6. DISCUSSION
6.4 I MPLICATIONS FOR SMOKING INTERVENTIONS
Com o término dessa dissertação, pude perceber a relevância que as teorias da Linguística Sistêmico-Funcional (LSF) de Halliday (1985; 1994) e de seus colaboradores têm para a análise da construção da coesão e coerência dos textos pertencentes ao gênero editorial.
Estou convicta de que os resultados da análise responderam às questões que foram à finalidade dessa pesquisa: (i) Como se realizam a coerência e a coesão nos editoriais de jornal examinados? (ii) Que escolhas léxico-gramaticais realizam a coerência e a coesão em um editorial de jornal?
Com relação à primeira pergunta, as análises dos três editorias (por falta de espaço, dois deles fazem parte dos anexos) mostraram que a coesão foi construída de diversos tipos, como: coesão referencial – exofórica e endofórica – anáfora, catáfora, esófora, elíptica, comparativa, bridging e locacional; coesão lexical – por
classificação – hiponímia, contraste, similaridade, – por composição – meronímia e co-meronímia, por expectativa e por marcadores lógicos. Já a coerência foi obtida por: coerência tripártite – global, local e temática –; estágios de gênero e frame do leitor.
Com relação à segunda pergunta de pesquisa, referentes às escolhas lexicais, a análise mostrou que é feita de acordo com o contexto cultural, que considera o gênero, e o contexto situacional, que considera o registro, de modo a revelar avaliação implícita e explícita expandidas pelo leitor através de tokens de
atitude.
Com embasamento e apreensão desses pressupostos teóricos, pude mediar e orientar o processo de aprendizagem dos meus alunos do Curso Regular do Ensino Médio da Rede Estadual de Ensino, de forma mais assertiva com relação às dúvidas pertinentes aos mecanismos de coerência e coesão, durante a produção e análise de texto argumentativo dissertativo. Essa tipologia textual é uma das mais requisitadas durante o processo de ensino-aprendizagem no Curso do Ensino Médio e também pelos órgãos oficiais de avaliação externa como, por exemplo, no SARESP/ENEM e demais vestibulares dos centros universitários.
Cereja & Magalhães (2003) afirmam que os exames vestibulares do país solicitam aos candidatos a produção de textos dissertativos, mas, na verdade, pela natureza polêmica dos temas, quase sempre o que se espera do candidato é que
63 ele produza um texto argumentativo ou dissertativo-argumentativo, i.e., um texto em que o autor analise e discuta um problema da realidade, defenda seu ponto de vista e, às vezes, proponha soluções.
Sendo assim, para ajudar a sanar as dificuldades dos alunos, coloquei em prática as teorias estudadas, a saber: a teoria de Eggins (1994), que aborda os quatro tipos de coesão – referencial, lexical, conjunção e estrutura conversacional - considerados mecanismos primordiais para obtenção da coerência textual; a de Minsky (1975), que trata do frame (conhecimento de mundo), considerado outro mecanismo responsável para dar coerência ao texto; a teoria da natureza tripártite da coerência de Agar & Hobbs (1982), que trata dos três tipos de coerência: global, local e temática, relevantes para compreensão textual; a teoria dos marcadores metadiscursivos textuais e interpessoais de Dafouz-Milne (2008), mecanismos de construção textual, que auxiliam nas relações semânticas e mostram o posicionamento do autor.
As análises dos editoriais mostraram claramente a utilização desses elementos como uma forma de garantia da coesão e coerência na construção desses editoriais. A análise deixa evidente também que através das escolhas léxico-gramaticais dos participantes e da cadeia de referência de Eggins (1994) é possível tornar a produção de um texto mais “claro” – coeso e coerente –, uma vez que os participantes devem ser retomados em cada estágio da construção textual.
Outra contribuição relevante para a construção da coerência desse gênero foi a coesão avaliativa, conhecida também como realização prosódica (LEMKE, 1998), a qual revelou que tanto a avaliação social positiva quanto a negativa permearam por toda a logogênese dos editoriais. Percebi, pela análise das escolhas léxico- gramaticais, a construção do significado atitudinal do editorial ao longo do discurso, realizada através de avaliações implícitas, recurso de não comprometimento com as informações transmitidas aos leitores.
Os estudos com embasamentos nos pressupostos teóricos e metodológicos da LSF foram de suma importância para análise dos editoriais, uma vez que abriram caminhos tanto para uma análise mais detalhada como também uma reflexão dos mecanismos de Coesão e Coerência em Editorial de Jornal. Ao longo da pesquisa, surgiram vários questionamentos que, paulatinamente, foram resultando em reformulação de minhas ações pedagógicas e ampliação da visão de mundo (um novo olhar para a problemática social – dificuldades dos alunos no processo de
64 comunicação escrita, em especial aos mecanismos de coerência e coesão. Constatei, assim, que a LSF além de oferecer um aporte teórico aos docentes para ministrar aulas de qualidade, também torna possível dar voz aos discentes, uma vez que estes conseguem ter uma compreensão mais ampla e crítica, dialogando com o texto, deixando a posição de meros produtores/leitores passivos (leigos) para produtores/leitores ativos (críticos). Assim, sua participação das práticas sociais se dá de forma mais efetiva. Puderam compreender que não há discurso neutro, que todo discurso é ideológico, e que ao lerem qualquer texto, não se faz necessário aceitar como verdade una, e isso foi permitido pela análise detalhada dos elementos da micro e macro estrutura do texto, dentro da perspectiva da LSF.
A partir dessa constatação, agora posso dizer, com mais segurança, que tenho mais instrumentos eficazes para ajudar os alunos a superar desafios na leitura crítica de editoriais de jornal bem como na utilização desses mecanismos para uma produção textual coesa e coerente, uma vez que leitura e produção textual estão intrinsecamente interligadas.
Percebi a relevância da teoria da LSF no processo ensino-aprendizagem como uma teoria que considera aspectos do contexto social, cultural e situacional – imediato, que se situam as problemáticas sociais, as relações interpessoais do mundo real, que transcendem a própria linguagem. Portanto considero, pelos resultados obtidos, que as abordagens teóricas e metodológicas da LSF são instrumentos poderosos para a compreensão do discurso como uma ação social que deve ser desvelada.
65
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71
72
Anexo 1 - Cadeias de referência de Eggins (1994), com base em Martin (1992)
Figura 1 – “Teia de aranha” – cadeia de referência - A lista infame – Relatório da Anistia Internacional mostra presença da pena de morte nos regimes mais autoritários do planeta
73
Figura 2 – “Teia de aranha” – cadeia de referência - FALTA RIGOR – Em casos de extrema periculosidade, cabe discutir mecanismos legislativos mais severos de controle e punição
74
75
Anexo 2 – Teoria de Eggins (1994)
REFERÊNCIA
Apresentativa Eu tenho uma irmã
Presumida Ela é professora. A identidade da referência presumida pode ser recuperada:
a) do contexto geral da cultura (homofórica) ( O sol ....)
b) do contexto imediato da situação (na cozinha: A geladeira está ...)
Exofórica contexto imediato partilhado
Eu tenho...
Endofórica interior do texto Eu vou oferecê-lo
1. anafórica Maria ... porque ela ficou doente O referente apareceu antes.
2. catafórica O que eu quero falar é sobre isso: todos vão ... O referente aparece depois.
3. esofórica O vaso que você me deu está aí. O referente ocorre logo depois.
Elíptica
Comparativa Seus outros problemas ... Tais problemas podem ... Um problema diferente mas muito comum... Além disso outros problemas ...
A identidade da referência presumida é recuperada por comparação.
Bridging Essa operação. (operação não mencionada, mas infere-se através
do assunto que de que se está tratando: doença, hospital, etc.)
Era uma vez dois velhinhos.
A referência presumida refere-se a um item não mencionado, mas que pode ser inferido através de outros itens.
Locacional Aqui eles dão ....
Terça-feira, acima, lá, etc.
Refere-se não a pessoas ou coisas, mas ao tempo ou ao local.
b) LEXICAL (palavras de classe-aberta) (nomes, verbos principais, advérbios e adjetivos)
(não inclui palavras gramaticais (itens de classe-fechada: preposições, pronomes, artigos, verbos auxiliares, etc.)
Lexical string - itens lexicais em seqüência que se referem a um item por relação taxonomica (classificação e
composição) ou de expectativa.
76
RELAÇÃO LEXICAL
Taxonômicas
i) através da classificação:
- co-hiponímia (pneumonia em relação a doença (superordenado) - classe-sub-classe: roedor e rato (superordenado/subordinado) - contraste: seco/molhado
- similaridade: sinônimo (clínica/hospital) - repetição (transfusão/transfusão) ii) através de composição:
- meronímia: (todo e parte: corpo e artéria)
- co-meronímia: (ambos relacionados a um todo: veia e artéria)
de expectativas
Relação predizível entre:
i) verbo e agente/paciente (latir/cachorro)
ii) ação/processo e participante típico (comer/jantar) iii) processo/evento e lugar típico (transfusão/hospital)
iv) item lexical individual e um grupo nominal (doador/doador de sangue)
Observe:
Dois ou mais itens lexicais podem equivaler a um item:
Realizações
Simples Complexa rodear
considerar esporádico
fazer roda em volta de ter consideração de vez em quando
c) CONJUNÇÕES
Halliday reconhece duas dimensões: ● Interdependência (hipotaxe e parataxe) ● Lógico semântica: 1. EXPANSÂO
a) elaboração (reafirmação ou esclarecimento)* b) extensão (adição, substituição ou alternativa)**
c) enhancement (expande ou embeleza: tempo, comparação, causa, condição ou concessão)***
2. PROJEÇÃO
a) locução (uma oração é projetada através de outra, que a apresenta como uma locução) b) idéia (uma oração é projetada através de outra, que a apresenta como uma idéia)
Tipos básicos de oração complexa
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Lógico-semântica:
1. EXPANSÃO
a) elaboração João não esperou; ele fugiu. João correu, o que surpreendeu todos.
b) extensão João fugiu e Pedro ficou. João correu enquanto Pedro permaneceu.
c) enhancement João ficou com medo, por isso fugiu. João fugiu porque ficou com medo.
2. PROJEÇÃO Paratático hipotático
a) locução João disse: "Estou fugindo". João disse que estava fugindo.
b) projeção João pensou: "Vou fugir". João pensou que ele fugiria.
d) ESTRUTURA CONVERSACIONAL
A descrição do texto oral envolve também padrões coesivos da estrutura conversacional.
a) atos de fala (ou função da fala) (oferta, ordem, afirmação, pergunta, aceitação, recusa, concordância etc.) b) estrutura de troca (a mínima troca é formada por dois atos de fala)
* Elaboração: parataxe (1) exposição 'em outras palavras' (2) exemplificação 'por exemplo' (3) clarificação 'para ser preciso'
hipotaxe – oração adjetiva explicativa
** Extensão: parataxe – e, nem, ou, mas
hipotaxe – adição – substituição – alternativa
78
Anexo 3 – Cadeias de referência – Manutenção dos participantes dos editoriais
1ª Cadeia de Referência
Vamos rastrear a manutenção dos participantes ‘A falta de rigor da lei em casos de extrema periculosidade e os mecanismos legislativos mais severos de controle e punição de crimes, que fazem parte do editorial, conforme teoria da cadeia de referência de Eggins (1994), com base em Martin (1992, p. 140)
80
Quadro 01 - Texto: FALTA RIGOR – Cadeia de Referência
81 Vamos rastrear a manutenção dos participantes (1) ‘Presos monitorados’, (2) ‘sistemas de vigilância’, (3) ‘complexo carcerário’ e (4) ‘projeto de lei’, que fazem parte do editorial, conforme teoria da cadeia de referência de Eggins (1994), com base em Martin (1992, p. 140), para verificação da coesão.
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83
Anexo 4 – Análises dos editoriais “Falta Rigor” e “Presos monitorados”
1 ANÁLISE DO EDITORIAL: "FALTA DE RIGOR"
Inicio a análise com o segundo texto que apresento a seguir, na íntegra, publicado no jornal Folha de S.Paulo (FSP), no dia 18 de abril de 2010.
FALTA RIGOR – Em casos de extrema periculosidade, cabe discutir mecanismos legislativos mais severos de controle e punição
Folha de S.Paulo (18.4.10) Editorial (452 pals.)
TODA VEZ que um crime especialmente chocante ganha destaque no noticiário, avivam-se as pressões por mais rigor na legislação penal – e cabe advertir quanto ao risco de uma excessiva emocionalização nesse tipo de debates.
Mas há riscos inversos, os da indiferença e da tecnicalidade, quando um caso como o do estupro e assassinato de seis meninos em Luziânia (GO) se impõe às
atenções da opinião pública.
Ainda que se possa mencionar a existência de falhas específicas da Justiça nesse episódio – como a insuficiência das avaliações psicológicas a respeito da periculosidade do assassino –, não há como evitar a sensação de que a legislação brasileira vai pecando pelo excesso de brandura.
De um lado, convive-se com a tortura de presos comuns, com a superlotação de presídios, com cenas de absoluta barbárie no trato de simples suspeitos de algum delito sem maior periculosidade; de outro, dispositivos legais avançados e garantias teoricamente legítimas tendem a proteger indivíduos absolutamente
inadaptados ao convívio social.
A estes, a chamada lei dos crimes hediondos pretendeu tratar com especial rigor. A partir de 1990, crimes como tortura, terrorismo, sequestro, estupro ou disseminação de veneno na água potável passaram a receber atenções especiais na legislação, sendo insuscetíveis, por exemplo, de indulto ou anistia.
A lei originalmente determinava que, nesses casos, não valeria o mecanismo da progressão da pena. Nos demais crimes, o condenado pode passar a um regime semiaberto depois de completar 1/6 de
84
sua
pena na prisão.
Ocorre que, em 2006, o Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional essa restrição: os condenados por crimes hediondos teriam os mesmos direitos
que os demais.
Rapidamente, o Congresso adotou uma solução de meio-termo. Sem barrar por completo o sistema da progressão, aumentou para 2/5 da pena o prazo mínimo entre as grades para estupradores, traficantes, torturadores ou genocidas, elevando-o a 3/5 no caso, por si só assustador, de reincidência.
É pouco. Sabe-se, nas condições de congestionamento do sistema penal, o quanto pode haver de