Analisamos os empreendimentos sob a ótica dos empreendimentos solidários. Passamos agora a analisá-los sob a luz da inserção da pessoa com deficiência no trabalho. Em que medida pretendem ser ou poderiam representar uma alternativa de inserção no trabalho para pessoas com deficiência? Tais experiências seriam avanços rumo ao Paradigma de Suporte, desenvolvendo a prática da inclusão?
Assim, temos a seguinte análise das experiências aqui estudadas.
A Tramart propõe-se a desenvolver uma atividade econômica pela qual se caracteriza. Não pretende constituir-se como “uma cooperativa de deficientes”, mas de artesãos. Objetiva geração de trabalho e renda aos seus associados, bem como a promoção de uma gestão participativa. Considera a possibilidade de desenvolver capacitação inicial para os novos membros. Assim, apresenta-se como alternativa de geração de trabalho e renda, favorece a prática da inclusão, e constitui-se em espaço de participação das pessoas com deficiência, juntamente com outros cooperados, nas decisões quanto ao próprio empreendimento.
A Casa Profa. Lydia pode ser considerada como espaço transitório entre a capacitação profissional e o encaminhamento ao mercado, administrado pelas próprias pessoas com deficiência, em um processo gestionário de participação. A convivência maior é com pessoas com deficiências variadas, porém bastante aberta à participação de pessoas sem deficiência como associados. Possibilita também espaço de comercialização de produtos de associados que não freqüentam suas oficinas de trabalho. São os chamados cooperadores. Assim, a Casa Profa. Lydia apresenta-se, não propriamente como alternativa de inserção no mercado, mas desenvolvendo uma fase intermediária. No entanto, ressalta-se o mérito de uma proposta participativa enquanto capacitação profissional, avançando quanto às propostas desenvolvidas por programas ou instituições, governamentais ou não, permitindo-se que as pessoas com deficiência discutam e decidam sobre o seu próprio processo de “reabilitação”. A inclusão também é favorecida na convivência com associados sem deficiência, na interação com a comunidade, e na participação política reivindicando respostas às suas necessidades específicas, como transporte adaptado, entre outras.
A COPAVI-SP seria um espaço de geração de trabalho e renda, na qual os associados poderiam tanto realizar o trabalho internamente à cooperativa ou realiza- la na própria empresa contratante de seus serviços. A convivência era basicamente entre as pessoas com deficiência auditiva. A direção da cooperativa também era exercida basicamente por estas. Por outro lado, a pessoa ouvinte também poderia ser associada e era desejável que isso ocorresse para exercerem funções inviáveis ou difíceis para a pessoa com deficiência auditiva. Não obstante a sua proposta, não se mostrou como alternativa de inserção da pessoa com deficiência no mercado, e pouco efetiva em possibilitar participação e inclusão social dessa população, permanecendo as ações junto à comunidade e as ações políticas/reivindicatórias mais restritas a pessoas da diretoria.
No geral, temos que o ingresso da pessoa com deficiência nesses empreendimentos seria possível, mesmo aos que não tem recursos financeiros ou experiência profissional, sendo a cooperativa uma facilitadora para oferecer capacitação profissional e permitir menor aporte de capital para constituir a própria empresa. Sendo de produção, haveria necessidade de busca de recursos, e sendo de serviços, a força de trabalho dos cooperados seria o fator exigido, podendo haver capacitação na própria cooperativa. A gestão participativa permitiria uma atuação efetiva do cooperado, que democraticamente estaria decidindo pelos rumos do empreendimento coletivo. A gestão cooperativa exige e possibilita aprendizado e conhecimento, tendo como conseqüência maior capacitação aos seus associados. A inclusão social pode se dar na inserção na cooperativa, na participação em sua gestão, no envolvimento nas discussões e lutas políticas e sociais, ou no encaminhamento a um emprego.
O papel exercido por algumas cooperativas (ou projetos cooperativos) quanto à transição entre capacitação profissional e emprego pode assemelhar-se à função de um programa de reabilitação profissional, ou ao papel exercido por associações que muitas vezes realizam encaminhamento ao mercado de trabalho. Por outro lado, nas cooperativas destaca-se a participação mais efetiva do associado no processo com um todo, desde a capacitação profissional até a busca pela vaga. A necessidade de atendimento técnico (ou mesmo clínico) pode ser viabilizada pela própria cooperativa, contatado ou contratando profissionais específicos. A demanda parte da cooperativa e não necessariamente de uma equipe de reabilitação. Essa
diferença é fundamental, possibilitando a efetiva participação e decisão das pessoas com deficiência, como apontado por RONDAN (1984). Podemos nos questionar se esse papel deveria ser exercido pelas cooperativas. Se considerarmos a cooperativa apenas como um empreendimento econômico, talvez não. Por outro lado, sabemos da função social que cumpre a cooperativa. Nesse sentido, com essa população específica e tendo- se uma realidade escassa de serviços oferecidos à pessoa com deficiência, poderia ser justificável. Outra razão seria que a cooperativa não possibilita, no momento, uma retirada suficiente; ou ainda, não possui atividade de trabalho dentro dos interesses dos seus associados. Por outro lado, a colocação profissional em uma vaga de emprego possibilitaria uma inserção no mercado competitivo a essa população não permanecendo em espaço “semi-segregado”, possibilitando a inclusão e ganhos sociais tanto para a pessoa com deficiência quanto para as pessoas que com ele conviveram no emprego.
Quanto à questão de as cooperativas de trabalho que se proponham a ter como sua população alvo, quase que exclusivo, pessoas com determinado tipo de deficiência, fazemos a seguinte consideração: sem dúvida é importante que as cooperativas possam desenvolver a prática da inclusão, que entendemos como ideal. Por outro lado, talvez haja necessidade de espaços intermediários entre ambiente segregado e o ambiente inclusivo, conforme a população a ser atendida, para garantir uma verdadeira inclusão, com real participação dos cooperados nas discussões e decisões. Esses espaços intermediários, por exemplo, poderiam ocorrer tanto em projetos cooperativos de associações de pessoas com deficiência como em programas de reabilitação profissional, nos quais o exercício da prática democrática possa ser desenvolvido.
O desenvolvimento de ações de discussões políticas sobre direitos das pessoas com deficiência e de ações educativas à comunidade em geral sobre questões dessa população específica pode reproduzir a função exercida por associações de pessoas com deficiência e de movimentos sociais. No entanto, acreditamos que pode ser o papel social e político da cooperativa também. Esse engajamento pode proporcionar exercício de cidadania aos seus cooperados, como desenvolver a educação da comunidade onde a cooperativa está inserida. De qualquer modo, é importante não relegar o aspecto econômico da cooperativa a um segundo plano.
O Paradigma de serviços, que tem por fundamento a normalização pode estar assim, sendo superado, mesmo que não plenamente, ao considerarmos a cooperativa de trabalho como forma de capacitação e inserção profissional. A direção exercida por pessoas com deficiência e a participação democrática dessa população apontam mudanças significativas rumo ao Paradigma de suporte, que tem por fundamento a inclusão. Na prática, muitas ações e atitudes sofrem ainda as influências da concepção de normalização e mesmo da institucionalização.
Concluímos, portanto, que as cooperativas podem se desenvolver como espaço tanto de geração de trabalho e renda, de gestão participativa e democrática e de inclusão social, mas que, no entanto, muitos desafios precisam ser vencidos, como o desenvolvimento da própria cultura e gestão cooperativa, do desenvolvimento do empreendimento econômico viável no mercado, e a sinergia com ações educativas e políticas pertinentes às necessidades específicas da população com deficiência.