Interessante a constatação de Campbell et al. (2010) acerca dos quatro desafios que mais comummente um oncologista enfrenta quando discute prognósticos com os doentes: que informação deve ser orientada acerca do prognóstico? Como deve lidar com a reação emocional que surge após dar más notícias? Como é que, dar más notícias, afeta o próprio profissional de saúde em oncologia? Como pode preservar a esperança após um mau prognóstico?
Malloy, Verani, Kelly e Munévar (2010) referem como aspetos inerentes a uma boa comunicação, fatores de diferente ordem como sejam avaliações clínicas, atenção prestada a sintomas físicos e preocupações psicossociais, respostas a expressões de sofrimento e dor, reconhecimento de questões éticas e espirituais. Consideram os mesmos autores que, de forma a responder a estas necessidades, os enfermeiros que prestam cuidados paliativos devem estar treinadas com ferramentas comunicacionais.
Os enfermeiros são uma presença constante e são eles quem passa muito tempo, e em situações críticas, com os pacientes e famílias, ajudando-os a interpretar as más notícias e ouvindo as suas respostas emocionais a essas informações; são também os enfermeiros quem, no início de um mau diagnóstico, participa ativamente fornecendo informação e ouvindo o doente e a família (Malloy, Verani, Kelly e Munévar, 2010).
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Numa conversa acerca de um prognóstico, revela-se muito importante perceber quais as necessidades de informação por parte do doente. Ainda que pergunte acerca do prognóstico, muitas vezes não há certezas efetivas sobre que informação quer mesmo ter (Campbell et al., 2010). Assim, havendo uma melhor compreensão acerca da informação que o doente necessita e quer, recomendam Campbell et al (2010) que se dê conhecimento de que aquilo que o oncologista pode fornecer é uma informação estatística relativa a grupos de pacientes e não referente a um caso individual.
No que respeita à reação emocional que pode decorrer da intervenção do profissional de saúde ao revelar o prognóstico, referem Campbell et al. (2010) que estas reações são uma parte importante e normal do processo de consciencialização do próprio prognóstico. Dizem os mesmos autores que não é realístico pensar que um doente possa receber informação acerca de um mau prognóstico sem que tenha uma reação emocional ao mesmo. Acontece que os doentes parecem sentir-se apoiados, de facto, por profissionais que respondam com empatia às suas reações e, nesse sentido, várias são as ferramentas de que podem socorrer-se para enfrentar a reação do doente. O silêncio, é uma das componentes que, na apresentação deste raciocínio, (Campbell et al., 2010). Dizem os mesmos autores que, no contexto de uma conversa sobre o prognóstico, dimensão da comunicação será uma importante forma de demonstrar apoio ao doente. Da mesma forma, o toque, no momento certo pode ser importante se dado no contexto adequado (Campbell et al, 2010). Como refere Benner (2001) as enfermeiras utilizam muitas vezes o toque para reconfortar e estabelecer contacto com um doente. Segundo a autora, este contacto que é cheio de “calor humano”, pode ser muitas vezes a única forma de reconfortar e comunicar.
É normal que o profissional de saúde sinta também o impacto decorrente da notícia que ele próprio dá, podendo mesmo existir o receio de que o doente note a sua consternação. No entanto, e segundo Campbell et al. (2010), os doentes costumam sentir uma reação emocional por parte do profissional, como algo de empático. A advertência que os autores fazem é a de que as emoções que os profissionais de saúde deixam transparecer não devem ser intensas ao ponto de o doente a família sentirem que devem consolá-lo.
Parker, Aaron e Baile (2008), por exemplo, referem o estudo de Maguire, na medida em que o mesmo aponta para facto de que uma consulta centrada na pessoa, tentando perceber os seus problemas, as suas reações aos problemas e a forma como a doença tem impacto na sua vida
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quotidiana, os doentes tendem a sentir-se mais satisfeitos, aceitando melhor os tratamentos sugeridos.
Como referem os autores Thistlethwait (2009) uma abordagem mais centrada no doente torna os profissionais de saúde mais sensíveis à forma de transmissão da informação, já que existe sensibilidade para a questão da quantidade de informação que pode ser disponibilizada.
Esta abertura e honestidade estão em linha com os desejos dos doentes, que demonstraram querer saber se o seu diagnóstico é de cancro e ainda quem querem que seja informado sobre a sua doença.
Referem, ainda, os autores como componente-chave, a importância da escuta ativa na interação com o doente.
Existe, segundo Malloy, Verani, Kelly e Munévar (2010) um crescente consenso acerca de procedimentos formais como sejam conferências para as famílias ou o uso de tradutores quando existe necessidade.
Thistlethwait (2009) identificou, enquanto barreiras comunicacionais, fatores de ordem pessoal e organizacional. Fatores como ausência de treino e ferramentas, linguagem pobre, o esclarecimento dado aos doentes, visto como algo de menor prioridade, cultura de não envolver os doentes nas decisões são alguns dos exemplos de barreiras que poderiam ser suplantadas por sessões de partilha de experiência, role playng, e simulação de confronto com doentes.
Como é referido no seu artigo Thistlethwait (2009), diz que não há uma forma única de dar más notícias, e isso mesmo, constatamo-lo no quotidiano da UTM. De qualquer forma, certos estudos apontam para o facto de haver formas mais positivas de satisfazer o paciente e o seu bem-estar psicológico, o que inevitavelmente acaba por também ser confirmado na nossa prática e que pode ser exemplificado através das reflexões que constam do anexo deste relatório.
No passado, e de forma coincidente com uma época em que o panorama para o tratamento de cancro era muito negativo, existia uma tendência mais paternalista na relação com o doente, podendo mesmo haver tendência para esconder informação que pudesse ser prejudicial para o bem-estar do mesmo. Hoje em dia, e numa altura em que a abordagem é mais centrada no
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próprio doente, existe muito mais informação acerca das necessidades dos doentes aquando do diagnóstico Thistlethwait (2009). Corroboramos estas considerações e confirmamos, no nosso contexto laboral, a preocupação crescente com o posicionamento do doente perante a sua realidade clínica, sendo que trabalhos como o que empreendemos são exemplificativos disso mesmo.
Importante, no entanto, salientar que uma “incorreta” ou “menos eficiente” transmissão de más notícias terá sempre impacto, direto ou indireto, não só nos doentes e familiares, mas também nos profissionais de saúde. Num estudo levado a cabo por Thistlethwait (2009) os profissionais de apresentam uma série de mecanismos de defesa (ansiedade, irritabilidade, frieza, excessivamente tranquilizadores, distanciamento...) que, segundo os autores, advêm da proteção que o profissional tem que fazer em relação a ele próprio.
1.5. A ética na transmissão de más notícias, indefinição e disseminação de fronteiras na