Chapter 7: The production of difference through interwoven racializing
9.5 Hybridized Norwegianness means enacting Norwegianness beyond the
A língua e a cultura judaicas passaram por muitos momentos de crise: nos séculos VI e VII a.C., quando do retorno dos exilados judeus do Cativeiro da Babilônia para a terra de Israel, ocorre um primeiro renascimento; o segundo renascimento ocorreu na Idade Media - na Espanha, na Itália e na Provença. Por volta de 900, descobriu-se que todas as comunidades judaicas usavam o hebraico como língua útil para a comunicação escrita - em livros, documentos jurídicos e cartas particulares, e houve também uma importante produção de obras na forma de poesia, prosa narrativa e escritos de caráter científico e filosófico. Dentre os mestres mais importantes, citamos Rabi Moshê Ben-Maimon (Espanha - séc. XI), símbolo do judaísmo sefardita, que influenciou grandes figuras do rabinato e Isaac Abravanel (século XVI). O grande filósofo judeu Abravanel defendeu o pensamento hebraico nos difíceis tempos da caçada da Espanha, assimilando os conhecimentos de Ben-Maimon e absorvendo
também conceitos aristotélicos. Em meados do séc. XVII, com o movimento nascido na Alemanha e conhecido como Haskalah, os escritores promoveram a derradeira renovação do judaísmo e alguns nomes repercutiram também na Itália87; podemos citar Moisés Chayyim
Luzzato, de Pádua (1707-47), e um dos modelos favoritos dos poetas do século XVIII em toda a Europa, Pastor Fido de Guarini, de quem Luzzato absorveu as características literárias e temáticas88.
Muito contribuiu para que crescesse o interesse pela cultura judaica a primeira tradução da Bíblia para a língua alemã: Martinho Lutero dá o passo inicial para que estudiosos ocidentais iniciassem pesquisas interessantes, uma vez que a veracidade de textos sagrados sempre foi alvo de especulação. Em l753 o médico francês Jean Astruc89 financia e publica um livro, resultado de uma longa pesquisa, no qual são feitas "Conjecturas sobre as
memórias das quais onde Moisés pode ter extraído as bases para escrever a Gênesis”. Astruc
nota que, no primeiro livro do Pentateuco, ao lado das páginas em que Deus era chamado com o termo específico bíblico de Yaveth (impronunciável para os hebreus), existiam outras, nas quais Deus era chamado de Elohim, termo esse oriental e mais genérico. Desde então, estudiosos no assunto, fazendo uso de instrumentação sofisticada, submeteram os rolos do Pentateuco a uma radiografia literária, quase microscópica, procurando as várias camadas e fontes.
Descobriu-se que no folclore das vilas, nas catequeses, nas assembléias litúrgicas, no ensino dos pais aos filhos, as origens de Israel foram transmitidas e expostas ao conhecimento e à meditação das novas gerações mediante típicos procedimentos semíticos destinados a estimular e favorecer a memória.
O texto sagrado fora escrito primeiramente com apenas consoantes que indicavam a idéia a ser passada. As vogais eram adicionadas no momento em que o texto era ensinado às novas gerações, preferivelmente de pais para filhos, priorizando o contato físico no
87 Uma pesquisa específica sobre o insediamento hebraico na Itália foi feita em 2002 pelo Prof.Dr. Michele
Luzzati da Universidade de Pisa e revela que os estados italianos foram invadidos por centenas de insediamentos hebraicos entre 1200 e 1500. A maciça presença hebraica foi foco de numerosas pesquisas no século XIX. - Revista cultura 200 – História judaica –Disponível em: culturajudaica.org.br. Acesso mar/2006.
88 Conhecimento Judaico – Nathan Aurubel 89 La Bibbia - Introduzione generale -
aprendizado, que só poderia ser feito, portanto, verbalmente. Dessas correntes vivas de palavras, de imagens e de eventos aparecem dois tipos de tradição: a Jahvista e a Elohista. Dos escritos de Moisés e dos ensinamentos na memória coral do povo, guiado e iluminado por Deus – os hebreus – nasce, por volta do séc. X a.C., a primeira sistematização teológica dos textos orais, conhecida como tradição Jahvista - basicamente verbal e coral, cantada em versos, nos moldes da tradição da Lei das XII tábuas. A tradição Elohista aparece em IX-VIII a.C., mais rigorosa e sóbria, com características de documento escrito.
A definição de Astruc sobre a linguagem da tradição Jahvista nos faz pensar nas características que, de acordo com Vico, são típicas das fases divina e poética; e a tradição Elohista parece fazer parte da linguagem que Vico chama de articulada, fruto de uma sabedoria sedimentada, vulgar (do vulgo – povo) e divulgada - isto é, decorrente de outra sabedoria espontânea que a precede. Os hebreus se formaram como “povo” repassando suas memórias e contando suas histórias, com linguagens espontâneas que evoluíram no tempo. Vico deduz que todas as civilizações – que necessariamente vieram depois desse povo considerado o mais antigo – se formaram da mesma maneira, não por terem aprendido com os judeus, mas por ser esse o modo de aculturação característico da humanidade.
Apesar de não ter lido os originais, não nos é difícil deduzir que o filósofo italiano empreendeu uma análise sobre os textos bíblicos servindo-se de informações acadêmicas: na Ciência Nova, aparecem diversos nomes ligados à cultura judaica (que podem ser objeto de pesquisa posterior): Bochardt, Capistro, Marcus, Zoli, Botturi, Buxtorf, Ottinger, Casaubuono, Píer Cuneo, Lattanzio, Demetrio, Joseph Athias, Filon, Flavio Josefo e Judá Abravanel, conhecido na Europa como Leon Hebreo. Lemos ainda, num adendo à Autobiografia, sobre a amizade entre o filósofo italiano e o judeu Giuseppe Athias, um intelectual reputado e conhecedor da língua santa (o hebraico). Vico atribui a Giuseppe Athias a edição e explicação de um Velho Testamento em Amsterdã, obra famosa entre os acadêmicos e, embora o historiador italiano Arnaldo Momigliano90 conteste tal afirmação, dizendo que o velho testamento em questão teria sido editado por outro Joseph Athias (por volta de 1661), a discussão nos dá uma idéia da importância que se dava aos estudos
90Arnaldo Momigliano em Vico's Scienza nuova: Roman "Bestioni" and Roman "Eroi". History and Theory,
judaicos.91 O judeu em questão - o livreiro Giuseppe Athias - é citado também num texto de outro historiador italiano, Salvatore Rotta; esse texto, que avalia a proximidade entre o pensamento de Vico e Montesquieu92, revela que a mansão de Athias em Livorno era
frequentada por intelectuais como o filósofo francês.
Vico parece preferir os autores que, ligados ou não à cultura judaica, sustentam um mesmo tipo de pensamento no que se refere à crença em um Criador. Embora nenhum deles tenha unido a ciência divina e a ciência humana, as teorias de Tácito, Platão, Groz e Bacon, no julgamento do filósofo napolitano, se aproximam das teorias “divinas”; o esforço de Vico em vincular o divino ao humano define sua própria metafísica que dará forma e conteúdo a uma ciência nova: a história.