5. ANALYSIS II: THE IMPACT OF THE POLICY MEASURES
5.3 I NFLATION O UTLOOK
É de conhecimento de estudiosos da língua e do ensino que ensinar língua materna não significa ensinar gramática. Como já vimos a gramática constitui-se apenas num guia artificial de consulta, um amontoado de regras que, se vistas ingenuamente, buscam homogeneizar o heterogêneo – a língua. Dizemos ingenuamente por nos referir àqueles que acreditam estar ali a verdadeira Língua Portuguesa, e que veem qualquer manifestação fora desse padrão como uma deturpação do que seria a língua pura.
A língua, enquanto propriedade dos falantes que a usam, é tão diversificada e complexa quanto eles mesmos (os seres humanos falantes) por isso não pode ser reduzida a
algumas centenas de páginas de um livro. Ratificamos que não discursamos contra a gramática, pelo contrário, reconhecemos a importância do seu ensino para a transformação da realidade dos indivíduos. Discursamos simplesmente a favor do reconhecimento dessa diversidade, que constitui justamente a beleza da língua, no ensino da gramática nas escolas. Ou seja, falamos de estudar a gramática articulando-a com a linguagem.
O conceito que temos de gramática e de criatividade coloca esses dois termos em lugares opostos. Se entendermos que criatividade tem a ver com expressões próprias de arte e de visões de mundo, não temos como ver nas normas expressões criativas, pois estas são vistas como prescritas, prontas, estabelecidas para que todos sigam. O trabalho com a teoria culioliana e as atividades epilinguísticas abre uma nova visão sobre esses termos (gramática e criatividade), trata-se de um lugar que concebe como criativa toda manifestação linguística do indivíduo dotado de cognição, fazendo-o percorrer o caminho do conhecimento por meio da sua própria atividade intelectual.
Carlos Franchi na sua obra “Criatividade e Gramática” de 1988 desbrava os caminhos
da criatividade e da gramática, explicitando primeiramente que um comportamento criativo não é apenas aquilo que se manifesta de modo divergente, mas há criatividade também nas atitudes convergentes. Nas palavras do autor, a criatividade:
Não tem, enquanto processo, um domínio privilegiado: está nas artes, nas ciências, nas várias formas de representação e organização das experiências, na seleção dos materiais ou dos instrumentos adequados ao trabalho e aos propósitos que lhe atribuímos. Está onde se dão possibilidades de opção, mesmo a de optar pela opção dos outros. (FRANCHI, 1988, p.12)
Para o autor a visão bastante difundida de que a criatividade tem espaço apenas nos empregos de linguagem figurada, nas atividades com figuras de linguagem, em produções textuais de ficção ou da poesia é também bastante parcial, limitada a apenas algumas de suas formas. O comportamento criativo está presente também nos atos de fala, pois a língua disponibiliza ao falante inúmeras possibilidades de arranjos, inúmeras opções de vocábulos, a escolha dentre tais opções evidencia um trabalho criativo muito complexo, que põe em evidencia o processo interno de compreensão do indivíduo, este fator vai determinar as escolhas feitas no momento da fala.
A elaboração das gramáticas segue um caminho há muito repetido e cheio de lacunas. Suas definições baseiam-se em traços morfológicos e em generalizações. Parafraseando os exemplos de Franchi (1988) podemos citar a definição de advérbio: É a palavra invariável
que modifica o verbo, o adjetivo e outro advérbio. Os advérbios expressam uma circunstância de tempo, modo, lugar, etc. Toda a palavra terminada pelo sufixo –mente,
designa um advérbio de modo. Nesta definição podemos observar claramente uma dessas
lacunas anteriormente mencionadas: a questão da invariabilidade (palavra invariável) e da variabilidade (palavras formadas por derivação sufixal em –mente).
O exemplo do autor sobre a definição de substantivo5 explica as generalizações. Tal definição não dá conta de uma infinidade de outras coisas que são consideradas substantivos (sentimentos, por exemplo), porém por generalização (por conter termos dentre os substantivos que se encaixam nestes grupos) estes são representativos da classe.
Aplicar a ideia de designação de seres em exercícios de reconhecimento do tipo
“sublinhe os substantivos no texto abaixo” pode gerar grandes conflitos, pois temos
substantivos que designam ações e outros fenômenos (corrida, movimento, beleza, chuva). A questão do aspecto morfológico é ainda mais interessante, visto que não é somente o substantivo que se apresenta como classe variável. Muitas vezes, se não todas as vezes, esse tipo de exercício, puramente classificatório, deixa passar a oportunidade de mostrar ao aluno a riqueza dos demais fenômenos da linguagem que aparecem expressos nos enunciados trabalhados em razão de se manter o olhar fixo para a classificação, ou reconhecimento desta ou daquela classe gramatical.
Quando se trata de exercícios de análise sintática, incorremos na mesma situação. Ao determinar um termo específico para análise, ignora-se as demais operações presentes no enunciado, que proporcionariam ao aluno contato com a grande diversidade da linguagem.
Essa concepção anula, desse modo, um dos aspectos mais importantes da criatividade na linguagem: o de que é por ela que se constituem os sistemas de representação, na indefinida sequência histórica de indefinidos discursos. O de que nesse processo o sujeito não é somente quem se apropria de um sistema dado, mas quem o constrói junto com os outros, abertas todas as possibilidades de re-forma e relocação. (FRANCHI, 1988, p.16)
A análise sintática pode ser trabalhada de modo a promover o exercício da criatividade enquanto forma de expressão. Isso se dá, como dito anteriormente, por conta das inúmeras opções de representação de um significado, que revelam diferentes pontos de vista. Tomemos os exemplos citados por Fanchi (1988, p.31) que trata da relação de causa e consequência:
– O jardim florescia o ano inteiro porque tinham cuidado de plantá-lo com espécies variadas, comuns...
– Como tinham cuidado de plantá-lo com espécies variadas, comuns..., o jardim florescia o ano inteiro.
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Definição de substantivo discutido por Franchi (1988):“ palavra variável que designa os seres – pessoas,
Tinham cuidado de plantar o jardim com espécies variadas, comuns... Ele florescia, por isso, o ano inteiro.
O jardim florescia o ano inteiro. Tinham cuidado de plantá-lo com variadas espécies, comuns....
Em todos os exemplos temos expressada a relação de causa e consequência, ora pela variação da conjunção, ora pela simples alternância das orações que compõem o período. Essa atividade nos permite constatar a presença do comportamento criativo nas atividades de análise sintática por meio das várias formulações para a mesma relação semântica.
A compreensão das classes gramaticais e as questões morfológicas, (variável, invariável), sob essa visão constituem uma consequência da atividade de linguagem. O aluno não precisa saber o que é um substantivo, um adjetivo para operar textualmente com ele sob várias formas. Os exercícios de transformação desencadeiam a percepção do sujeito para a utilização dos mais variados mecanismos fornecidos pela língua. Precisamos reconhecer, como nos diz Callou (2007), que por trás da aparente unidade linguística que permite que os falantes se comuniquem, existe uma infinidade de possibilidades igualmente válidas, ou seja, uma variação radical de experiência.
Quando falamos de criatividade na gramática, de linguagem e de atividades que despertem esse comportamento criativo estamos falando de atividade epilinguística, assim definida por Franchi:
Chamamos de atividade epilinguística a essa prática que opera sobre a própria linguagem, compara expressões, transforma-as, experimenta novos modos de construção canônicos ou não, brinca com a linguagem, investe as formas linguísticas de novas significações. (FRANCHI, 1988, p.36)
O ensino da gramática deve ser um contínuo trabalho de construção, reconstrução e transformação de estruturas linguísticas, nos níveis textual e lexical. Daí a importância da utilização de atividades que tornem explícitas as operações inconscientes dos alunos fazendo a necessária ponte entre os níveis da epilinguística e da metalinguagem. Dessa forma, pouco importa decorar as inúmeras classificações da gramática normativa, mas importa “levar os aprendizes a operar sobre a linguagem, rever e transformar seus textos” (FRANCHI, 1988, p.20).
Nessa transformação/produção do texto o indivíduo traz para a metalinguagem os recursos de expressão de que faz uso (diferenciações, generalizações), nas palavras do mesmo autor (p.20) “reintroduz-se na gramática seu aspecto criativo”, desta vez constituindo uma teoria gramatical consciente e própria.