5 MATERIALBEHOV OG VEKT
8.5 Hydraulisk nedsenkningsanordning Allment
Mesmo com a objetividade dos escritos de Vigotski, fundamentando a sua concepção de psicologia como ciência materialista, histórica e dialética, muitos são os autores que procuram equivocadamente difundir uma forma falsa do seu pensamento, associando-o a teorias fragmentadas de outros referenciais filosóficos, negando a essência da sua teoria. Seja por falta de conhecimento aprofundado sobre seu trabalho e seus pressupostos teóricos ou por motivos de mercado. Tendo em vista que Vigotski “virou moda”, autores que conhecem superficialmente sua obra lançam mão de publicações superficiais, fragmentadas, e até mesmo falsas sobre os seus estudos. O que se confirma é uma produção voltada somente para a conquista do mercado editorial, que tem aumentado significativamente a vendagem dos livros de Vigotski.
Muitas das utilizações do pensamento de Vigotski, associados a autores com referências teóricas opostas as suas, devem-se também ao método de exposição dos seus textos. Como ele era um grande estudioso, buscava exaustivamente a raiz do conhecimento sobre cada assunto abordado, através de uma análise minuciosa das obras dos pesquisadores das áreas afins. Vigotski buscava compreender em profundidade o autor, mesmo sendo de outras vertentes teóricas, para somente depois realizar a crítica aos fundamentos e procedimentos utilizados, sempre com base no materialismo histórico e dialético, como instrumento de análise e crítica aos procedimentos adotados. Por isso, autores que não conhecem em profundidade o pensamento de Vigotski pinçaram algumas partes de seus textos e associaram ao pensamento de autores antagônicos, como Piaget, ao qual foi amplamente identificado, nos últimos 30 anos, na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Brasil, mesmo com vários textos escritos e publicados por Vigotski (2001a; 2001c; e 1991) criticando os aspectos biologizantes e idealistas deste autor19. Vigotski reafirmou alguns aspectos empíricos das pesquisas experimentais feitas por Piaget, mas negou a sua fundamentação teórica e a coerência dos seus pressupostos metodológicos.
Fiel à sua fundamentação marxista, Vigotski foi um crítico veemente das posições ecléticas que afirmam ser possível a junção de princípios metodológicos inconciliáveis:
Não existe uma única metodologia fundamental de uma época. O que existe, na realidade, são conjuntos de princípios metodológicos em litígio,
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19 Retomaremos a questão com mais profundidade no item sobre pensamento e linguagem, neste mesmo capítulo.
profundamente hostis, que excluem uns aos outros e cada teoria – a de Pavlov, Einstein, etc. – têm seus valores metodológicos. Utilizar do parênteses da metodologia geral de uma época e diluir nela o marxismo significa transformar não só a aparência, mas também a essência do marxismo (VYGOTSKI, 1991, p. 298).
Vigotski (1991, p. 296-297) critica Zalkind20 pela tentativa de associar a Psicanálise de Freud ao marxismo. Sua crítica parte da impossibilidade de comunhão entre os pressupostos teóricos de Freud, que fundamenta a psicologia na sexualidade e no inconsciente, com o materialismo de Marx que tem como pressuposto central a produção material da história pelo trabalho como determinante da consciência individual e coletiva. “E o que fazem os ecléticos: respondem a pergunta feita pela psicologia marxista como o que lhes sugere a metapsicologia freudiana” (VIGOTSKI, 2001, p. 294). Em conformidade com o pensamento marxista, Vigotski é também contrário a qualquer forma de “ecletismo” metodológico. Para ele o materialismo dialético exclui a possibilidade de somar mecanicamente os grandes feitos científicos. Vigotski (1991, p. 274), critica o ecletismo, que opera através da valorização de coincidências e não de fundamentos. Ainda criticando autores que tentam identificar a psicanálise com o materialismo histórico, ele afirma que a Psicanálise limita a psicologia, transformando a sexualidade em princípio metafísico de uma série de idéias metafísicas e a Psicologia em ideologia e em metapsicologia:
A anexação, a transposição mecânica de fragmentos de um sistema alheio a si próprio, parece produzir-se, neste caso como em todos os casos sempre, de maneira milagrosa e como evidência da verdade. Semelhante coincidência teórica e prática “quase milagrosa” de duas doutrinas, que operam com um material manifestamente distinto e que utilizam métodos totalmente diferentes, constitui uma prova convincente do caminho acertado que segue atual reflexologia (VYGOTSKI, 1991, p. 296).
Essa crítica Vigotski escreveu com referência à proposta de Zalkind de unir a Reflexologia com a Psicanálise, enaltecendo o fato de que os autores da Reflexologia não aceitavam a possibilidade de uma identidade com a Psicanálise. Escreve também que a Doutrina dos Complexos de Jung não corresponde com os dados da Reflexologia, sendo que “uma baseia-se na análise subjetiva e outra na observação comportamental concreta”. Para Vigotski a valorização de “coincidências” como meio de se chegar a uma verdade científica através da junção de métodos completamente distintos apenas comprova a carência metodológica de princípios e o ecletismo de um sistema falho.
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A. B. Zalkind foi um estudioso da psicologia que publicou Ensaios sobre a Cultura dos Tempos Revolucionários” e tentava unir a psicanálise ao materialismo histórico e dialético e por isso foi criticado pro Vigotski.
Os intentos ecléticos de conjugar elementos heterogêneos, de distinta natureza e de distintas origens científicas, carecem de um caráter sistemático, dessa sensação de estilo, dessa conexão entre nexos que proporciona o submetimento das teses particulares a uma só idéia que ocupa um lugar central no sistema do qual é parte (VYGOTSKY, 1991, p. 293).
Vigotski se utiliza da mesma prática de estudos que Marx utilizou nos seus estudos, dentro das diferentes proporções referentes aos seus objetos de estudos (a psicologia e a pedagogia em Vigotski e a economia, a filosofia e a história em Marx). Dentre muitos autores estudados, Marx escolheu os que lhe convinha para aprofundar seus estudos como Aristóteles, Hegel, Feuerbach, Ricardo, Adam Smith, Prudon, e outros. Esses autores não foram copiados em nenhum momento na obra marxiana, ao contrário, foram estudados à exaustão e devidamente criticados a partir do ponto de vista do materialismo histórico e dialético. Em momento algum Marx utilizou de forma passiva o conhecimento produzido por esses autores, mas sempre negou objetivamente a fundamentação e a cientificidade das obras desses autores. O mesmo procedimento adotou Vigotski com relação à psicologia. Estudou exaustivamente autores de sua área de conhecimento na época como: Pavlov, Blonsk, Bühler, Koffka, Kornilov, Münsterberg, Thorndike, Freud, Piaget, Zalkind e outros21. Em momento algum Vigotski utilizou, de forma passiva, os conhecimentos produzidos por esses autores, muito pelo contrário, sempre se esmerou em fazer a devida crítica aos seus referenciais teóricos e metodológicos. Sua crítica aos autores estudados sempre se manteve coerente com os seus pressupostos teóricos.
No Ocidente, particularmente nos Estados Unidos e Reino Unido, a obra de Vigotski veio à tona ainda nos anos de 1950, por pesquisadores ligados à sua área de conhecimento, que pouco conheciam sobre a teoria do conhecimento formulada por Marx (BURGUESS, 1993). Esse fato impossibilitou a compreensão da sua obra dentro da estrutura teórica na qual ela foi formulada. Os autores passaram então a recortar alguns entendimentos úteis que reproduzem não a proposta real de Vigotski, mas fragmentos que, em essência, mais negam do que efetivamente afirmam o conteúdo por ele expresso:
A perspectiva Vygotskyana, com um empurrãozinho, também pode ser relacionada a posições pós-modernas. A ambigüidade que pode ser lida na posição ideológica de Vygotsky (e de Bakhtin) permite recontextualizações de acordo com uma variedade de relevâncias contemporâneas. Assim, é possível ver que Vygotsky atrai grupos diferentes por razões diferentes (BURGUESS, 1993, p. 21).
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Além dos pesquisadores que tratavam da Psicologia, Vigotski estudou profundamente os clássicos da Filosofia como: Rousseau, Espinosa, Kant, Hegel, Hume, Bacon, Descartes e muitos outros, além de Marx, Engels e Lenin.
Alguns estudiosos de Vigotski, ingleses, estadunidenses e russos, demonstram claramente como muitos textos foram adaptados ou “recontextualizados” para a realidade capitalista. Numa realidade histórica em que o mundo estava dividido entre comunistas e capitalistas, as ciências em geral e principalmente as ciências humanas, passavam por um processo de censura, muitas vezes sutil e realizado de modo inconsciente ou ideológico pelos próprios pesquisadores. Fica difícil entender Vigotski fora do universo cultural e material da sociedade em que viveu. O psicólogo e autor soviético Davidov, da segunda metade do século XX, expressa a dificuldade que os ocidentais tiveram em compreender a totalidade do pensamento de Vigotski:
Sua visão de mundo desenvolveu-se nos anos da revolução e refletiu as mais avançadas e fundamentais influencias sócio-ideológicas relacionadas à compreensão das essências do homem e das leis de seu desenvolvimento histórico e de sua formação plena, nas condições da nova sociedade socialista. Esse pensamento manifestou-se plenamente na filosofia materialista dialética, que Vigotski conhecia a fundo e na qual baseou seu próprio ponto de vista sobre a palavra (DAVIDOV, 1993, p. 153).
Davidov evidencia que as interpretações contraditórias da obra de Vigotski no Ocidente devem-se à diferença fundamental da prática sócio-histórica da educação de massa entre as sociedades burguesas e socialistas (DAVIDOV, 1993, p. 161). Outros autores, mesmo ingleses e estadunidenses não marxistas, também evidenciaram em suas obras o processo de retirada do pensamento marxista da obra de Vigotski, no Ocidente. Essa prática fica evidente nas traduções orientadas pelo psicólogo estadunidense J. S. Bruner, denunciadas pelo pesquisador estudioso de Vigotski e professor de literatura inglesa, na Inglaterra, Tony Burgess (1993, p. 47):
No entanto, sua leitura de Vigotski adota a versão de ciência transcendente como um caminho para lidar com as divisões da Guerra Fria e retira os conceitos de sua estrutura marxista para colocá-lo no pragmatismo norte- americano, como uma forma de resolver as dificuldades com o marxismo
A ausência de domínio do referencial teórico e metodológico marxista pelos pesquisadores da Psicologia que introduziram o pensamento de Vigotski no Ocidente, impede a compreensão da essência do seu trabalho que é justamente o que Vigotski mais buscou expressar nas suas obras. A censura ao pensamento marxista, durante a Guerra Fria, resultou também na produção de uma censura ideológica, que impregnou as ciências humanas na época.
O pensamento vygotskiano teve que conquistar o seu lugar. Defensores e intérpretes tiveram que defender sua causa em um ambiente de conceitos psicológicos e culturais que, na maior parte das vezes, não tinha consciência de sua existência e duvidava do projeto de uma psicologia marxista. Onde o marxismo era visto principalmente como religião estatal, ele foi interpretado, na maioria das vezes, como retórica política e não como uma especialidade de origem intelectual ou um projeto intelectual com potencial explicativo (BURGESS, 1993, p. 44).
Burguess demonstra como a leitura ocidental da psicologia soviética acontece de duas formas, nos anos 1950 e 1960 na Inglaterra. A primeira “herda a ênfase no sujeito humano, na liberdade ética, e na origem humana das idéias sobre a realidade, características do pensamento humano”, numa nítida contradição com os pressupostos de Vigotski . Segundo o Burgess, esse grupo de estudiosos de Vigotski dá mais relevância a uma concepção de psicologia que compreende o desenvolvimento da criança a partir do indivíduo.
Os seguidores dessa linha estão interessados em aprendizagem, em desenvolvimento e no papel da linguagem no pensamento. Tendem ao estudo dos símbolos e da simbolização, porque isso se adapta bem à ênfase na criatividade e na contribuição ativa da criança em sua própria aprendizagem. Não negligenciam o social, ao contrário do que, as vezes, dizem seus oponentes. No entanto, tendem a tratar questões sociais em termos genéricos e complacentes. Dão mais ênfase à interação do que à sociedade (BURGESS, 1993, p. 35).
Entre outras características desse grupo que recontextualizou Vigotski, o autor cita a utilização da cultura e da história apenas como “pano de fundo” e sem menção a poder ou conflito. Para Burgess, um fato que fortaleceu essa percepção kantiana de Vigotski, foi a influência generalizada da Psicologia do Desenvolvimento de Piaget, na Europa do Pós- Guerra. Essa também foi a tendência predominante entre os pesquisadores que reproduziram a obra de Vigotski no Brasil, nas últimas décadas22.
A outra corrente citada por Burgess tem sua referência teórica em Gramsci. Para ele, o marxismo gramsciano não é o marxismo de Vigotski, do que decorre uma série de interpretações focadas mais na cultura e no social e menos na criança, negligenciando um aspecto da psicologia de Vigotski. O autor acredita que as duas tendências, a kantiana e a gramsciana, são leituras válidas do pensamento “vygotskyano”. Assim, Burguess assume também uma postura que Vigotski denunciaria como sendo “eclética” e não-científica.
Não quero descobrir o que é a mente de maneira leviana, pinçando algumas citações. Quero aprender pelo método formal de Marx, como uma ciência é
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Entre importantes autores que reproduziram o pensamento de Vigotski fora das categorias do materialismo histórico e dialético, no Brasil, podemos citar: Oliveira (1995), Rego (1995), Smolka (1989) e Freitas (2001, 1999 e 1994).
construída e como abordar o estudo da mente (VYGOTSKI, apud DAVIDOV, 1993, p. 157).
Partindo de uma concepção materialista e histórica da Psicologia, Vigotski estudou em profundidade os aspectos que se mostravam antagônicos entre os pesquisadores da Psicologia de sua época. 1- Estudou a Reflexologia e o Behaviorismo, para compreender o papel do organismo dos indivíduos nas funções psicológicas; 2- estudou tendências idealistas da Psicologia como a Psicanálise e a Gestalt, para entender os aspectos subjetivos e o inconsciente; 3- estudou pesquisadores que adotavam o método experimental como Piaget, para entender o processo de desenvolvimento infantil; 4- estudou autores que acreditam na gênese social da formação da consciência, para entender como se dá a internalização das funções psicológicas; 5- estudou a mediação dos signos e da linguagem, para compreender como a cultura serve de instrumento de entendimento e ação sobre a realidade e como se dá a apropriação da cultura histórica; 6- e estudou tudo que seus próprios colegas da Psicologia Sócio-Histórica ou da Atividade produziram sob sua orientação.
Reduzir o pensamento de Vigotski a qualquer um desses entendimentos, isolado dos demais, mutila completamente o seu pensamento e isso tem acontecido em grande parte das obras publicadas sobre o autor. Em uma obra intitulada “Vygotsky, quem diria?! Em minha sala de aula”, Celso Antunes (2002), em uma apresentação de apenas poucas linhas, que em tese deveria conter uma síntese sobre o pensamento do autor, escreve o seguinte:
Talvez a mais extraordinária revolução trazida pelo século XX para a educação tenha sido proporcionada por Vygotsky e seus discípulos russos ao pesquisarem a mente humana mostrando que não mais se busca compreendê- la através de comportamentos, mas pela ação dos neurônios e suas sinapses, posto que os comportamentos são tímidas manifestações destas (ANTUNES, 2002, p. 7)
Antunes tenta reproduzir nessa apresentação um aspecto isolado do estudo de Vigotski, no caso, sobre a Reflexologia, que sempre foi criticada por Vigotski pela sua não- historicidade. No decorrer da publicação o autor demonstra a identidade entre o pensamento de Vigotski e de Piaget e desenvolve apenas uma das particularidades da obra de Vigotski que, bem ao gosto pós-moderno, é a Zona de Desenvolvimento Proximal, ZDP, isolada do restante da teoria do psicólogo soviético. Uma mistura desarticulada de apenas alguns aspectos da teoria de Vigotski, cuja ausência de rigor metodológico de estudo e de exposição, conduz a uma compreensão equivocada da Psicologia Sócio-Histórica. A identificação da teoria de Vigotski aos pressupostos do pensamento liberal em educação leva um grande
número de autores liberais a identificar Vigotski com tendências antagônicas às suas como: a Escola Nova, o Construtivismo, o Sócio-Interacionismo e outras23.