6 Discussion and Conclusion
6.3 Limitation and future research
Uma questão importante a ser meditada é como a cultura digital afeta o perdão, a reconciliação das pessoas com Deus, entre si e consigo mesmas. Aparecem seguidamente notícias de diversos casos de separação em namoros que acabam em tragédia, pois um dos parceiros resolve se vingar postando imagens constrangedoras do outro nas redes sociais.
Antonio Spadaro, em seu e-book Cybergrace, aborda rapidamente a relação entre memória e perdão, como esses aplicativos digitais afetam a vida do indivíduo e sua memória para si mesmo e para os outros.189 A linha do tempo das redes sociais, com suas fotos marcadas, suas postagens expressando sentimentos, informações pessoais, pensamentos e geolocalizações, reproduzem e contextualizam momentos passados e presentes da sua vida. O
Facebook, o Twitter, o Pins, a Amazon, a Estante Virtual e tantas outras empresas conhecem
dos internautas os gostos e interesses sobre assuntos, músicas e livros melhor até que seus amigos. Os vídeos que os internautas disponibilizam e que os outros divulgam a seu respeito no Youtube e no Vimeo, vão construindo um filme de sua história de vida.
Essa retrospectiva de palavras, imagens e sons feita por aplicativos como Momento,
Museum of me e Rapportive serve como um depósito, um arquivo, um museu digital da própria
existência. Assim, a vida se torna uma exposição artística, um show a ser apreciado ou criticado. No ambiente digital a memória pessoal está “salva”, a existência está “salva” do esquecimento. A palavra grega areté, traduzida pelos termos ‘virtude’ e ‘salvação’, significa “que os feitos sejam eternamente lembrados”. Diante desse sentido nos questionamos: o que a “salvação” digital implica na salvação cristã?
Uma das implicações é a impossibilidade do esquecimento, assim, nossas ações e escolhas se tornam praticamente incanceláveis. Isso dificulta significativamente a uma pessoa que cometeu erros dar a volta por cima e recomeçar. Na dimensão do perdão, o esquecimento é fundamental para trilhar o caminho de uma vida nova em Cristo. A dinâmica da web não dá crédito ao arrependimento humano, pois eterniza memórias que não deveriam ser recordadas.
Spadaro cita o exemplo hipotético de um ator pornográfico, se ele decide mudar radicalmente sua vida, no ambiente digital ele continuará sendo recordado por tudo aquilo que já fez. Então, na internet não há possibilidade do perdão. No entanto, este ponto, embora negativo, auxilia na compreensão do que de fato é o perdão.
Sobretudo, hoje mais do que nunca, se compreende melhor como o perdão não coincide na verdade, (não pode mais agora de fato coincidir), com o esquecimento, e que o perdão autêntico é uma intervenção que transcende a minha história e que escapa ao sistema das minhas possibilidades, sendo fundado sobre a alteridade de Deus. No mundo em que “o meu pecado está sempre a minha frente” (Sl 50,5) e tudo é digitalmente salvo, como resultará pensar a salvação religiosa?190
Portanto, perdoar não é esquecer. Na era digital, onde é difícil esquecer, é necessário encontrar modos de superar os rastros digitais que sempre acompanharão os internautas. Uma das formas é lutar para que o modelo de internet que se tem hoje mude no futuro. Como Jaron Lanier expressa, não são os seres humanos que devem se reduzir para se adaptar à tecnologia, mas o mecanismo digital deve acompanhar a dinâmica e as necessidades da pessoa humana.
Concluindo
Mercado negro, tráfico de drogas, de armas, de órgãos, de seres humanos: a internet veio também facilitar a comunicação e articulação mundial do crime organizado e de outros males que o ser humano cego pelo pecado é capaz de causar ao seu semelhante. Diante de tantas atrocidades, o pensamento de que a rede é boa e faz parte da criação e do plano salvífico de Deus parece uma ingenuidade utópica. Como podemos pensar em comunhão nos tempos da rede e a internet como dom de Deus?
Apesar de o homem ser pessoa, isto é, chamado a ser e a viver a comunhão de amor trinitária, o ser humano pode negar a sua essência e semelhança com Deus, rejeitar quem ele de fato é. Eis o drama trinitário: o pecado é a rejeição dessa comunhão. Assim, o ser humano, por livre escolha, torna-se indivíduo egoísta, fechado em si mesmo, vivendo um estado de inferno exterior e interior, causando o mal a si mesmo e àqueles que estão ao seu redor ou conectados com ele. Spadaro pondera que a internet pode explicitar a humanidade ferida e as feridas da humanidade:
Se a rede expressa a vida, ela exprimirá a vida como ela é. Se uma pessoa não é integrada, tem problemas, doenças, isso será manifestado na rede. A rede mostra também todos os limites da humanidade. Ao permitir uma grande facilidade de comunicação e velocidade, ela coloca os vícios ainda mais em evidência e também o bem é destacado. Enquanto a rede espelha a vida, ela também expressa os limites. E ali temos que ter uma grande maturidade espiritual para confrontar-se com a humanidade. Cada um de nós é chamado a ser um bom samaritano em contraponto a tudo o que vemos de ruim e de maldade na rede (informação verbal).191
190 SPADARO, A. Cybergrace, pos. 202 de 361, 57%.
191 Formação dada por Antonio Spadaro aos consagrados, colaboradores e estudantes da Canção Nova ocorrida,
Com isso Spadaro quer dizer que problemas como o cyberbulling e o autismo não são frutos específicos da rede, mas de uma de uma falta de equilíbrio de vida, de uma má formação. Ele ainda admite que a culpa por esses males é das gerações anteriores, principalmente de sua geração. Pois a identidade de uma geração é constituída por aquilo que as anteriores a transmitiram ou o que deixaram de passar. Por isso, o Papa Francisco enfoca o contrato social na Evangelii Gaudium, dando atenção especial aos idosos e aos jovens, as extremidades mais frágeis deste pacto.192 As gerações anteriores à Y julgam ser falsa a amizade virtual, o que conta para eles é a amizade face a face. A consequência disso é a criação de uma geração esquizofrênica. Pois, se um jovem que vive na internet pensa que tudo o que faz é falso, então ele pode fazer o que quiser. Para Spadaro, o caminho para encontrar o equilíbrio é reconhecer que a vida é uma só, física ou digital, ambas são verdadeiras.193
Mesmo assim, percebe-se que está se tecendo na rede uma estrutura pecaminosa que se enquadra no conceito de pecado estrutural: “o pecado do homem tem efetivamente enormes possibilidades de estruturar-se como forma de convivência. [...] o pecado se esconde de muitas máscaras e influi nos homens na hora das decisões morais pessoais”.194 Por serem os seres
humanos que fazem a rede acontecer, não se isentam dessa responsabilidade, pois são seus pecados pessoais que estão construindo esta arquitetura do mal. Ao contrário, sua responsabilidade aumenta cada vez mais. Como Jaron Lanier disse, escolheu-se um modelo de internet, mas existem outros. É possível evoluir para um padrão cibernético mais voltado à valorização do humano, que se adapte à vida humana e que não a obrigue a reduzir suas possibilidades de expressão aos moldes delimitados pela tecnologia.
Fazendo analogia à Noosfera de Teilhard de Chardin, Faus acredita que o ser humano vive em meio a uma “hamartiosfera” também.195 Pensando dessa forma, se poderia dizer que
assim como existe a esfera do pecado, há a esfera do Espírito muito mais evidenciada, pois desde o princípio da criação, “um sopro de Deus agitava a superfície das águas” (Gn 1,2).
Portanto, deve-se aprender com o apóstolo Paulo que: “onde abunda o (ciber)pecado, superabunda a (ciber)graça”. Se o homem, mera criatura, consegue transformar um dom como a internet em instrumento disseminador do mal, o que não fará Deus, que consegue tirar de todo o mal um bem ainda maior? É preciso atravessar o “vale escuro” da humanidade pecadora para se enxergar e corrigir os erros cometidos, a fim de se construir um futuro de esperança para a
192 FRANCISCO. Evangelii Gaudium, n. 64.
193 Formação dada por Antonio Spadaro aos consagrados, colaboradores e estudantes da Canção Nova ocorrida,
de 28 e 29 de julho de 2014, em Cachoeira Paulista, SP.
194 FAUS, J. I. G. Pecado Estrutural. In: VIDAL, M. (Org). Ética Teológica, p. 370. 195 Ibidem, p. 369.
vida humana e reencontrar-se com o Deus uno e trino na era digital. Justamente a cibergraça, a graça que emerge da rede, será o tema do próximo tópico.