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Hypothesis 1: Wage development over time

Freud associa Irma à sua esposa pelo fato de que, na época do sonho, ela estava grávida e reclamava de dores no abdome. Lacan (1985 [1954-55], p.196), influenciado pelo fato de que a esposa de Freud causara nele a decepção de certos instintos sexuais, entende a

resistência da paciente em abrir a boca como uma resistência do tipo feminina. A garganta seria um equivalente do órgão sexual feminino. Assim, o obstáculo, nesse caso, remete à dimensão de recusa da sexualidade feminina, que permanece, por isso, inacessível. Trata-se, nesse ponto, de um obstáculo à relação sexual. Para a boca, há todas as significações de equivalência, tudo se mescla e se associa nessa imagem, desde a boca até o órgão sexual feminino, passando pelo nariz7

Através da recusa da sexualidade feminina, Irma continua doente, ou seja, tomada pela histeria, ao passo que Freud, por sua vez, permanece frustrado em relação à sua ambição de acessar a mulher, pois, ao se deparar com a garganta insondável de Irma, revive justamente tal dificuldade. Não apenas no sentido da relação sexual propriamente dita, mas também e principalmente, no sentido de um objeto diante do qual fracassa o seu desejo de saber. Da mesma forma, a resistência das mulheres vitorianas, que respondiam com extremo pudor e vergonha às repressões que sofriam em relação à sexualidade, transformou-as num “continente negro”, ou seja, num objeto obscuro sobre o qual não se tinha nenhum conhecimento. A dificuldade de conhecer a mulher parece ter influenciado Freud teoricamente na medida em que procurou escutar essas mulheres e acabou por atribuir à sexualidade feminina um conteúdo não representado no inconsciente.

. A dimensão da sexualidade feminina, na medida em que permanece inacessível, aparece como fonte do conflito de Irma, ao passo que abrir a boca seria um substituto para “abrir as pernas”, como solução ao seu conflito. Eis que Irma não abre a boca fazendo com que o impasse prevaleça, desta vez, sob a figura da mulher que se opõe à relação sexual.

Na ocasião dos Estudos sobre a Histeria (1893), Freud escreve, na Comunicação

Preliminar, que o trauma na histeria é de forma a deixar o sujeito emudecido. Ora, em

silêncio é justamente a forma como Freud reproduz Irma em seu sonho na medida em que ela não abre a boca! Serge André afirma:

os desenvolvimentos da doutrina freudiana nos mostram que alguma coisa da feminilidade permanece absolutamente fora do alcance da palavra, interdito no sentido mais forte do termo, quer dizer, presente no mutismo que se intercala entre os ditos (ANDRÉ, 1998, p. 59).

No artigo de 1894, As neuropsicoses de defesa, Freud esclarece o mecanismo pelo qual a representação sexual é rejeitada na histeria. O conflito fundamental da neurose é localizado na desarmonia causada por uma representação sexual irreconciliável. Assim, a representação sexual aparece por uma conotação de desprazer, sendo necessária a sua eliminação. O sintoma seria uma tentativa de resolver este conflito pela eliminação ou pela cisão da dita representação. É assim que a histeria é um modo de recusa da sexualidade feminina. No Rascunho K, já em 1896, logo após o sonho da injeção de Irma, Freud não fala mais em uma representação irreconciliável, mas em uma ausência de representação que remete o mecanismo primário da histeria a uma manifestação de susto com uma lacuna. O recalque da representação sexual só será efetuado quando o sujeito encontrar uma representação que possa contornar aquela lacuna no discurso. Desse modo, inicialmente, o encontro do sujeito com a sexualidade é marcado apenas por uma ausência de representação que lhe causa susto. Essa lacuna, em si mesma, não pode ser de fato recalcada, sendo necessária uma representação que a delimite. Tal representação, quando acionada posteriormente, desperta uma excitação sexual que não aparecera no acontecimento anterior de susto, e acaba por ser recalcada na medida em que evoca o equivalente à ausência da representação. De acordo com Freud (2004, [1915], p. 178), o recalque consiste em interditar ao representante psíquico da pulsão a entrada e admissão no consciente.

A função de representação se mostra naturalmente falha diante do sexo, mas o aparelho psíquico não lida bem com essa lacuna e, então, a representação que a evoca é eliminada, deixando pelo menos duas brechas no sistema simbólico inconsciente, uma de origem e outra que se associa à primeira. O que desencadeia esse processo é justamente a falta de uma representação que recubra a dimensão sexual no momento em que ela se manifesta. O substituto posterior, sintomático ou não, estará sempre em defasagem ao real da eclosão da sexualidade, seja por causa da diferença do tempo em que ocorre a experiência e do tempo em que a representação é acionada, seja porque a representação não alcança toda a gama de sensações e sentimentos da experiência sexual.

Nota-se que a falta de representação no momento de eclosão da sexualidade aciona o significante que, ao ser recalcado, inaugura no inconsciente uma cadeia simbólica. De acordo com Freud (2004, [1915], p. 179), “tão importante quanto isso é considerar a atração que o recalcado original exerce sobre tudo com que consegue estabelecer conexão”. Assim, os

pensamentos em conexão com o recalcado se juntam a ele no inconsciente. Tendo em vista que, de acordo com Lacan, a verdade funciona como causa do saber, poderíamos então pensar que a verdade é da ordem do significante recalcado que vem delimitar a lacuna no simbólico diante do sexo, e que os pensamentos que se ligam a ele formam o saber inconsciente.

Voltando ao sonho, sobre o mal-estar que faz Irma resistir ao exame, Freud (1972 [1900], p. 118) se recorda do sentimento de uma paciente que tinha dentes postiços e que resiste a abrir a boca, dando a entender que se Irma não abre a boca, escondendo o seu sexo, é porque ela sente pudor, como se tivesse vergonha, ligando assim o recalcamento da representação sexual ao pudor. O que é afetado por esse sentimento é o corpo em sua função orgânica, destituída da conotação sexual, como se a sexualidade emergisse tão precocemente que o sujeito, sem ter sequer o recurso simbólico para nomear a sensação e a experiência como sexuais, ficasse limitado à conotação puramente orgânica do corpo. O efeito de desprazer causado pela emergência do sexo dá-se, então, porque o corpo não velado pela representação simbólica é o organismo em sua função puramente fisiológica. Embora os dentes postiços possam ser uma alternativa de suplência à falta de representação, podemos entender a resistência de Irma em abrir a boca no sonho como resistência devida ao pudor frente ao corpo real na medida em que o véu da representação mostra-se falho e os dentes postiços são substituídos por “maus dentes”, trazendo uma lacuna ao anteparo simbólico do corpo orgânico. Irma sofreria então, pela falta de recobrimento para o seu sexo e abaixo do véu simbólico Freud viu a coisa sem nome, sem forma. A forma insituável do fundo da garganta de Irma faz dela a revelação deste algo inominável, a verdadeira cabeça de Medusa. A coisa sem nome não é senão a coisa destituída da função sexual de representação. Fora desta função há só um vácuo. No encontro de Freud com a sexualidade feminina ele se choca com uma falta de representação que, do nosso ponto de vista, originará uma disfunção na articulação do saber que se forma em torno desse objeto.

o que podemos chamar de revelação do real naquilo que tem de menos penetrável, do real sem nenhuma mediação possível, do real derradeiro, do objeto essencial que não é mais um objeto, porém este algo diante do que todas as palavras estancam e todas as categorias fracassam, o objeto da angústia por excelência (LACAN, 1985 [1954-55], p. 209

A ausência de representação será associada ao feminino que, como sexo naturalmente castrado, causa um horror que dificulta o seu reconhecimento. No texto Sobre as teorias

sexuais das crianças (1908), Freud comenta que quando um menino olha o órgão genital de

uma menina, ele não enxerga a falta de pênis, ao contrário, afirma que o pênis está lá, e que ele ainda vai crescer. Posteriormente, altera essa primeira concepção e afirma que o menino vê a falta do pipi, mas acredita que esta ausência se deve à castração, ou seja, que outrora o membro estava ali, e que ele foi cortado. No texto sobre a Gradiva de Jensen (1907), Freud descobre que a diferença entre os sexos não se traduz a nível inconsciente e no lugar de um representante do sexo feminino surge, por exemplo, um pé orientado no sentido vertical. As suas observações demonstram que não há representação para o órgão sexual feminino e que a referência simbólica para o sexo é sempre o pênis. O feminino não se mantém como tal, pois sempre é construído um substituto, sendo que a diferença sexual se traduz, quando muito, apenas em castrado/não castrado.

Diante do exposto, parece de suma importância para nosso objetivo de delimitar a especificidade do saber para a Psicanálise, seguirmos a indicação do sonho de Irma no que se refere à dificuldade de representação e reconhecimento do sexo feminino. Veremos o que Lacan acrescenta às considerações sobre isso, no intuito de localizar os efeitos para o saber dessa lacuna na dimensão simbólica.