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4 Threat overview and identification

4.3 I1: Master meter – HES

O paradoxo essencial da obra Vidas secas, em relação ao qual se mantém elusiva, é o de que a imagem se faz mais real do que o real, ou no próprio real. A linguagem utilizada produz o silêncio, aprimora as relações entre o real e a

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Essas reações de caráter físico acompanham abalos de outra ordem e mantêm fortes analogias com a produção discursiva, podem ser observados no conjunto da obra de outros escritores, como a de Clarice Lispector, por exemplo, em que são expressas, sobretudo, através de vômitos e dores.

7 É o que ocorre na conclusão da obra de Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres,

narrativa, ora representando um, ora outro como englobante ou como englobado. Isto desloca continuamente a questão da origem da narrativa, ora colocada no discurso, ora na realidade.

O movimento nadificador da narrativa graciliana encontra-se na origem da linguagem, quando o narrador sugere uma idéia de objetividade: “Como não sabia falar direito, o menino balbuciava expressões complicadas, repetia as sílabas, imitava os berros dos animais, o barulho do vento, o som dos galhos que rangiam na caatinga... Agora tinha tido a idéia de aprender uma palavra” (RAMOS, 2001, p. 59). A separação da linguagem ocorre a partir de uma situação traumática e alarmante, que encontra analogias em outras situações do mesmo tipo, como a separação da criança do ventre materno, do seio materno, o próprio drama da aquisição da linguagem infantil (Cf. DELEUZE, 1974, p. 191-199). Esse quadro confere uma alta voltagem emocional à linguagem na narrativa graciliana e a torna poética. A linguagem, em sua origem, é poética e como tal restabelece continuamente as condições e as características de uma linguagem originária.

Como poética, torna-se linguagem desviada, porque se desvia do uso convencional. A desagregação da linguagem na narrativa graciliana revela a possibilidade de uma interpretação do mito de Babel, passa a valer pelo caráter vazio e inarticulado da linguagem que desvia e instrumentaliza o discurso. O narrador mostra o referido mito na obra Vidas secas por meio da personagem:

[Fabiano] Ouviu o falatório desconexo do bêbedo, caiu numa indecisão dolorosa. Ele também dizia palavras sem sentido, conversa à toa. Mas irou-se com a comparação, deu marradas na parede. Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. (RAMOS, 2001, p. 36)

O narrador joga com a linguagem, desestabilizando as forças da trivialização e do código utilizado pelo senso comum. O jogo em que se engaja o narrador de Vidas secas significa a força de envolver-se com o código e com seus signos, sem destruí-los. Segundo Barthes (1971), a literatura assume, nesse jogo, o poder de tirar o poder da língua, tirando a vida da vida. A literatura reconhece o

poder dos mecanismos de intercâmbio social, pertencentes ao Estado, nas opiniões correntes, nos espetáculos, nos jogos, nos esportes, nas informações e nas relações familiares privadas. Em razão de sua força desrealizadora, a literatura logra alcançar o status de construtora de um outro sistema que, diferentemente do senso comum, não oprime nem prende a todos numa rede de regras a serem obedecidas. Para Barthes (1971), a literatura é, por essência, uma trapaça salutar das regras viabilizadoras da compreensão do real, em que a evolução da linguagem desvela o mundo em constante reflexão. Logo, a narrativa graciliana favorece a característica principal do aflorar da linguagem contra as forças de representação que constituem o jogo de regras sociais intercambiadas, entendidas como simulacro. A língua que a narrativa constrói obedece a regras, esconde significados e estabelece-se como significantes do que não é. Nesta perspectiva, a narrativa graciliana como prática de desrealização do real, liberta e desinstitui o mecanismo do simulacro. Nesta função utópica e contraditória de alcance e desrealização do real, Vidas secas inscreve-se como faculdade humana de re-criação.

Em primeira fase de recusa voluntária da mímese, no século XIX, predominou o caráter fragmentário e por isso enigmático da obra de arte. Nesse sentido, negando-se à harmonia morfológica do acabamento, Vidas secas, portanto, nega o mito de Babel, segundo o qual a realidade apresenta também um sentido transcendente, acabado e harmônico. (Cf. PIMENTA, 1978, p. 78)

Por conseguinte, a realidade poética em Vidas Secas realiza-se em contigüidade com o movimento decriador da linguagem, no sentido de representar o real não apenas em seus contornos, mas também em sua essencialidade. A narrativa revela a representação do real em sua essencialidade por intermédio da linguagem artística. O efeito nadificador da mímese incide tanto sobre as personagens e o narrador, quanto sobre os seus demais elementos como o tempo, o espaço a linguagem.

Para cabalmente abranger a totalidade do movimento mimético em Vidas

secas é necessário observar-se que do ponto de vista da natureza da narrativa a

perder o real. Entretanto, por meio de um risco calculado e de uma quase-perda, o próprio ato lingüístico da narrativa ganha e, do real toma posse, interiorizando-o também no silêncio pregnante de linguagem, obtido pelo logos-linguagem, que sucede a esse ato.

Com efeito, entre o real e a linguagem na obra graciliana estabelece-se um espaço no qual o real jaz pulverizado no silêncio. Esse real restaurado, recriado como pela primeira vez, é o real poético. Devemos entendê-lo tanto em simbiose quanto apartado da realidade: “Fabiano estava silencioso, olhando as imagens e as velas acesas, constrangido na roupa nova, o pescoço esticado, pisando em brasas” (RAMOS, 2001, p. 75). Por meio da personagem Fabiano, o horizonte estético afasta-se e nega-se em relação ao sentido desejado pela totalidade, a todo e qualquer sentido passível de integração e, finalmente, a todo e qualquer sentido, até atingir um limite de recusa que só pode ser o silêncio. Este representa, por sua vez, a recusa integral dos últimos restos da mímese. Como linguagem, Vidas secas revela a realidade empírica, por meio do narrador. A situação do discurso do narrador imita e acentua a situação das personagens, cuja realidade fragmenta-se por intermédio da linguagem. Essa realidade parece, contudo, exacerbada na narrativa graciliana, em virtude da consciência do perde- ganha da linguagem. Em verdade, por meio desta realidade, um mundo é perdido e outro ganho.

Em Vidas secas, a recusa do silêncio mimético revela-se, em suma, como atitude ante a idéia de qualquer representação do mundo, pois para essa realidade dura, brusca e seca, na qual as personagens estão inseridas, a melhor representação é o silêncio. Como elucida Sartre: “Calar-se não é ser mudo, é recusar falar, portanto falar ainda.” (apud VERGEZ, 1976, p. 414).

CAPÍTULO II – A POÉTICA DO SILÊNCIO