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Na abordagem qualitativa, a entrevista é o meio mais reconhecido e legitimado de investigação social. É por meio da entrevista que o pesquisador coleta os dados e as informações de seu interesse, levanta as histórias, os fatos e eventos e, principalmente, permite a manifestação do entrevistado sobre a problemática em estudo.

Para esta dissertação foi escolhida a aplicação de uma entrevista semi-estruturada realizada a partir de um roteiro. De acordo com Godoy (2006, p. 134), “as entrevistas semi- estruturadas são adequadas quando o pesquisador deseja apreender a compreensão do mundo do entrevistado e as elaborações que ele usa para fundamentar suas opiniões e crenças”, tornando-se relevante “quando o assunto a ser pesquisado é complexo, pouco explorado ou confidencial e 'delicado'”.

A entrevista semi-estruturada, em sua prática, pode ser entendida como uma conversa guiada pelo pesquisador, na qual se procura obter e levantar os aspectos mais relevantes do problema em investigação. Taylor e Bogdan (1987, p.101), por exemplo, conceituam a entrevista como “encontros face a face entre o investigador e os informantes, encontros estes dirigidos para a compreensão das perspectivas que têm os informantes sobre suas vidas, experiências ou situações, tal como as expressam com suas próprias palavras”.

O roteiro da entrevista, entendido como o guia de questionamento do pesquisador, deve ser elaborado tendo em vista aquilo que se pretende suscitar, que seja considerado relevante para análise do fenômeno. Por se tratar de uma conversa, este roteiro não deve ser fechado ou muito menos rígido, devendo possuir flexibilidade para se adaptar aos contextos das entrevistas.

Nesse sentido, o roteiro de entrevistas construído para esta dissertação (APÊNDICE B) possuiu o objetivo de estruturar uma conversa fluída que estimulasse o indivíduo a reconstruir um pouco de sua história pessoal, sua trajetória e vivência no trabalho e no empreendimento solidário, bem como os possíveis reflexos dessa experiência em sua vida. No limite, era explorar a vivência do cooperado na construção do empreendimento solidário em questão, uma cooperativa de reciclagem.

O roteiro foi dividido em quatro blocos: A) Indivíduo, B) Cooperlírios; C) Gestão (Princípios Cooperativistas e Autogestão); e D) Reflexos do empreendimento solidário na vida. Esses blocos foram determinados e organizados com objetivo de gerar uma ordem de perguntas que, do geral ao particular, apresentasse uma seqüência lógica, sem que o entrevistado seja obrigado a fazer trocas bruscas de assunto (PHILLIPS, 1974).

No primeiro bloco, A) Indivíduo, o objetivo foi o de aproximar o entrevistado do entrevistador. Buscou-se, por meio de uma abertura entendida como “quebra-gelos”, iniciar um estímulo ao entrevistado para que este resgatasse sua história (narrativa), provocando um ambiente que lhe permitisse se sentir confortável para conversar aberta e tranqüilamente. As questões escolhidas como guia para esse bloco foram gerais: nome; idade; naturalidade; escolaridade; família; local de moradia e como vai para o trabalho. Com isso, à medida que os “gelos eram quebrados”, foi se constituindo um perfil socioeconômico e demográfico do cooperado – importante para traçar qual o perfil dos cooperados da organização.

O segundo bloco, B) Cooperlírios, teve o objetivo de cruzar a história do cooperado com a história da cooperativa; buscou-se levantar a história do cooperado no empreendimento. Para isso, focou-se, primeiramente, na experiência anterior do indivíduo: os locais em que já trabalhou e suas principais atividades já desenvolvidas no mercado ou fora dele, com maior relevância para a última experiência de trabalho declarada. Procurou-se, com isso, observar qual o tipo de trabalho e de organização que o indivíduo já experimentou. Na seqüência, foi promovido pelo entrevistador o cruzamento das histórias (cooperado/cooperativa) pela narrativa de como o indivíduo descobriu a cooperativa. A partir desse momento, a cooperativa já se torna o contexto primordial de entrevista. Sendo este bloco finalizado com o questionamento sobre o trabalho específico do cooperado, com objetivo de entender qual a sua função nos trabalhos do empreendimento.

O terceiro bloco, C) Gestão (Princípios Cooperativistas e Autogestão), teve como objetivo central analisar a dinâmica do trabalho na cooperativa, com intuito de se avaliar uma proximidade da respectiva organização com o conceito de empreendimento solidário de natureza cooperativista. Pretendeu-se, por meio das narrativas dos cooperados, estudar e observar como as principais características e preceitos do cooperativismo (princípios e autogestão) são vividos na prática. Para atingir satisfatoriamente esse objetivo, já que em conversas preliminares de campo foi detectado que os cooperados não conheciam os sete princípios fundadores e existenciais do cooperativismo, criaram-se, então, questões indiretas, princípio por princípio, que, por meio das histórias e respostas dos cooperados, permitissem inferir sobre a prática ou não do respectivo princípio e, principalmente, como ele ocorre na dinâmica cotidiana da organização.

O último bloco, D) Reflexos do empreendimento solidário na vida, buscou levantar, pela narrativa/diálogo da entrevista, traços que remetessem a possíveis reflexos da vivência da gestão do empreendimento solidário, bem como observar as relações desta vivência com a

vida dos cooperados: o que melhorou e o que piorou em suas vidas e, até que ponto, o modelo cooperativista influenciou e/ou determinou nisso.

Dada a natureza qualitativa da abordagem metodológica e a aplicação desse roteiro em entrevistas, o número de indivíduos a serem entrevistados não foi pautado por amostragem estatística. Buscou-se entrevistar número considerável de cooperados, não levando em consideração nenhum filtro específico. A título de homogeneidade, as entrevistas focaram os cooperados mais ativos nos trabalhos e uma distribuição relativamente igualitária por tempo de organização: cooperados recentes e cooperados mais antigos.

Foram feitas 12 entrevistas no total. A primeira delas foi de cunho exploratório e foi feita com a presidente em exercício da cooperativa, antes mesmo da elaboração do roteiro. O objetivo dessa entrevista foi o de levantar a história da cooperativa, bem como fazer algumas indagações gerais sobre seu trabalho, o que permitiu avaliar o tipo e perfil de indivíduos que seriam entrevistados, a adequação à linguagem e a alguns conceitos. Depois, com o roteiro finalizado, foram entrevistados 10 cooperados, o que totalizou 50% do quadro institucional da cooperativa (20 cooperados), mas que, dos cooperados realmente ativos, por volta de 15 indivíduos, estes 10 cooperados entrevistados consolidam 66,66% da cooperativa. A última entrevista foi feita com um vereador do legislativo da Prefeitura Municipal de Americana-SP, tendo em vista seu envolvimento direto no projeto do empreendimento, apresentando-se como principal articulador entre a Prefeitura Municipal e a cooperativa.

Todas as entrevistas foram previamente agendadas e, com a permissão dos entrevistados, gravadas. Todas as gravações foram transcritas (a título de ilustração, uma das entrevistas transcritas é apresentada no APÊNDICE C), menos a primeira entrevista exploratória com a presidente da cooperativa.