uso ou desuso de legumes, verduras, frutas e carnes na alimentação da família brasileira refletem os padrões sócio-culturais na alimentação.
“Não temos condições de comprar uma fruta, uma verdura todo dia. Antes achávamos barato comprar laranja, banana. Hoje em dia não é mais barato, os preços subiram demais e compramos somente o básico como arroz, feijão, batata, macarrão. Tudo isso engorda. As outras coisas que não engordam, a mistura e a verdura, por exemplo, deixamos para depois, vamos comprando aos poucos. Quando chega na metade do mês, não temos mais dinheiro para comprar. O salário do meu marido não dá, temos outras contas para pagar como luz, telefone, gasolina para levar as crianças à escola. Então acabamos gastando mais e deixando de lado o necessário, as coisas que dão saúde. Queremos ver nosso filho bem alimentado, bem sustentado, mas acabamos prejudicando sua saúde”. [F1]
• tipo e quantidade de alimentação.
Quanto ao tipo e quantidade de alimentação, os filhos possuem acesso fácil à alimentação e preparações de refeições com alta densidade energética. Na maioria das vezes os filhos têm disponível em casa biscoitos, salgadinhos, guloseimas, pães, enlatados, alimentos de preparo instantâneo, pois são mais fáceis de serem preparados e consumidos.
“Meu marido fala que sou culpada porque faço comida gostosa e acabo comendo demais. Sei que estou errada, pois coloco tudo à mesa, aí toda família acaba comendo mais porque vê a comida. Estou tentando mudar isto para ver se comemos menos e melhor”. [F1]
“Na minha casa, quando vamos almoçar ou jantar, eu não suporto ver a quantidade de comida que o meu marido e minha filha comem, começo a passar mal só de ver, me dá enjôo, nojo. Eles comem rápido. Quando vão ao carrinho de
lanche, comem dois lanches cada um, comem batata e tomam refrigerante, não sei como cabe tudo isso na barriga deles. Às vezes, comem até vomitar”. [F6]
• falta de atividade física.
O estilo de vida sedentário e, conseqüentemente, a falta de atividade física contribui para o ganho de peso dos filhos. Estes passam horas solitárias diante de um aparelho de televisão, assistindo desenhos e jogando vídeo-game. Por isso, a televisão é um dos principais agentes responsáveis pela obesidade dos filhos. Caminhar pelo bairro, andar de bicicleta, soltar pipas, ir à escola a pé, jogar futebol e brincar na rua são atividades cada vez menos vivenciadas pelos filhos.
“Ele adora futebol, mas não consegue correr. Agora está fazendo caminhada todo dia, e vai à escola a pé. Assim, cuida da saúde...” [F1]
“Ela precisa de alimentação adequada, de atividades físicas, mas acho que o problema é emocional, porque sentimos necessidade de mastigar o dia inteiro, somos agitadas e ansiosas”. [F2]
“Na rua onde moramos tem muitas crianças, tem brincadeiras, futebol, mas os meninos não chamam meu filho para o jogo porque ele cansa rápido, ele corre pouco. Às vezes ele tem vontade de brincar, mas nem vai porque fica sempre de lado, nem chega a brincar porque os outros meninos não deixam”. [F4]
“Quando está em casa, não sai para brincar na rua, fica só na televisão... Quando vai me ajudar nos afazeres de casa, percebo que tem dificuldades para varrer, abaixar, ficando cansada com facilidade”. [F6]
• fato acontecido / emocional.
Em relação aos fatos ocorridos com o filho podemos observar que algumas famílias referiram ao menos um fato acontecido na vida do filho que poderia estar relacionado com seu ganho de peso, sugerindo que tinha sido um momento de dificuldades adaptativas e emocionais para o filho.
“Toda essa confusão teve seu início aos cinco anos de idade, depois de um tratamento para alergia; acho que o remédio abriu o apetite e ele começou a engordar, mas na época não percebi. Hoje, ele está com treze anos”. [F4]
“A minha filha nasceu prematura. Achava que tinha que dar muita comida para ela crescer. O pediatra disse que a obesidade dela foi provocada pela super nutrição. Eu não esperava ela chorar ou pedir comida, o dia inteiro ficava enfiando comida na sua boca, só parava quando ela vomitava, conseqüentemente ganhou muito peso. Minha filha foi uma criança que começou a andar com 3 anos e meio; teve que fazer fisioterapia para poder andar”. [F6]
Podemos observar que estes quatro tipos de associações feitas pelas famílias como sendo fatores que poderiam estar envolvidos no ganho de peso dos filhos não são únicos.
A vida sedentária iniciada na infância conduz, facilmente as crianças à obesidade, algo que poderá acompanhá-las por toda a vida. A televisão é um dos principais agentes responsáveis pela obesidade infato-juvenil. Os programas infantis são um convite perigoso para que as crianças passem horas diante de um aparelho de televisão e deixem de praticar atividades tão necessárias ao seu crescimento. Os filhos são estimulados pelos pais a terem como brinquedo a televisão, o vídeo game e o computador acompanhados de refrigerantes, bolachas e
salgadinhos. Nos finais de semana a família vai às redes de lanchonetes em que a gordura é o nutriente principal.
Uma característica freqüentemente encontrada no comportamento de crianças obesas é a superdependência em relação aos pais, sobretudo à mãe, com inabilidade para serem auto-suficientes e cuidar de si próprias, optando mais por atividades solitárias (televisão, vídeo-game, computador...) que grupais.
Estes fatores envolvidos no ganho de peso demonstram o quanto a obesidade afeta a qualidade de vida não somente do filho, mas de toda família.