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2. BACKGROUND AND LITERATURE REVIEW

2.5 Hypotheses

III.1.2.1. Gênero literário

Conforme Vielhauer, I Clem é uma carta autêntica (2005, p.561), porém sua evidente configuração artística levou eruditos do passado a questionarem se este escrito era autenticamente uma carta ou ―um tratado em forma de carta‖ (VIELHAUER, 2005, p.560), ou ―um produto da arte literária que rompe a forma de carta autêntica...‖ (ibidem), ou ainda ―uma carta católica‖ (ibidem).

Porém, existem elementos suficientes, internos ao texto, que permitem a afirmativa de que I Clem seja autenticamente uma carta. Os principais deles são que distintamente das cartas católicas, I Clem tem um destinatário ideal e lida com uma situação concreta (VIELHAUER, 2005, p.560), ao invés de teorizações e abstrações presentes em tratados teológicos, endereçados a públicos muito amplos (Cartas Católicas) ou fictícios (Cartas Pastorais).

Nem por isso podem ser ignoradas suas particularidades. Como por exemplo, a consciência comunitária da carta. A correspondência não é emitida de um indivíduo a uma comunidade, como no caso das cartas paulinas, mas o remetente é ―A comunidade estrangeira que está em Roma‖. Clemente, secretário e possivelmente um dos líderes da comunidade de Roma, sempre fala na primeira pessoa do plural e seu nome nunca aparece no conteúdo interno da carta. Não existe paralelo a esse modelo de correspondência no Novo Testamento, embora siga os padrões epistolares do mundo greco-romano, como demonstrou Bakke (2001).

III. 1.2.2. Gêneros literários menores

Outra característica interessante da carta é o estilo retórico utilizado pelo autor que reúne muitas citações do Antigo Testamento, citações das cartas paulinas, alusões e citações da tradição clássica grega e perceptíveis alusões à religião pagã. Estão presentes também, elementos litúrgicos, como: doxologias (20.12; 43.6; 45.7s; 58.2; 61.3; 64) e fórmulas pré- trinitárias (46.6; 58.2), mas também, o louvor à harmonia do cosmos (20), catálogos de virtudes, deveres domésticos e vícios; e antes da conclusão da carta está ―a oração extensa‖ (59.3b-61).

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Abaixo, quando for apresentada a estruturação da carta (III.1.6.), ficará clara nossa proposição a respeito dos gêneros desse documento, pois apesar de considerarmos que literariamente esta seja uma carta, estamos conscientes do enxerto que o autor realizou, inserindo vários textos conhecidos da comunidade, que possivelmente faziam parte da liturgia, os quais foram postos, sobretudo nos blocos denominados por nós de A‘ e B‘ que constituem a parte da carta que existe dependente em estrutura quiastica A e B, tendo C como centro.

Essa costura de gêneros literários menores contribuiu para que se questionasse sua autenticidade como carta, pois, de forma incomum, esse documento mistura diferentes tipos de textos com a verdadeira motivação da carta (FRANGIOTTI, 2008, p.16), diferentemente do que geralmente acontece nas cartas cristãs primitivas.

Contudo, embora estejamos conscientes da plausibilidade da hipótese pré-literária, vamos nos prender na carta em seus estado final em vez de nos desgastar em discussões a respeito de hipotéticos estágios pré-desenvolvidos em que os trechos da carta circulavam independentes uns dos outros, pois a forma final é a que foi pretendida pelo autor implícito, ainda que isso tenha implicado a supressão dos gêneros menores.

III.1.2.3. Gênero discursivo

Analisando o gênero discursivo de I Clem com base na teoria de Mikhail M. Bakhtin exposta em Os Gêneros Discursivos (2010, pp. 261-306), afirmamos que a carta possuía um gênero que intitulamos como ―epistolar exortativo fraternal‖, pois, como já afirmamos, o gênero discursivo está vinculado com o tom de voz que está por trás das letras que vemos no texto e também se vincula com a atividade que se exerce, o que significa que a classificação em gêneros discursivos é infinita, assim como é infinita a capacidade humana de desenvolver novas e combinadas atividades, por isso não há possibilidade de catalogá-los.

Quando afirmamos que o gênero de I Clem seja ―epistolar exortativo fraternal‖, afirmamos algo passivo de crítica e aberto para outras possibilidades de classificação, mas nossa justificativa para realizar tal afirmativa está relacionada com algumas características: Por um lado, a epístola possui uma formalidade, devido ao estilo retórico e à falta de referências a nomes de pessoas da comunidade de Corinto, o que nos faz imaginar que o autor não conhece o remetente e que se utiliza do texto padronizado para suprir essa falta de conhecimento, portanto, o gênero discursivo epistolar.

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Por outro lado, a exortação realizada pelo autor não é pastoral, ele não chama os membros da comunidade de Corinto de ―filhinhos‖ como o autor implícito das cartas joaninas frequentemente fizera em seu texto. O tom da carta parece ser o de um irmão quando fala com outro, pois, como já nos referimos, a carta não está no singular, mas no plural, por isso, há certa exclusividade em vista das demais cartas que fazem parte do cânon e mesmo em vista das cartas de Inácio de Antioquia. Visto que em I Clem não parece haver nível hierárquico que diferencie os emissários: Clemente e os crentes de Roma; em vista do narratário ou remetente que é a comunidade de Corinto.

Embora a maioria dos patrólogos tenha afirmado justamente ao contrário no que diz respeito à hierarquia entre a comunidade de Roma e Corinto (QUASTEN, 1965, p.55; BUENO, 1965, p.121; BEATRICE, 2002, p.305) com base no simples motivo do envio da carta, como se o fato da comunicação epistolar entre duas comunidades já signficasse a submissão de uma à outra. Algo que nos parece absolutamente insustentável, com base no texto de I Clem, isto é, sem recorrer a nenhum dogma institucional. Assim, afirmamos que o gênero seja ao mesmo tempo epistolar, devido pricipalmente à retórica; e fraternal, devido principalmente à falta de hierarquia; além de obviamente ser exortativo, parenético.

Abaixo, afirmaremos a existência de níveis hierárquicos no interior da comunidade, pois nesse período o cristianismo já conta com a divisão da comunidade entre leigos e clero, mas não temos o menor indício de hierarquia entre as comunidades, como se Roma se sobrepusesse a qualquer outra comunidade, como os pesquisadores católicos, autores das patrologias afirmaram. Caso contrário, Inácio bispo de Antioquia, não teria suas cartas enviadas a Roma – dentre outras igrejas – bem aceita pelos fiéis.