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I have kind of a power I never knew I possessed 56 : the dominant Katniss

Chapter 3: The Hunger Games

3.2 I have kind of a power I never knew I possessed 56 : the dominant Katniss

As “pedras do caminho” da literatura romani podem ser amalgamadas em um núcleo central: o problema da escrita no seio de uma cultura historicamente oral e avessa à escrita. A partir desse centro, somam-se os percalços que são compartilhados com outras literaturas de minorias. O que quero dizer é que a literatura romani enfrenta dificuldades em função da postura que os romà têm ante a escritura, direta ou indiretamente. A primeira pedra se relaciona com a falta de apoio dos próprios organismos romà que, por sua vez, está relacionada ao diluído lugar ocupado pela escrita na vida dos romà. Por ser uma expressão artística praticada por poucos indivíduos, dada à escassa ou nenhuma escolarização da maioria350, os organismos ativistas que podem obter verbas para promover a literatura romani, estão mais preocupados – além de resolver as questões prementes relacionadas à representatividade política e social – em fazer campanhas internas em prol da escolarização das novas gerações. Para o pensamento imediatista, diante da situação de exclusão em que está submersa boa parte da população, pensar a reconstrução identitária a partir de uma literatura escrita pelos poucos que podem escrever, pode parecer um disparate. Por outro lado, os organismos tentam promover uma visão positiva dos romà, geralmente, a partir da promoção de festivais, especialmente atividades que estejam relacionadas à música.

Cabe ressaltar que a única imagem positiva aceita universalmente e sob a qual os romà são vistos com alguma benevolência é a que os caracteriza como artistas. De fato, muitos são músicos e dançarinos, pois foi a melhor maneira que encontraram para serem bem recebidos pelos não-romà. O próprio termo romà provém de rom, o qual significa originalmente “homem que faz “música”351. Em Memórias de um cigano (1999), o rom Victor Vishnevsky

conta que, enquanto a sua família se trasladava de um lugar a outro, uma das alternativas de diálogo nos povoados que passavam era a música, “[...] alguém pegou um violão e começamos a cantar [...]. Isso fez com que os nativos chegassem mais perto [...] Quando terminamos a cantoria, começaram a cantar suas próprias canções”352. O historiador Fraser

confirma a atividade musical como mediadora nas questões étnicas. Explica que ao associar os “ciganos com a música nos primeiros informes de sua presença na Europa [...] o talento musical podia ser fator poderoso para obter um pouco de tolerância”353. Ao refletir sobre a

atribuição de papéis pela sociedade, no caso dos romà, o de artistas, especificamente músicos

350 A recusa à escolarização foi uma estratégia para evitar a temida aculturação e a manutenção exclusiva da

oralidade, uma forma de garantir a sobrevivência étnica.

351 TENEWICKI, Inês; KINIGSBERG, Yanina. Chicos gitanos, p. 5.

352 P. 52. Vishnevsky é rom nascido na China, mas vive há muitos anos no Brasil. 353 FRASER, Angus. Los gitanos, p.204.

e bailarinos, observa-se que esses papéis estão ligados a uma estrutura de classe, pois associa a função que o indivíduo ocupa na sociedade ao papel que se espera que ele represente354”. Considerar os romà como músicos não é problema, mas a questão começa quando se atrela ao rom, a função de artista como se fosse um instinto e não uma habilidade desenvolvida, isto é, o sujeito é tipificado a desenvolver tal papel, como explica a psicologia social355.

Os romà outorgam uma dimensão poética à existência, o que os torna inclinados a ler a vida de forma simbólica, que gera uma disposição cultural e não natural para a arte. O pensamento nômade romà tende a associar a arte à expressão dos sentimentos, vinculada à utilidade prática e viável. A música, além de ser um meio de expressão ancestral, “guarda nossas lembranças356”, não acarretava em peso extra para os nômades e possibilitava ganhos

econômicos em função das apresentações públicas. Nesse sentido, era natural que se tornasse mais íntima dos romà, do que qualquer outra forma de arte. A aprendizagem artística passa de geração a geração e é a forma de ensinar aos filhos uma arte que, além de tradicional, pode garantir-lhes o sustento. Porém, quando se encara apenas como um dom, atribui-se um olhar sub-humanizado, isto é, tratando-o como um grupo minoritário ao qual são atribuídas mais características naturais do que as que demandem alguma habilidade aprendida. O agravante é que sobre os romà, esse fato recai como mais um estigma. É comum que se escute dizer que os “ciganos levam a música no sangue”, inclusive alguns chegam a acreditar que têm “o ritmo nas veias”. Nada diferente de que um brasileiro acredite que tem o “samba no pé” ou o “samba na alma”, correspondendo a um estereótipo introjetado, com a diferença crucial que, para a categoria “brasileiros”, não pesa como um estigma, como ocorre com as minorias que, por sua condição, não têm forças para defenderem-se do peso dessas imagens. Frente à situação paradoxal dos romà com a música – elemento valorizador da cultura ante os olhos do

outro e também perpetuadora de um estigma –, seria interessante que os organismos romà promovessem diferentes expressões culturais, que pudessem inspirar reconhecimento e reconstrução identitária, isto é, incentivarem outras habilidades não “tão naturais”, como o que se imputa à relação intrínseca entre romà e música.

Justamente com essa proposta, surgiu um recente movimento que visa trazer à luz a arte pictórica dos romà, associado ao conceito de Romart, originalmente criado pelo artista e intelectual rom inglês, Daniel Baker, para designar a arte romani relacionada às artes plásticas

354 LOUREIRO, Stefânie A.G. Identidade étnica em re-construção, p. 60. A visão de que a música é a única

habilidade nas quais os romà podem se destacar foi uma das conclusões do já citado Cesare Lombroso em seu O

homem delinquente.

355 BERGER, L. Peter e LUCKMANN, Thomas, A construção social da realidade, pp. 101-110. 356 Frase comum principalmente entre os velhos.

especificamente. A Romart é definida como um conjunto de ícones comuns, isto é, uma linguagem visual compartilhada pelos romà expressada por meio das artes visuais e do uso desta no cotidiano rom. O termo Romart foi posteriormente estendido por outros intelectuais não-romà – a meu ver, a partir de uma visão estereotipada – associados a uma “arte bruta”, definida pelo pintor e teórico de arte francês Dubuffet, como aquela que é realizada fora das fronteiras das culturas oficiais, a arte das crianças, dos delinquentes, dos doentes mentais e dos outsiders357. As artes plásticas se constituíram em um segmento artístico em que, como na literatura, os romà tiveram, até então, pouca representatividade como sujeitos. Consta que, como objetos, foram tão ou mais explorados pela pintura do que pela literatura, também sob a influência direta dos estereótipos negativos e dos estigmas exotizantes358.

Várias mostras da arte pictórica dos romà foram feitas em diferentes países sob a ótica de promover uma reconstrução identitária. As primeiras referências públicas sobre a pintura como ponto inicial de uma corrente artística surgem na Hungria em 1934, com a mostra de pintores e escultores, ocasião que foram vinculados ao folk-art. Logo após a Segunda Guerra Mundial, alguns pintores quiseram fugir do enquadramento naif e lançam-se à busca por sofisticação com a intenção de serem desassociados do conceito de arte bruta, que estava sendo vinculado ao termo Romart. Em 1979, em Budapeste, organiza-se uma exposição sobre a arte pictórica romani359, com a clara intenção de promover outra forma de ver os romà360. Mesmo que entre as obras selecionadas, muitas não se encaixassem no conceito de arte ingênua ou “bruta”, ainda assim, a exposição, que contava com a subvenção de não-romà, foi nomeada como “exposição de artistas romà autodidatas”, sob a justificativa de que não se tratava só de arte naif. A essas primeiras exposições se sucederam outras duas361 na década de 90 e a partir dos anos 2000, época em que as questões relacionadas à inclusão social se tornam importante tema de discussão na Europa. Assim, as exposições de artistas plásticos romà se multiplicam tanto no campo individual como no coletivo362.

357 DUBUFFET, J. Escritos sobre arte, p.24.

358 Um exemplo é a “tradição” de se representar a imagem de uma cigana lendo as mãos, enquanto outro

indivíduo cigano aproveita a distração do consulente, para roubar-lhe um anel ou algo no bolso. Imagem utilizada por Caravaggio (1594), em The Fortune Teller, que influenciou vários de seus seguidores que pintaram, sob o mesmo título, obras com igual representação. É o caso de Bartolomeo Manfredi (1605), Lionello Spada (1614), Simon Vouet (1618), Georges de La Tour (1630) e Gaspare Traversi (1760). Também A cigana

adormecida (1897) de Henri Rousseau, onde a figura da “cigana” é associada à vida selvagem, à música e ao sobrenatural.

359 Agnes Daroczí, Tamás Péli, Menyhért Lakatos y János Bársony, foram os organizadores.

360KERÉKGYÁRTÓ, I.,2000. “About the Romany Fine Arts in Hungary”, en http://www.amrita-

it.com/cieanysas. htm (acesso em 24.05. 2013).

361 Principalmente na Hungria, Inglaterra, França e República Checa.

362 Cf. JUNGHAUS, T., “Paradise Lost. The First Roma Pavilion”, en Junghaus, T. (Comp.) Paradise, Lost or

O sociólogo espanhol Garreta I Bochaca explica que depois de 1990, desenvolveu-se significativa exteriorização do orgulho rom, associado a um ímpeto de extravasamento pela cultura, o que incrementou as atividades de promoção cultural realizadas pelos organismos romà, não exclusivamente políticos. Esse fato repercutiu nas manifestações relacionadas à música e ao movimento Romart, mas, infelizmente, não reverberou para a literatura romani363.

Apesar de que as artes plásticas não se constituírem tradição dentro da cultura romà, é perceptível a preferência por parte do movimento ativista, que subvenciona algumas das iniciativas culturais romani de promover uma arte que pode ser desenvolvida por um número maior de indivíduos romà, do que investir na promoção à literatura romani, que requer a habilidade da escrita e, portanto, ainda não pode ser desenvolvida nem absorvida pela maioria dos romà. Dessa forma, essa emergente literatura carece de apoio institucional interno para o seu crescimento e é pouco difundida, estudada, salvo raras publicações de alguns escritores- ativistas. Porém, a literatura está mais próxima dos romà do que a pintura, tendo em vista que sua tradição é, sem dúvida, a narrativa oral. A partir de uma ótica romani, a arte também deve ter funcionalidade. Pensamento expressado nas narrativas orais – encarregadas de manter a tradição por meio das lendas – e pode ser encontrada na literatura romani, sob outro aspecto, não intencional, mas inevitável, que se expressa no conteúdo social e político que se encontra nos meandros dessa escrita.