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DEL I: PROSESSRAPPORT

9. KILDER

Dá-se o nome de ácidos graxos essenciais (AGE) àqueles AG que o organismo não tem a capacidade de produção, como é o caso do AL (18:2n-6) e do alfa-linolênico (ALA, 18:3n-3). Eles são derivados, respectivamente, dos AG

das séries Ω-6 e Ω-3 (Prottey, 1976; Rustin, 1990; Berbis et al., 1990; Wright,

1991; Montpoint et al., 1999; Tvrzicka et al., 2011).

A nomenclatura para as séries Ω-6 e Ω-3 está baseada na posição da

primeira dupla ligação relativa ao grupo metil-terminal da molécula, ou seja, o Ω-6

a tem no 6o átomo de carbono ao longo de sua cadeia, enquanto que o Ω-3, no 3o.

Os mamíferos são incapazes de acrescentar por si essas duplas ligações nessas posições, razão pela qual necessitam de fontes alimentares para obter tais ácidos

(fonte marinha para o Ω-3, através do ácido alfa-linolênico; fonte vegetal para o Ω-

6, através do AL) (Prottey, 1976; Rustin, 1990; Berbis et al., 1990; Wright, 1991; Montpoint et al., 1999; Tvrzicka et al., 2011).

Tal incapacidade do organismo humano de saturar os AG decorre do fato

de inexistirem as enzimas Δ12- e Δ15-desaturases no homem, as quais estão

presentes, apenas, em plantas e algas marinhas (Tvrzicka et al., 2011). Os AGE também são conhecidos como vitamina F (Evans et al., 1934).

As fontes dietéticas conhecidas para os AGE são: 1) ácido aracdônico - carnes e ovos; 2) AL - laticínios, leite humano, carne e óleos vegetais; 3) ácido gama-linolênico - leite fresco de vaca, leite humano e éleos de oenathera (peixe); 4) ácido alfa-linoleico - cereais, óleo de soja e óleo de linhaça (Berbis et al., 1990).

Os AGE são principalmente encontrados nos fosfolípides, importantes na constituição das membranas plasmáticas ceratinocíticas; além disso, são encontrados na composição de TG, servindo como fonte de armazenamento energético e matéria-prima à formação de SB (Prottey, 1976). Eles são compostos cuja cadeia possui 18, 20 ou 22 átomos de carbono, com 2 a 6 ligações insaturadas (duplas-ligações entre carbonos), todas em configuração cis (os

átomos de hidrogênio estão de um mesmo lado da dupla ligação, formando uma “semicurva” em sua molécula (Prottey, 1976).

Logo, o AL (C18:2:2n6) e o ácido alfa-linolênico (C18:3n-3) são os dois principais AG da dieta; possuem importantes funções de proteção e influenciam na estrutura e fisiologia cutâneas. Eles são metabolizados através de uma série de reações metabólicas, a saber (Grattan et al., 1990; Andreassi et al., 1997; Horrobin, 1989):

AL (18:2n-6) Ácido α-linolênico (18:3n-3)

Ácido -linolênico (18:3n-6) Ácido octadecatetraenoico (18:4n-6)

Ácido dihomo- -linoleico (20:3n-6) Ácido eicostetraenoico (20:4n-3)

Ácido aracdônico (20:4n-6) Ácido eicosapentaenoico (20:5n-6)

Ácido docosatetraenoico (22:4n-6) Ácido docosapentaenoico (22:5n-3)

Ácido docosapentaenoico (22:5n-6) Ácido docosahexaenoico (22:6n-3)

Na pele humana, podem ser encontrados todos os AGE listados na cascata metabólica dos mesmos, com exceção dos ácidos octadecatetraenoico (18:4n-6) e do eicostetraenoico (20:4n-3). Os mais abundantes na pele são os AL (exclusivamente de origem alimentar) e o aracdônico (oriundo do AL ou, menos frequentemente, dos alimentos). Crê-se que eles são originários do metabolismo

Séries ômega-3 Séries ômega-6 Δ-6-desaturase elongase Δ-5-desaturase elongase Δ-4-desaturase

hepático, que produzem as enzimas de desaturação e elongação desses AGE (Prottey, 1976). Porém, esse metabolismo também é visto em outros tecidos, como a pele (Montpoint et al., 1992).

A Δ-6-desaturase é a mais importante enzima nesse processo metabólico, podendo ser bloqueada por alguns fatores, dificultando o suprimento corporal de alguns nutrientes. Uma das etapas mais importantes nesta cascata é a transformação do AL em ácido -linolênico, por se tratar de uma fase vagarosa e limitadora, principalmente em humanos. Acredita-se que os pacientes portadores de dermatite atópica possuem ou uma ativade enzimática reduzida, ou um consumo exagerado dos metabólitos pelo organismo, o que não poderia ser compensado pelo caráter limitador da enzima. Prejuízos na atuação dessa enzima também são vistos em modelos animais de diabetes melitus (Horrobin, 1993).

Na pele, não há a Δ-6 e a Δ-5-desaturase, não ocorrendo a primeira e a terceira etapa, só havendo a transformação do ácido -linolênico no ácido dihomo-

-linolênico e do estearidônico em eicosatretanoico, razão pela qual os demais vêm do metabolismo hepático (Montpoint et al., 1999).

Em modelos animais e em seres humanos, a deficiência de AGE na dieta torna a pele eritematosa e descamativa, os pelos finos e com tendência à queda, além do aumento da perda de água transepidérmica. Ocorre, também, prurido, associado à redução da capacidade de crescimento estatural, propensão à infecção cutânea e dificuldade de cicatrização das feridas (esta talvez devido a uma deficiência na formação do colágeno) (Wright, 1989; Rustin, et al., 1990; Montpoint et al., 1999).

Em modelos experimentais, a capacidade de se recuperar a barreira epidérmica depende da ingestão de AGE da família dos ômega-6, principalmente em importantes elementos compostos por 18 átomos de carbono em sua estrutura: os ácidos linoleico e gamalinolênico (Wright, 1989). Isto não é visto quando da ingestão de lípides polinsaturados da família ômega-3 e/ou lípides polinsaturados de cadeia longa derivados do AL, ácido diomogamalinoleico e ácido aracdônico (Ziboh et al., 1987; Wright, 1989).

Para que este quadro clínico não se instale nos seres humanos, são necessários, pelo menos, 4% da ingestão calórica total diária de AGE. Tais necessidades aumentam em 1% na gestação e, nos idosos, sugere-se complementar, ainda, com os derivados metabólicos do AL (Montpoint et al., 1999).

Os AGE da série dos Ω-6 são importantes no reparo da barreira epidérmica,

por atuarem na formação de uma importante esfingolípide, a O-

acilglucosilceramida enriquecida com AL, produzida por corpúsculos lamelares (corpúsculos de Odland) da camada granulosa, sendo secretadas e mantidas em grande quantidade no espaço intercelular das camadas mais profundas dos corneócitos. Neste ponto, desempenham função importante na recuperação desta barreira, já que são metabolizadas em acilceramidas, por deglicosilação, e a polioxiacilceramidas, por lipoxigenação. Na deficiência nutricional de AGE, o AL (presente em mais de 50% da composição de uma ceramida) é substituído por ácido oleico, que desestrutura o mecanismo de barreira e impede as células da camada granulosa de formarem os corpúsculos lamelares lipídicos (Wright, 1989; Wright, 1991; Berbis et al., 1990).

Três AGE produzem importantes prostaglandinas para a manutenção da homeostase cutânea (ácido dihomo- -linoleico, ou 20:3n-6: pela via da

cicloxigenase, forma PGE1, PGF1 e TXA1 e, pela lipoxigenase, LTA3, LTC3, e LTD3;

ácido aracdônico, ou 20:4n-6: pela via da cicloxigenase, forma PGE2, PGF2, PGI2 e

TXA2 e, pela lipoxigenase, LTA4, LTB4, LTC4, e LTD4; ácido eicosapentaenoico,

ou 20:5n-6: pela via da cicloxigenase, forma PGE3, PGF3, TXA3 e, pela

lipoxigenase, LTA3, LTC3, e LTD3). São importantes para a pele, pois esses

eicosanoides têm papel anti-inflamatório, controlando a qualidade da barreira cutânea (Prottey, 1976; Wright, 1989, Wright, 1991). Embora o ácido aracdônico e seus derivados tenham papel pró-inflamatório conhecido na literatura (Montpoint et al., 1992), na pele em quantidades fisiológicas eles contribuem para a manutenção da fisiologia normal deste tecido.

Quando há redução de AL e ácido aracdônico na pele, por deficiência

alimentar de AGE, aumentam-se as quantidades de ácido Δ5, 8, 11-

eicosatrienoico. Isto porque as enzimas que converteriam o AL em ácido

aracdônico convertem o ácido oleico em Δ5, 8, 11-eicosatrienoico (que não é um

AGE), o que não consegue formar prostaglandinas. O Δ5, 8, 11-eicosatrienoico se

forma, no intuito de compensar a insaturação nas membranas plasmáticas na ausência de aporte de AGE, portanto é considerado um marcador de deficiência de AGE (Prottey, 1976).