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4. Results and Discussion

4.10. Hypothesis 3

Com base nos resultados advindos da análise teórico-metodológica foi elaborado um projeto experimental que abeberou-se em estudos baseados na metodologia experimental desenvolvidos com foco no estudo de fenômenos culturais em psicologia.

Ao longo do processo de construção deste projeto, desde sua fase inicial, até está forma editada (e reeditada) o trabalho de Caldwell e Millen (2008) esteve continuamente encabeçando as ideias deste projeto experimental.

Caldwell e Millen (2008) discutem a noção de evolução cultural cumulativa onde vislumbra- se uma transmissão, socialmente mediada, de sucessivos melhoramentos no desempenho dos aprendizes (culturais) gerados pelo acúmulo de modificações nas mensagens culturais transmitidas.

Neste projeto experimental, Caldwell e Millen (2008), apontam uma grande preocupação quanto ao planejamento das tarefas a serem desenvolvidas pelos participantes. Nesta medida, a tarefa deveria apresentar, desde a ótica das autoras, um objetivo claro e possibilitar uma medida objetiva. Além disso, a tarefa deveria ser simples o suficiente para que os participantes pudessem resolvê-la em um curto período de tempo, porém, necessitava ser complexa o suficiente, ao ponto que pudessem criar oportunidades de aprendizagem social no grupo.

Assim sendo, as autoras utilizaram duas tarefas distintas: a) produzir um avião de papel que voasse o mais longe e o mais alto possível e; b) construir uma torre de macarrão com massa de modelar que fosse a mais alta possível. Estas tarefas, desde a ótica das autoras, possibilitavam a mensuração de melhoramentos nos desempenhos dos participantes ao longo das gerações sociais produzidas experimentalmente.

Para produzir as gerações sociais foi utilizado um método de substituição dos participantes4 ao longo de 11 sessões experimentais. Em seu estudo, as autoras utilizaram 10 pessoas como participantes e as sucessivas gerações foram programadas de acordo com o quadro 1 apresentado abaixo:

4 Para maiores detalhes acerca do método de substituição de participantes na pesquisa experimental de evolução cultural ver Mesoudi e Whiten (2008).

Quadro 1. Distribuição dos participantes nas sucessivas gerações no estudo de Caldwell e Millen

(2008).

Este esquema utilizado por Caldwell e Millen (2008) apresenta algumas características muito interessantes. Como se faz notar, foram consideradas 10 gerações neste modelo, ao passo que, a primeira sessão (.1. 2 3) não foi apreciada na avaliação dos dados. Os participantes representados por números e com fundo na cor preta eram os participantes que estavam desenvolvendo a atividade proposta. Já os participantes, também, identificados por números, mas, porém, com fundo na cor cinza, apenas tinham que observar o participante (ou os participantes) a desenvolver(rem) a atividade.

Com isso, as pesquisadoras, colocaram os participantes “ingênuos5” em contato com as gerações antigas e puderam avaliar, dentre outras coisas, a possibilidade de transmissão cultural por imitação (observação) e por coparticipação, além disso, aumentaram a probabilidade de maior interação social entre os participantes antigos e os ingênuos, na medida em que, possíveis restrições em decorrência de nenhum conhecimento acerca do sistema cultural em vigor foram diminuídas. Acolá, dispuseram aos participantes todas as atividades desenvolvidas pelas gerações que os precederam, com isso, novamente, puderam colocar cada geração em contato com as suas gerações ancestrais e, desta forma, seria possível avaliar a transmissão cultural em decorrência do contato com os “artefatos” produzidos pelos ancestrais da cultura.

Como resultados de seu projeto experimental, as autoras, observaram evidências claras de melhorias no desempenho dos participantes ao longo das gerações, além disso, observaram que este desempenho pode ser variável, entretanto, demonstrando uma tendência de melhoramentos ao longo do tempo. Com isso, concluíram que habilidades e conhecimentos, de fato, parecem se acumular ao

5 Estamos considerando como ingênuos os participantes que não haviam passado, até aquele momento, pelo processo experimental e, portanto, não haviam realizado as tarefas experimentais.

longo das gerações, o que demonstra que a melhoria aconteceu associada com o acúmulo das modificações ocorridas no desempenho dos participantes.

Não é de interesse discutir a fundo o estudo de Caldwell e Millen (2008), mas, sim, apresentá-lo e discriminar as propriedades deste estudo que encabeçaram nosso planejamento e nosso projeto experimental sobre estabilidades e Variações culturais em meio à transmissão cultural, como por exemplo:

a) Submeter os participantes a condições que os possibilite o contato com a tradição através de diferentes mecanismos, tais como, a observação, o contato com artefatos e a coparticipação, parece ser um meio cônscio para se estudar o processo de transmissão cultural;

b) A ênfase dada no planejamento da atividade aparece como uma questão pertinente, ao passo que, nos levou a programar uma atividade que pudesse ser produzida em um curto espaço de tempo e que ofereceu possibilidades de mensurações quantitativas e qualitativas de aprendizagens sociais;

c) Este estudo desenvolvido por Caldwell e Millen (2008), assim como outros, demonstrou a viabilidade e validade de estudos sobre fenômenos culturais utilizando o método de substituição gradual de participantes;

d) Ao avaliarem a questão de melhoramentos sucessivos, as autoras, indiretamente forneceram ferramentas para avaliar questões atinentes a transformações e estabilidades culturais em gerações sociais construídas em situação experimental, na medida, em que mostra a possibilidade de produzir em laboratório uma situação que permite simular e avaliar, em um curto período de tempo, questões concernentes ao processo de transmissão cultural que foi estudado aqui com base na concepção de cultura como estrutura e processo interativo.

Com isso, o projeto experimental a ser relatado nesta pesquisa foi conduzido de modo semelhante ao que foi desenvolvido por Caldwell e Millen (2008), porém, foram efetivadas modificações em decorrência da estrutura conceitual que nos embasamos e dos objetivos a que nos propomos dar conta, tais como, apresentadas e justificadas abaixo:

i. Divisão das variáveis manipuladas: Na proposta experimental de Caldwell e Millen os participantes foram submetidos a um conjunto de variáveis numa dinâmica experimental arranjada num modelo de troca geracional de investigação de fenômenos sociais. As variáveis

manipuladas pelas autoras foram: a) contato com os materiais produzidos pelas gerações prévias; b) contato com a geração prévia na coparticipação e; c) contato com as gerações prévias através da observação. Em análise dos dados coletados e apresentados por Caldwell e Millen (2008) não pudemos identificar qual destas varáveis favoreceu, de forma mais contundente, a transmissão cultural entre os participantes, isto é, não pudemos identificar quais os efeitos destas variáveis/mecanismos de transmissão cultural sobre as ações dos participantes. Com isso, foram divididas, aqui, em quatro arranjos experimentais: Arranjo Experimental I: a) contato com os materiais produzidos pelas gerações prévias; b) contato com a geração prévia na coparticipação e; c) contato com as gerações prévias através da observação; Arranjo Experimental II: contato com os materiais produzidos pelas gerações prévias; Arranjo Experimental III: contato com as gerações prévias através da observação e; Arranjo Experimental IV: contato com a geração prévia na coparticipação.

ii. Acréscimo da fase A e C nos experimentos: Não foi possível identificar se o desempenho dos participantes demonstrado no estudo de Caldwell e Millen (2008) se deu realmente ao tratamento experimental ou se nas histórias prévias de cada participante já existiam formas similares de produzir. Da mesma forma, considerando ser importante para o estudo de cultura em psicologia a continuidade individual da cultura, foi programado em nosso método experimental uma fase individual pré-tratamento experimental (Fase A) com vistas a identificar se nas histórias idiossincráticas dos participantes já haviam modos de agir sobre a tarefa independente do tratamento experimental. Além disso, foi acrescentada uma fase pós-tratamento experimental (Fase C) conduzida individualmente com vistas a identificar se o tratamento experimental promoveu continuidades nos modos de agir individual de cada participante.

iii. Apreciação de gravações de áudio e vídeo no desenvolvimento da tarefa: Observamos que no estudo das autoras foi apreciado tão somente os produtos das relações estabelecidas pelos participantes. Assim sendo, com vistas a identificar como se deu o processo pelo qual cada participante, coletivamente e individualmente, atravessou ao longo das três fases experimentais, foram coletadas as imagens e vídeos de cada experimento.

iv. Inserção de entrevistas individuais no término de cada tarefa: Considera-se, neste estudo, que a cultura é resultado de buscas interpessoais onde as pessoas, individualmente, são

construídas em seus campos culturais. Foi preciso, assim sendo, olhar a cultura, criada experimentalmente, como um todo e, portanto, somente vislumbrar o processo emergido, assim como, os modos de agir e os produtos da ação, não seria o suficiente para abarcar, com maior completude, o que é tratado como processo de transmissão cultural. Portanto, foram desenvolvidas entrevistas curtas nos intervalos de cada fase experimental com vistas a identificarmos construções de significados, variações e estabilidades concernentes a interpretação dada por cada participante frente ao que os tocaram nas tarefas.

Com relação à análise dos dados concernentes aos experimentos conduzidos foram apreciados de modo geral:

1) Histórias prévias: Análise sobre os aspectos estáveis e variáveis na produção e construção de significados na tarefa individual pertinentes a história prévia de cada participante. Esta análise se deu sobre os dados coletados na Fase A;

2) Tratamento experimental: Análise sobre os aspectos estáveis e variáveis atinentes as formas de produção e construção de significados emergentes ao longo das gerações experimentais. Foi realizada a análise sobre os efeitos das variáveis manipuladas (Comparação entre Fase A e Fase B);

3) Continuidades e Descontinuidades Culturais: Análise sobre os aspectos estáveis e variáveis concernentes as formas de produção e construção de significados após o tratamento experimental (Comparação entre Fase A com a Fase B e a Fase A com a Fase C) .

O entendimento do processo de transmissão cultural como constructo utilizado para compreender a apreensão de aspectos da cultura de uma geração a outra numa dinâmica transformativa multidirecional e bidirecional foi levado a construção e desenvolvimento de nosso projeto experimental. Com isso, pareceu viável a nós, neste caminho, considerar que o estudo do processo de transmissão cultural numa metodologia experimental deveria, não somente, vislumbrar as continuidades e descontinuidades nos produtos e nos modos de agir culturais, mas sim, considerar os processos de promoção de transformações e manutenções na cultura numa relação interdependente com os indivíduos culturais.

Com isso, foram conduzidos quatro estudos experimentais interdependentes entre si, com vistas a identificar os efeitos dos três mecanismos de transmissão cultural (citados anteriormente)

sobre as ações e percepções dos participantes. Estes estudos foram analisados com foco, tanto nos modos de agir adotados pelos participantes, quanto nas percepções acerca do processo que atravessaram, assim como, nos produtos de suas atividades.

Participaram, voluntariamente, desta pesquisa, um total de 37 participantes. Foram distribuídos, aleatoriamente, em 4 grupos: Arranjo Experimental I com 10; Arranjo Experimental II com 10; Arranjo Experimental III com 7 e; Arranjo Experimental IV com 10.

Foi programado no método experimental uma fase individual pré-tratamento experimental (Fase A) com vistas a identificar se nas histórias idiossincráticas dos participantes já haviam modos de agir sobre a tarefa independente do tratamento experimental. Além disso, foi arranjada uma fase pós-tratamento experimental (Fase C) conduzida individualmente com vistas a identificar se o tratamento experimental promoveu continuidades nos modos de agir individual de cada participante.

Foi proposta uma atividade que pudesse ser realizada em um espaço curto de tempo e que possibilitasse aberturas para a criação de formas singulares de produzi-la. Com isso, os participantes tiveram de desenhar um ‘Barco’ em três situações distintas. Cada situação foi identificada como: Fase A; Fase B e Fase C:

Fase A: Nesta fase foi solicitado, somente, que desenhassem um barco utilizando os materiais dispostos sobre a mesa;

Fase B: Nesta fase, eram inseridas as variáveis manipuladas. Os participantes tinham o contato com esta fase de diferentes formas de acordo com cada experimento;

Fase C: Esta fase era composta pelas mesmas exigências da Fase A. Foram desenvolvidas entrevistas curtas nos intervalos de cada fase experimental com vistas a identificar construções de significados, variações e estabilidades concernentes a interpretação dada por cada participante frente ao que os tocaram nas tarefas.