Em um momento de sono profundo, o sábio depara-se sonhando com “uma figura luminosa semelhante ao que se pode idear de mais perfeito na forma huma- na, massa cósmica, espécie de chama cor de ouro, que se agitava às mais ligeiras ondulações do ar, sem perder nunca a pureza dos contornos”. Dirigindo-se a Be- nignus, a “maravilhosa aparição” diz ser o habitante solar que ele “procuravas inutilmente nas regiões do espaço”.98 Antes do fim do sonho, o encantador mora-
dor do sol lembra ao sábio:
Mas entre os meios eficazes de elevar o homem teu semelhante ao seu aperfeiçoamento espiritual, que é também moralmente o seu ponto objetivo, consiste o principal na fecunda e nobre mis- são de que te encarregaste, isto é, vulgarizar os resultados da ci- ência e fazer subir por esse meio o nível intelectual do povo. 99
Nesse momento da viagem, podemos dizer que o personagem cultor da ci- ência recebe a chancela de propagador do conhecimento científico, e O Doutor Benignus, enquanto livro/romance, manifesta-se como o escrito que permite a Zaluar vulgarizar ciência. Segundo Moema Vergara, o termo “vulgarização cientí-
97 ZALUAR, 1994, p. 125. 98 Ibidem, p. 293.
fica” foi difundido no século XIX,100 de modo que no Brasil será utilizado, até os
anos 1930, para “designar a atividade de comunicação com os leigos”. 101
Na edição de 1813 do Dicionário da língua portuguesa escrito por Anto- nio Morais Silva, o substantivo “vulgarização” aparece como ato ou ação de vul- garizar, definição que se mantém nas edições oitocentistas e subsequentes do Di- cionário da seguinte forma: “Reduzir ao estado do plebeu, e homem vulgar. Fazer comum, com abatimento da nobreza, gradação de apreço, respeito. Traduzir em vulgar, romancear. Publicar a todos, prostituir-se.” 102 Encontramos em tal defini-
ção, e até mesmo antes do termo ser dicionarizado, a ideia de que a vulgarização consiste no ato de traduzir, ação não desvencilhada de “uma perda de ‘aura’ e des- locamento de valores, o que antes era nobre passa a ser agora plebeu, culminando com a corrupção máxima que seria a prostituição”. 103
Assim, pensar o estatuto da tradução torna-se fundamental para a compre- ensão do significado de vulgarização. Remontando à Renascença e geralmente aceita no mundo contemporâneo, a ideia de tradução designa a reprodução do ori- ginal em outro código. Para os renascentistas, “a missão do tradutor era então de ‘transladar’, de difundir as obras-primas da antiguidade, de torná-las acessíveis a todos”.104 Ocorre, nesse sentido, que a tradução se dá mediante um complicado
impasse: ela possui como referente algo que existe antes de si mesma, mas é per-
100
“Segundo Bruno Béguet [1990, p.06], o termo “vulgarização” seria raro antes do século XIX, e foi apresentado como um neologismo no Dictionnaire de la langue française de Littré, em 1881. Esse dicionário, que era bastante usado por nossos intelectuais do fim do século XIX, atribui sua origem a Mme de Stäel, que, no início do século, utilizara a palavra vulgarité como algo que perde sua distinção e amplia seu uso e domínio [RAICHVARG, D.; JACQUES, J., 1991, p. 09]. Já Ben- saude-Vincent e Rasmussen [1997, p.13] assinalam que a ‘maioria dos dicionários data a aparição do verbo vulgariser de 1826 e o substantivo vulgarisation nos anos 1850-1870 – a expressão vul-
garisation scientifique foi utilizada por Zola em 1867.’” No dicionário “Le petit Robert, o verbo vulgariser data de 1829 e o substantivo em 1852, tudo indica que este verbo foi dicionarizado anteriormente em português, mantendo o mesmo significado nas duas línguas. Cf. REY- DEBOVE, J.; REY, A. Nouveau Le petit Robert: Dictionnaire de la langue française Paris: Dic- tionnaires Le Robert, 1993.” VERGARA, M. de. R. Ensaio sobre o termo “vulgarização científica” no Brasil do século XIX. Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p.
137-145, 2008. Disponível em:
<http://www.sbhc.org.br/pdfs/revistas_anteriores/2008/2/artigos_2.pdf >. Acesso em: 09/08/2011, p. 140-145).
101 VERGARA, 2008, p. 140. 102
MORAIS SILVA, A. Dicionário da língua portuguesa. Edição 1a[1813], 4ª [1831], 6a [1858], 7a [1878], 8a [1891], 10a [1945]. Ed. Confluência apud VERGARA, 2008, p. 138.
103 VERGARA, 2008, p. 138. 104 Ibidem, p. 138.
meada pela impossibilidade de ser completamente fiel àquilo que se propõe tradu- zir.
Em 1891, o Dicionário de Morais Silva acrescenta ao significado do subs- tantivo outros predicados: “tornar alguma coisa geralmente conhecida, sabida, tornar-se geral, vulgar, espalhar-se muito; divulgar-se”. É somente na sua décima edição que a obra de Moraes Silva sinaliza entre os usos de vulgarização o “ato ou efeito de divulgar. Vulgarização de conhecimentos científicos especializados, pondo-se assim ao alcance do maior número possível de indivíduos, isto é, do vulgo; por definição”. 105 Articulando as características inerentes ao ato de tradu-
zir com a perspectiva de “vulgarização científica”, Moema Vergara chega a uma conclusão reveladora:
A vulgarização científica do século XIX trazia consigo vários dos elementos enunciados pela tradução: o limite na transmis- são dos conteúdos; a preocupação de estar ao alcance de todos e assim conferir um efeito universal ao conhecimento; além de carregar consigo também a centelha do novo. Se isso é verdade, então posso afirmar que a vulgarização ou divulgação é uma atividade criadora, ou seja, faz surgir algo que não existia ante- riormente. 106
Considerando que os dicionários procuram formalizar termos já cristaliza- dos culturalmente, é possível afirmarmos que a utilização do termo “vulgarização científica” vinha ganhando considerável regularidade no Brasil desde o século XIX. Entre 1850 e 1890, a palavra designava uma prática efetiva. Era o momento em que a vulgarização científica intensificava-se nos planos nacional e internacio- nal; proliferavam-se revistas, jornais, palestras públicas e exposições a ela desti- nadas. Possivelmente introduzido no país através da leitura de livros franceses – tais como os de Camille Flammarion –, “vulgarização científica” já era uma ex- pressão, portanto, disponível ao contexto brasileiro de 1870. Vulgarizar ciência era um fenômeno social concreto ao qual Augusto Emílio Zaluar vinculava-se não apenas através da nova e grande “soma de conhecimentos” que dizia criar em O Doutor Benignus, mas também ao editar O vulgarizador: jornal dos conhecimen- tos úteis, periódico107 que nos dizeres do próprio Zaluar buscava “despertar [...] a
105 MORAIS SILVA apud VERGARA, 2008, p. 140. 106 VERGARA, 2008, p. 139.
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Os periódicos científico-literários eram publicações muito comuns no Brasil do século XIX,
assim como na França e na Inglaterra. O Vulgarizador circulou entre 1877 e 1880. Pretendia-se que ele fosse uma publicação semanal, contudo foram publicados apenas 40 números em uma periodicidade irregular. Suas páginas o creditavam como um periódico “Colaborado por Homens
emulação no aperfeiçoamento das indústrias nacionais e criar novos elementos de progresso ao desenvolvimento moral e material do Brasil”. 108 Atribuindo valor à
ciência ao torná-la objeto necessário de fabulação, Zaluar não deixa de inspirar-se em Júlio Verne e de escrever a sua própria ficção científica.