2. THEORY AND BACKGROUND
2.2 I NTERNATIONAL COOPERATION
Começamos pelo primeiro complemento. O conceito de intertextualidade foi apresentado por Julia Kristeva em sua obra Introdução à Semanálise, de 1969 e, desde então, tem sido objeto de várias reflexões de críticos literários, filósofos e teóricos da literatura. A ideia central do conceito – e, também, fundamental para a Literatura Comparada – é a noção dialógica que os textos mantêm entre si. Ou seja, trata-se da percepção de que um texto é
121
Convém destacar aqui a ideia sustentada por Andrea Reguera (2010) de que os relatos de viagens são resultados de um ato de memória. Segundo a autora: “Los relatos de viajes, materializados para su narración personal y descripción objetiva en libros literarios bajo la forma de ‘relaciones’, ‘cartas’, ‘diarios’, ‘apuntes’ o ‘notas’, son resultado de un acto de memoria que los viajeros realizan para representar las cosas del pasado. Es una construcción compleja que requiere de sucesivas reconstrucciones y que, bajo el uso de la primera persona y el marco de los parámetros colectivos del presente vivo, permite ofrecer al público el reconocimiento de otra realidad (REGUERA, 2010, p. 15). Ou seja, enquanto epílogo da viagem, a escrita do relato revela-se como uma operação intrincada que, marcada pelo contexto do retorno, remonta aos preparativos da viagem e sua realização.
122
Como resultados de um deslocamento realizado, as narrativas de viagens conferem à visão, como uma percepção não mediada, a importância de ser o principal sentido para a obtenção de um conhecimento seguro. Os demais sentidos – audição, palato, tato e o olfato – tiveram sua importância diminuída pelos viajantes, ainda que sempre presentes em seus relatos, à disposição da escrita para informar sobre a realidade observada. Sobre a relevância dos sentidos, além da visão, nos relatos de viagens, ver o capítulo de Neil Safier (2008) na obra Sons, formas, cores e movimentos na modernidade atlântica: Europa, Américas e África, organizado por Júnia Ferreira Furtado. Fora do âmbito das narrativas de viagens, o que se percebe é que, nem sempre, a visão suplantou os demais sentidos, como observa Lucien Febvre (1950, p. 14-15), “[...] os sentidos menos intelectuais, o tato, o olfato e audição, eram no século XVI os sentidos mais importantes”. Para o autor, a música, a prédica e as leituras coletivas eram exemplos da destacada importância da audição na sociedade Quinhentista. Nesse sentido, e, retornando às narrativas de viagens, Laura de Mello e Souza (1986) destaca que a importância do ouvir no imaginário do início da colonização da América Portuguesa foi tão importante que “[...] os olhos enxergavam primeiro o que se ouvira dizer; tudo quanto se via era filtrado pelos relatos de viagens fantásticas, de terras longínquas, de homens monstruosos que habitavam os confins do mundo conhecido” (SOUZA, 1986, p. 21-22).
construído a partir de seus antecessores, como afirmado por Kristeva em sua já clássica afirmação de que, “[...] todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto” (KRISTEVA, 1974, p. 64). A importância e a influência que passou a ter essa conceituação na Teoria literária, como observado por Antoine Compagnon, é marcada pela mudança de perspectiva nos estudos dos textos; se antes fechados em sua lógica interna, agora “[...] a intertextualidade se apresenta como uma maneira de abrir o texto, se não ao mundo, pelo menos aos livros, à biblioteca” (COMPAGNON, 2001, p. 111). Considerando-se a leitura uma prática “[...] que raramente deixa marcas [...]”, conforme observou Roger Chartier (1994, p. 11), a intertextualidade apresenta-se como vestígios de uma leitura pregressa.
A intertextualidade, enquanto uma relação de co-presença entre dois ou mais textos – para o já citado crítico literário francês Gérard Genette (2006) – é apenas uma das cinco relações que este autor reúne sobre o amplo conceito de transtextualidade para tratar das várias relações que um texto pode manter com um ou mais textos.123 Ainda de acordo com o Genette, as práticas intertextuais ocorrem frequentemente sob três formas:
Su forma más explícita y literal es la práctica tradicional de la cita (con comillas, con o sin referencia precisa); en una forma menos explícita y menos canónica, el plagio, que es una copia no declarada pero literal; en forma todavía menos explícita y menos literal, la alusión, es decir, un enunciado cuya plena comprensión supone la percepción de su relación con otro enunciado al que remite necesariamente tal cual de sus inflexiones, no perceptible de otro modo [...] (GENETTE, 1989, p. 10). Posto isso, quais são as evidências de intertextualidade que encontramos nos relatos de viagens de Joahnn Rengger? E, ainda, quais são os autores citados em suas obras? Para responder a esses questionamentos, passamos a análise do quadro que segue.
123
Além da intertextualidade, completam a conceituação teórica de transtextualidade de Genett (1989), as categorias da paratextualidade, metatextualidade, hipertextualidade e arquitextualidade.
Quadro 1 – Registros de intertextualidade nas obras de Johann Rengger Categorias
de autores Autores
Práticas intertextuais
Ensayo Historico Viaje al Paraguay
Naturalistas- viajantes
Félix de Azara 1 54
Auguste de Saint-Hilaire 1 6
Alexander von Humboldt - 4
Johann Baptist von Spix - 3
Naturalistas Georges Cuvier - 14
Jean Baptiste de Lamarck - 3
Jesuítas
Martín Dobrizhoffer - 7
Pedro Lozano - 3
Gregorio Funes 1 1
Pierre François Xavier de
Charlevoix - 1
Médicos Johann H. H. F. von Autenrieth - 1
August G. F. Emmert - 1
Exploradores Ruy Díaz de Guzmán - 1
George Henri Victor Collot - 1
Fonte: Elaborado pelo autor.
Inicialmente, fica evidente que Johann Rengger buscou estabelecer diálogos com autores que – assim como ele – eram viajantes (outros naturalistas, jesuítas e exploradores), sendo que dentre eles, Díaz de Guzmán, Azara, Dobrizhoffer e Lozano haviam percorrido as mesmas regiões da América meridional que o médico suíço.124 A valorização da experiência
in-loco é a razão do interesse de Rengger na produção jesuítica, apesar da sua declarada
antipatia em relação à atuação da Ordem de Santo Inácio de Loyola. Os escritos dos padres jesuítas – marcantes na historiografia paraguaia (CARDOZO, 1959; BREZZO, 2011) – foram lidos pelo viajante suíço como um meio para ter acesso a informações geográficas e aos costumes das populações indígenas. No entanto, apesar da referência a estes autores do século XVIII e, até mesmo do século XVII, a maioria dos citados são contemporâneos a Rengger e alcançaram notoriedade por suas viagens e relatos, tais como Humboldt, Saint-Hilaire, Spix, ou, então, por seus destacados estudos científicos, como os naturalistas franceses Cuvier e Lamarck e os médicos e ex-professores de Rengger em Tübingen, Autentrieth e Emmert.
Um segundo ponto a ser destacado é o número reduzido de autores, apenas três, citados por Rengger em sua obra Ensayo Historico, enquanto que em seu relato de viagem,
124
Esse diálogo intertextual entre as narrativas de viagens levou Luis Albuquerque-García (2011) a supor uma interessante questão que seria uma consciência de gênero. Ou seja, um comum entendimento de que há obras que possuem características que se aproximam e que, portanto, devem ser lidas e citadas por aqueles que se dedicam a tarefas semelhantes. Considerações similares são feitas por Robert Darnton, em seu estudo sobre a história dos livros, ao afirmar que “Os próprios autores são leitores. Lendo e se associando a outros leitores e escritores, eles formam noções de gênero e estilo, além de uma ideia geral do empreendimento literário, que afetam seus textos [...]” (DARNTON, 1990, p. 112).
ele faz referência a catorze autores. Essa significativa diferença pode ser explicada a partir da natureza dos escritos. Viaje al Paraguay aborda múltiplos temas, como a geografia, os costumes dos habitantes e a fauna e a flora local, e, por vezes, confronta diversas temporalidades, faz menção a fatos passados ou a relatos de viajantes anteriores, razão pela qual Rengger utiliza-se de um maior número de autores. Já, ao tratarem sobre o ditador Francia e seu governo, em seu Ensayo Historico, os médicos suíços, notadamente, se valem de suas próprias observações, priorizando em sua narrativa o período em que estiveram no Paraguai. Contribuiu também para um diálogo mais restrito com outros autores, o fato de que a obra publicada foi a primeira a divulgar, de modo mais detalhado, informações sobre o governo de Francia. Cabe assinalar que Rengger até poderia ter dialogado com mais autores, ou mesmo ter aprofundado discussões e pontos de vista que, em seus relatos, apresentaram-se de forma mais superficial. Mas, no caso da obra Viaje al Paraguay, é importante lembrar que a escrita foi interrompida com a morte de Rengger, o que, certamente, comprometeu um maior refinamento e revisão de seus escritos.
Além disso, a frequência com que cada autor é mencionado nos relatos de Rengger nos possibilita avaliar a importância que atribuiu a cada um deles. Fica evidente a importância que conferiu aos escritos do militar espanhol Félix de Azara. Rengger, certamente, conheceu os volumes de Viagens pela América Meridional na Europa. Publicada originalmente em francês, em 1809, a obra logo foi traduzida para outros idiomas, como o alemão, o sueco e o italiano, atestando a importância que a obra atingiu na Europa (CARDOZO, 1959).125 Com edições em línguas que Rengger dominava, as obras de Azara se manifestam nas observações e nos relatos escritos pelo médico suíço. Azara foi, por isso, a grande companhia da viagem de Rengger ao Paraguai. Sua leitura foi retomada durante as viagens realizadas pelo interior, seguindo-se a inserção de comentários escritos nas margens dos livros, “[...] lugar periférico com relação à autoridade” do texto e um dos poucos permissivos a intervenção do leitor, como destaca Roger Chartier (1999, p. 88). A obra de Azara, certamente, foi um guia para Johann Rengger.126
125
Conforme o levantamento feito por Efraim Cardozo (1959), além da edição impressa em Paris, em 1809, existem três outras em língua alemã. Duas delas foram publicadas em 1810, em Berlim e em Leipzig, e, outra, em 1811, em Viena. Em 1816, a edição sueca foi publicada em Estocolmo e, em 1817 e 1830, foram registradas edições em italiano nas cidades de Milão e Turim, respectivamente. Em Londres, foi publicada uma versão em língua inglesa, em 1835, e as primeiras versões em espanhol datam de 1846 e 1850, e foram impressas em Montevidéu.
126
A influência da produção azariana nos escritos de Johann Rengger não reside apenas no intenso diálogo estabelecido. A publicação de uma obra sobre os mamíferos do Paraguai, em 1830, e a tentativa de se associar ao príncipe Maximilian zu Wied-Neuwied na escrita de uma obra sobre os pássaros, sugere uma aproximação entre o projeto editorial de Rengger e as obras de Azara. Afinal, além do seu relato Viagens pela América Meridional
O segundo autor mais referenciado nos relatos do médico suíço é o naturalista Georges Cuvier. Adepto de sua taxonomia, Rengger procura identificar as espécies de animais, especialmente, por meio da comparação entre suas amostras coletadas e dissecadas e a anatomia descrita por Cuvier em seus livros. Trata-se de um trabalho comparativo minucioso, como registrado por Rengger em seu diário, em 26 de julho de 1819, ao analisar um Martim Pescador: “Su estómago, como señala Cuvier, es uma gran bolsa (sac membraneux) membranosa, pero que se contrae totalmente cuando no ingressa ningún alimento (RENGGER, [1835] (2010), p. 294). Em outros momentos, como após ter caçado um corvo branco, Rengger constata que este não foi corretamente descrito por Cuvier. Já em 23 de maio de 1821, registrou que “La víbora de cascabel que maté ayer presenta todas las características del Crotalus durissus de Cuvier”, passando a descrevê-la em detalhes na sequência. Esse trabalho de comparação, de retificação e, mesmo de revisão e aprimoramento dos estudos desenvolvidos por Cuvier, anotados por Rengger em seu diário, indica que o médico suíço, possivelmente, tenha partido da Europa com alguns, ou, até mesmo, com todos os cinco volumes de Leçons d'anatomie comparée, publicados por Cuvier, em francês, entre 1800 e 1806.
Depois de Azara, Auguste de Saint-Hilaire foi o viajante mais referido por Rengger, possivelmente, em função de suas viagens pela Província de Misiones e pelo leste do Paraguai. A partir dos comentários que Rengger faz às informações dadas por Saint-Hilaire, deduzimos que o primeiro teve contato com a pequena obra Aperçu d'un voyage dans
l'interieur du Brésil, la Province Cisplatine et les missions dites du Paraguay, publicada pelo
viajante francês, em 1823.127 Portanto, trata-se de uma obra que Rengger conheceu após o seu retorno à Europa. O mesmo ocorreu em relação à obra em latim, do naturalista Johann Baptist von Spix, Serpentum brasiliensium species novae, de 1824, mencionada nominalmente por Rengger, em seu capítulo sobre o efeito das mordidas das cobras.128 Apesar de dificilmente citar o título da obra, Rengger repete essa prática, ao comentar sobre a alimentação das vespas e nesse ponto, concorda com o que afirma Lamarck, em sua obra Histoire naturelle des
animaux sans vertebres, publicada em francês, em sete volumes entre 1815 e 1822, o que
parece sugerir que tenha levado consigo alguns dos primeiros volumes publicados.
(1809), o naturalista espanhol publicou, no início do Oitocentos, dois importantes livros, a História Natural dos Quadrúpedes (1801) e a História Natural dos Pássaros (1802).
127
O texto dessa obra foi traduzido para o português e pode ser encontrado na obra Viagem à província de São Paulo e Resumo das viagens do Brasil, província Cisplatina, e Missões do Paraguai, publicado em 1945. 128
O título completo da obra de Spix é Serpentum brasiliensium species novae ou Histoire Naturelle des especes nouvelles de serpens, recueilues et observees pendant le voyage dans l'interieur du Bresil dans les annees 1817, 1818, 1819, 1820, e foi publicada em Munique.
Com relação à produção jesuítica, Johann Rengger dela se utiliza, especialmente, para informar-se sobre os costumes dos grupos nativos paraguaios, recorrendo às obras dos religiosos Martín Dobrizhoffer e Pierre Xavier de Charlevoix.129 Enquanto Dobrizhoffer registrou sua experiência entre os indígenas em sua obra História dos Abipones, publicada em latim, em 1784, e no mesmo ano, traduzida para o alemão, Charlevoix realizou um grande compilado das atividades da Companhia no Paraguai, apesar nunca ter missionado na América do Sul. Sua obra Histoire du Paraguay foi publicada em Paris, em seis volumes, entre 1756 e 1757. Tratando-se de publicações europeias, em ambos os casos, Rengger pode ter tido acesso às obras, possivelmente, antes de realizar sua viagem. O mesmo não ocorreu com as obras de Pedro Lozano, Descripcion Chorographica e de Gregorio Funes Ensayo de
la historia civil del Paraguay, Buenos Ayres y Tucuman, publicadas em espanhol,
respectivamente, em Córdoba, em 1733, e, em Buenos Aires, em 1816.130 A leitura destas obras por Rengger se deu já na América meridional, e, apesar de seu declarado antijesuítismo, foram fundamentais para conhecer mais sobre a história civil e natural do Rio da Prata.
Já os autores Ruy Díaz de Guzmán e George Henri Victor Collot são citados apenas uma vez, a partir de suas obras La Argentina e Journey in North America, Containing a
Survey of the Countries Watered by the Mississippi, Ohio, Missouri, and Other Affluing Rivers.131 Circulando pela América meridional sob a forma de manuscritos desde meados do século XVII, a obra de Díaz de Guzmán foi publicada, em espanhol, somente em 1836, dez anos depois da publicação em língua inglesa da viagem do militar George Collot pela América do Norte. O que, portanto, indica que Rengger teve acesso a uma versão manuscrita da obra de Guzmán e somente após seu retorno à Europa tomou contato com o relato de Collot. Já os ex-professores de Rengger Autenrieth e Emmert são mencionados em virtude do contato que teve com seus trabalhos ao longo de seu período de estudos nos Estados alemães. Outro importante autor do período e que, infelizmente, não conseguimos precisar com quais obras especificamente Rengger teve contato, foi Alexander von Humboldt. Autor de uma extensa produção ao longo da primeira metade do Oitocentos, é possível que Rengger tivesse tido contato com várias obras de Humboldt antes, durante e depois da sua viagem. No entanto
129
Pierre François Xavier de Charlevoix (1682 – 1761) foi um padre jesuíta francês que atuou nas missões da América do Norte. Dentre suas obras, destacamos Descrição do Japão, de 1736, História de Santo Domingo, de 1730, História da Nova França, de 1744 e a obra História do Paraguai, de 1757.
130
Gregorio Funes (1749 – 1829) foi um eclesiástico argentino, que teve intensa participação na Revolução de Maio de 1810, tendo sido deputado pela Província de Córdoba na Junta de Governo estabelecida logo após a Revolução. É o autor da obra Ensayo de Historia Civil del Paraguay, Buenos Aires y Tucumán, de 1816.
131
George Henri Victor Collot (1750 – 1805) foi um oficial francês e administrador colonial com atuação na América do Norte. Sua obra Journey in North America, Containing a Survey of the Countries Watered by the Mississippi, Ohio, Missouri, and Other Affluing Rivers foi impressa postumamente, em 1826.
a razão de ser pouco referido pelo médico suíço deve-se, possivelmente, ao fato de que Humboldt em sua viagem pela América do Sul não chegou a explorar a região do Paraguai.
Identificados os autores e as obras utilizadas por Johann Rengger para elaborar suas narrativas de viagem, cabe destacar as formas como esses diálogos foram estabelecidos em seus textos. Rengger adota a estratégia de inserir pontualmente informações de outros autores em sua narrativa. Essa prática é bem evidenciada, por exemplo, quando o médico suíço comenta sobre o cultivo de arroz: “El arroz se desarolla en Paraguay mucho mejor que el trigo. Dobrizhoffer afirma que el cultivo de arroz fue introducido en este país por los jesuitas recién en su época, hacia 1750” (RENGGER, [1835] 2010, p. 153). Repetindo constantemente essa estrutura em sua narrativa, Rengger atribuiu uma considerável importância ao nome do autor, sem, no entanto, importar-se em esclarecer de qual obra e, também, de que página extraiu as informações citadas.
Considerando-se um total de 103 situações de intertextualidade, essa prática altera-se somente em 8 momentos, nos quais Rengger identifica, além do autor, o volume e a página em que localizou as informações que lhe interessam destacar. Como, por exemplo, ao dissertar sobre os indígenas do Paraguai, Rengger sublinha que: “Por ello, todo lo que digo de los guaraníes salvajes ha sido observado por mí mismo, lo que Azara, como él lo dice (tomo 2, p. 56), no pudo hacer nunca” (RENGGER, [1835] 2010, p. 111). O mesmo ocorre no capítulo sobre o efeito das mordidas das cobras,132 no qual Rengger informa, em nota de rodapé, a referência completa da obra de Spix que consultou, o que se repete, já em seu diário, quando discorda de uma informação de Lamarck sobre as vespas, informando, ao final, entre parênteses, o título da obra, o volume e a página.
Os exemplos acima mencionados demonstram que Rengger adota essencialmente uma prática intertextual, baseada na alusão e, em alguns casos, na citação, conforme proposto por Gérrard Genette (1989).133 Além disso, a adoção da citação, como uma forma mais completa
132
Deve-se observar que esse é o único capítulo da obra Viaje al Paraguay publicado previamente. Foi impresso em 1829 no terceiro número da revista Archiv für Anatomie und Physiologie, editado desde 1815 pelo reconhecido médico alemão Johann Friedrich Meckel (1781-1833).
133
Cabe a observação de que não encontramos indícios de transcrições literais de outros autores nos relatos de Johann Rengger, o que o afasta da prática do plágio, como também destacado por Genette (1989). Ao mesmo tempo, o conceito de plágio no período em que Rengger produziu os seus escritos ainda encontrava-se em consolidação, pois, como aponta Chartier (2012), a definição moderna de plágio é uma construção que se desenvolve ao longo do século XIX. No Setecentos, o plágio ocupou uma posição secundária com relação às disputas envolvendo os direitos de publicação e comercialização entre autores, editores e livreiros, conforme observa o autor, além do mais, havia uma série de “lugares comuns”, como denomina Chartier (2012), que se associavam à ideia muito cara a Ilustração de que o conhecimento deveria servir à humanidade e não ser posse de um indivíduo. Para Chartier, o plágio, nesse período, estaria associado à complexa definição do que seria “[...] a identidade própria de uma obra. Mesmo no século XVIII, é seu conteúdo intelectual, e não aquele das ideias, o que define a obra. É a maneira de escrever, o estilo, o sentimento, a linguagem. Portanto, se há plágio, deve-se