A Escola Americana de Belo Horizonte foi fundada em 1956, por um grupo de pais missionários - religiosos de igrejas pentecostais (protestantes). Esteve inicialmente alojada11 no Instituto Isabela Hendrix, onde eram ministrados cursos de correspondência
Calvert, com material estrangeiro. Esses cursos eram direcionados a estudantes
americanos, no nível fundamental, filhos dos missionários. Sua orientação e supervisão eram feitas pelas próprias mães dos alunos. Posteriormente, ao final dos anos 60, o
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Na ausência de outras fontes sobre a história desses dois estabelecimentos, a solução encontrada foi a de lançar mão da documentação existente no Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais, referente às duas instituições, desde sua criação aos dias atuais, de modo a obter alguma informação sobre sua história e seu percurso ao longo do tempo.
11 As informações em itálico constam de documentação da própria EABH enviada ao Conselho Estadual de Educação e por esse recebida no dia 15/01/1993.
estabelecimento funcionou no Bairro Betânia, mas um aumento gradual do número de alunos resultou na organização e criação de uma escola primária com a substituição dos
cursos de correspondência por um currículo baseado em livros de textos americanos. O
crescimento do público ao longo dos anos fica visível em alguns dados sobre os diversos períodos da EABH12: com 39 alunos no ano de 1964, ela passa a 99 estudantes em 1969, dos quais, 83 americanos, 10 brasileiros e seis de outras nacionalidades.
Em 1975, a instituição foi aprovada oficialmente como membro da Associação de Faculdades e Escolas do Sul dos EUA, sendo assim reconhecida pela legislação americana. A EABH foi instituída como “escola livre”, ou seja, independentemente da autorização do Governo Estadual de Minas Gerais para funcionar. Permaneceu nessa condição até o ano de 1993, quando obteve do Conselho Estadual de Educação a autorização de funcionamento dos ensinos fundamental e médio pela Portaria SEE/MG n. 730 /93, de 15/09/93 e o reconhecimento do ensino médio pela Portaria SEE/MG n. 865 /96, de 27/07/96.13
A EABH é mantida pela “Associação Internacional de Educação de Belo Horizonte”, composta por um grupo de pais de alunos - que deve conter brasileiros e estrangeiros - eleito periodicamente, e constitui uma sociedade sem fins lucrativos. É o grupo de pais que decide sobre as questões financeiras e administrativas da escola e elege também sua direção. As reuniões da associação acontecem em inglês e são mediadas por intérpretes para os pais que não falam essa língua.
Entre seus objetivos principais, a EABH destaca o “fornecimento de um programa educacional que facilite a transferência de alunos para os Estados Unidos, Brasil e outros países, além de aceitar alunos de outras comunidades em seu programa”14.
A estrutura e o funcionamento
Em 1971 a escola iniciou a construção de seu novo prédio no bairro Buritis, onde funciona ainda hoje. Trata-se de um bairro da zona oeste de Belo Horizonte, considerado de classe média.
12 Utilizarei doravante a sigla EABH para designar essa escola.
13 Informações encontradas no Parecer nº. 3222/99 do Conselho Estadual de Educação. 14 Cf. página da escola na internet, disponível em http://www.eabh.com.br/
Em uma área de 25 mil m2, as instalações do estabelecimento são simples, “agradáveis”, na opinião de muitas das famílias entrevistadas e vistas pelos alunos como muito atrativas, sobretudo pela presença de um ginásio poliesportivo coberto e de muita área verde. As salas são amplas e arejadas. Cada aluno tem seu escaninho, onde guarda seu material, “em estilo das escolas americanas que se vê em filmes”, como lembrado por uma das mães entrevistadas. A escola dispõe de laboratórios, uma biblioteca, cozinha e cantina onde todos os alunos almoçam diariamente, em horários diferenciados, juntamente com os professores.
A EABH recebe crianças a partir de três anos, do maternal ao ensino médio. A escolarização completa, do nível fundamental ao médio, é composta de 12 séries. A conclusão do ensino médio no sistema brasileiro equivale ao término da 11ª série. A maior parte dos alunos não cursa a 12ª série, necessária à obtenção do diploma de nível médio válido no sistema norte-americano.15
Uma maior concentração de alunos no pré-escolar e nas séries iniciais do ensino fundamental e a diminuição gradativa desse número nos níveis seguintes é marca constante da distribuição de seu alunado, bastante reduzido: em 2004 a instituição contava com 125 alunos e em 2005, com 139.
Ao longo de sua história, a EABH apresentou mudanças no funcionamento e no perfil de seu público. De uma escola com professores e alunos americanos ou estrangeiros, que se comunicavam exclusivamente em inglês, ela passa à situação atual de maioria de brasileiros, tanto entre professores, quanto entre estudantes. O inglês cede progressivamente terreno para o português na comunicação preferencial dos estudantes no interior do espaço escolar, segundo seus próprios relatos.
O estabelecimento segue o calendário boreal, a saber: o período escolar inicia-se no meio de um dado ano civil, com término em meados do ano seguinte. Algumas adaptações à realidade brasileira foram incluídas no calendário como, por exemplo, o início das aulas em agosto, diferentemente dos sistemas educacionais do hemisfério Norte, onde o período letivo começa no mês de setembro. As férias dividem-se em duas etapas. A principal vai da metade do mês de junho ao início de agosto e a outra, da segunda metade de dezembro a meados de janeiro.
O horário de funcionamento das aulas, para todos os níveis de ensino, é de 8h às 15h. A jornada integral é uma característica diferenciadora da instituição em relação às
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escolas que compõem a oferta corrente do sistema de ensino nacional, em seus níveis fundamental e médio, da rede privada da cidade de Belo Horizonte, onde o horário é, em geral, cumprido em um só turno: manhã ou tarde. Sua mensalidade, no ano de 2004, girava em torno de R$ 2.300,00 ou seja, cerca de 800 dólares, à época.
Processos seletivos, grade curricular e avaliação
A EABH não realiza processos seletivos ao recrutar seus alunos. Cada caso de solicitação de matrícula é analisado pelos professores e pela direção. O ingresso pode se dar em qualquer série. O conhecimento da língua inglesa não constitui pré-requisito para a aceitação do aluno mas, segundo relato dos professores, essa não é a regra geral, podendo ser modificada de acordo com a equipe diretora da escola.
As informações obtidas sobre sua grade curricular são parciais e tratam somente de disciplinas ofertadas no ensino médio, entre elas, Inglês, Português, Psicologia, Assuntos Ambientais, Leitura, Saúde, Música, Economia, História Americana, Matemática, Ciências, Química, Estudos Sociais, Artes e Educação Física. Além do currículo credenciado pela Associação de Escolas do Sul dos EUA - que tem o inglês como língua principal e propicia o acesso a universidades americanas e de outros países - ela segue também o programa brasileiro completo de formação, que confere o certificado de conclusão de ensino médio comum geral. As aulas são ministradas em inglês para a maior parte das disciplinas. O português, segundo relato de estudantes e professores, é mais utilizado no interior da escola, nas conversas entre alunos. O material didático é composto tanto por livros em inglês como em português. A escola oferece ainda atividades extracurriculares como, por exemplo, no ano de 2005: esportes (vôlei e futebol), música (dança folclórica), artes (máscaras decorativas), alemão e informática16.
O processo de avaliação da aprendizagem se dá não somente por meio de provas escritas, mas também a partir da análise de rendimento e do progresso dos alunos diante das diversas atividades propostas ao longo de todo o ano escolar. Ao final das duas etapas do ensino fundamental, 4ª e 8ª séries, os estudantes são submetidos a uma avaliação elaborada pelo governo americano para todas as escolas daquele país, composta de questões de múltipla escolha e aplicada na própria escola, pelos professores locais. A partir da 9ª série (que corresponde ao primeiro ano do ensino médio no sistema brasileiro),
16 Informações retiradas da Homepage da escola disponível em
as notas dos estudantes são computadas para uma média final, que determina seu rendimento ao longo de todo o ensino médio, e que influencia suas possibilidades de acesso às diferentes universidades norte-americanas.
Os professores e a direção da escola
A escola reúne professores americanos, estrangeiros e brasileiros, com salários diferenciados. Os professores estrangeiros têm remuneração mais elevada, direito a uma passagem aérea por ano para seu país de origem, seguro saúde e moradia pagos pelo estabelecimento. A diferença de nível salarial entre os professores brasileiros e estrangeiros nem sempre foi a mesma ao longo da história da instituição.
Os anos iniciais eram caracterizados pela presença maciça de professores estrangeiros e uma minoria de brasileiros, sendo que esses últimos contavam com correções salariais de incentivo a cada ano de trabalho. A disparidade, no entanto, aumenta progressivamente, também por razões da economia, relação dólar/moeda nacional, paralelamente a uma inversão das proporções entre professores brasileiros e estrangeiros na escola. Crises financeiras levam à contratação de maior número de docentes brasileiros, menos onerosos, confluindo para a situação atual que é a de uma maioria de professores brasileiros: 15 brasileiros para sete estrangeiros.
Os docentes americanos ou estrangeiros são recrutados em uma “feira” que acontece duas vezes por ano, nos EUA, na qual profissionais da educação se oferecem para o trabalho nas diversas instituições de ensino americanas de todo o mundo. A EABH não é tida, segundo depoimento de alguns ex-professores, como muito atrativa para os profissionais estrangeiros, que demonstram preferência pelas escolas do Rio de Janeiro, de São Paulo ou de Salvador.
A direção da escola é composta por um diretor brasileiro e um americano, que são indicados pelo grupo de pais, com anuência também dos professores. A diretora americana, à época do estudo, não falava português e se utilizava de uma intérprete para se comunicar com os pais não fluentes em inglês. Os professores estrangeiros (antigos e atuais), em geral, falavam pouco ou não falavam português, segundo depoimentos de pais, alunos e ex- professores.