Kapittel 5. Analyse: Journalister: Begrunnelser og dilemmaer
5.2 Hvorfor vil redaksjonene ha disse historiene?
A alimentação da família não constituiu o foco principal desta pesquisa, no entanto foram observados, em alguns domicílios, momentos em que a família estava fazendo as refeições.
A atividade alimentar faz parte dos mecanismos de integração primária (família) e secundária (ideologia), com as quais mantém uma interação na forma, na expressão e na estratégia social do grupo, que podem oscilar entre a integração e a diferenciação (CALVO 1982 apud iPONS, 2005).
Nas residências onde se acompanhou a alimentação da família, durante o café da manhã ou o almoço, notou-se que os alimentos preparados eram deixados sobre o fogão, cada indivíduo se servia e, no caso das crianças, essas eram servidas pelos adultos, e cada um comia onde considerava mais apropriado. Em nenhum domicílio se observou a família sentada ao redor de uma mesa e nem todos faziam a refeição ao mesmo tempo.
Os membros da família se sentavam em cadeiras ou nos sofás para comerem ou, ainda, comiam em pé. Alguns se alimentavam em frente à televisão. Dos quatro pais que residiam com os filhos, dois almoçavam no trabalho, um almoçava no meio da tarde, porque trabalhava
no período noturno e um que trabalhava ao lado da casa almoçava mais tarde, depois dos filhos.
O pai da Carolina fez o prato e foi para a sala. A Ana comeu melancia. A Samanta fez o prato e comeu um pouco sobre a pia da cozinha, em pé, e logo saiu (Extraído do diário de campo da Carolina, criança Marcela, 1 ano e 7 meses).
Perguntei pelo marido, se ele vem almoçar em casa. Ela disse que ele trabalha em uma empresa de reflorestamento e que não almoça em casa porque ele ganha marmita no trabalho, mas que volta todos os dias para casa (Extraído do diário de campo da Paola, criança Isabela, 1 ano e 3 meses).
Ela preparou o prato dos sobrinhos e do filho mais velho, ela colocou arroz e o macarrão com a batata e levou na sala, todos comeram sentados no sofá e assistindo televisão (Extraído do diário de campo da Silvia, criança Cristiano, 1 ano e 11 meses).
A Carolina tomou café em uma mesa na sala e a Ana sentada no sofá. Ambas comeram cerca de 3 rosquinhas e a Carolina repetiu o café preto (Extraído do diário de campo da Carolina, criança Marcela, 1 ano e 7 meses).
Perguntei sobre o marido dela, ela falou que ele estava dormindo, ela disse que ele trabalha à noite (...) ela falou que ele levanta por volta das 16h30, almoça e vai trabalhar (Extraído do diário de campo da Evelin, criança Amanda, 11 meses).
O marido trabalha na área de construção civil e ganha R$ 650,00 por mês, ela disse que se ele faltar no serviço é descontado R$ 50,00 por dia. Ele sai cedo e só volta à noite, ele leva marmita (Extraído do diário de campo da Silvia, criança Cristiano, 1 ano e 11 meses).
A alimentação cotidiana sofreu profundas transformações em função do modo de produção capitalista, as comidas familiares se reduzem (número de pratos preparados), o tempo gasto com a refeição é cada vez menor e, ainda, é compartilhado com outras atividades (trabalhar, assistir televisão, andar e estudar), as comidas são omitidas dos pratos, altera-se a estrutura e as horas são irregulares. Os tipos e jornadas de trabalho, bem como os horários escolares dos filhos, interferem nos horários das refeições cotidianas no domicílio urbano (ARNAIZ, 2005; CANESQUI, 2005).
Canesqui (2005), em seu estudo com famílias de trabalhadores urbanos, descreve que os horários das refeições se regulam pelas pausas das jornadas de trabalho e estudos das diferentes pessoas ou pelos ritmos de vida dos aposentados ou desempregados dos grupos domésticos. Os indivíduos se servem da comida diretamente do fogão, mulheres e crianças comem na cozinha e pai e filhos do gênero masculino na sala, assistindo televisão, mostrando que a cozinha é o espaço da dona de casa e de sociabilidade da família, enquanto o espaço da sala é de domínio masculino como espaço de lazer e descanso. Essa autora destaca que os trabalhadores, homens e mulheres, de ambas as gerações, geralmente, almoçavam nos próprios locais de trabalho. Assim a família estava completamente reunida para as refeições apenas em ocasiões não cotidianas, como o almoço do domingo ou em festas familiares.
O acompanhamento da alimentação da família pelo pesquisador pode ter influenciado os membros familiares a quase não dialogarem, a se sentarem distantes uns dos outros e do pesquisador, a realizarem as refeições mais rapidamente do que o habitual ou a deixarem de realizar a refeição enquanto o pesquisador estava no domicílio. Para os sujeitos, ter uma pessoa estranha em sua casa, ainda que familiarizada com o ambiente e com as pessoas do grupo, poderia significar julgamento do que se come, como se come, onde se come.
Os alimentos consumidos pelos familiares nem sempre faziam parte das refeições das crianças. Como já apontado anteriormente, as crianças se alimentavam antes dos adultos e, em algumas casas, a comida oferecida à criança era diferenciada, sendo, geralmente, sopa.
Os almoços das famílias eram constituídos basicamente de arroz, feijão, macarrão, batata e, às vezes, carnes. Quando havia hortaliças, observou-se que essas não eram oferecidas às crianças, apesar das mães relatarem em suas falas que legumes e verduras faziam parte de uma alimentação adequada. Mesmo entre os adultos quase não se verificou a preparação e a ingestão de hortaliças.
Abaixo, seguem algumas observações de campo mostrando a diferenciação da alimentação da família e das crianças:
A Clotilde preparou o prato do filho de 7 anos, colocou arroz, feijão, um pouco da sopa do filho pequeno e ofereceu carne, mas o filho não quis. O menino comeu sentado na cadeira, o André quis comer novamente, a mãe pegou mais um pouco de sopa e uma colher de arroz e feijão do prato do irmão, mas ele só comeu uma colher. A mãe disse que quando os filhos e ela vão comer, ele come um pouco com cada um (Extraído do diário de campo da Clotilde, criança André, 1 ano e 9 meses).
Observei o avô fazer o prato, ele colocou farinha de milho, feijão, arroz, macarrão, salame frito e se sentou no sofá para comer (Extraído do diário de campo da Carolina, criança Marcela, 1 ano e 7 meses).
A mãe preparou a couve, esquentou uma frigideira com óleo e colocou a couve para refogar. A couve estava em uma vasilha com água, ela esgotou a água e colocou a couve na frigideira. (...) A mãe pegou um prato de louça e colocou a comida para o filho: arroz, feijão e macarrão, não serviu a couve (...) (Extraído do diário de campo da Elizabete, criança Lucas, 10 meses).
A Emanuele temperou a salada de alface com óleo, espremeu bastante limão e acrescentou sal, ela reservou uma parte da salada para ela e outra para a mãe, as crianças não foram servidas de salada (Extraído do diário de campo da Emanuele, criança Gustavo, 1 ano e 4 meses).
Ela logo serviu a sopa para o filho, não a observei preparar, mas parece que era a sopa da visita anterior, talvez sopa industrializada, porém ela deve ter acrescentado macarrão e batata, pois pude observar esses alimentos no prato. Ela serviu em um prato de louça, usou uma colher de sopa para dar ao filho. A criança estava querendo mamar no peito, mas a mãe conseguiu dar algumas colheres de sopa antes de dar o peito, ela serviu cerca de nove colheres de sopa. A sopa era bem líquida, ela ainda amassou bem o macarrão com a própria colher do servimento. (...) Depois que ela serviu o André e ele mamou, ela começou a preparar o almoço da família, ela lavou o arroz e colocou em uma panela que tinha alho fritando, a carne que estava em uma vasilha de plástico ela também colocou em uma outra panela e falou que tinha feijão em outra. Ela preparou todo o almoço no fogão à lenha (Extraído do diário de campo da Clotilde, criança André, 1 ano e 9 meses).
Dados do ENDEF (1974-1975) e da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada em três períodos (1987-1988, 1995-1996 e 2001-2003) elucidam algumas tendências temporais da alimentação no país. Entre as características positivas destaca-se a adequação do teor protéico da alimentação, com consumo aumentado de proteínas de alto valor biológico, e a participação crescente das gorduras vegetais. Com relação às tendências inadequadas na dieta tem-se o alto consumo de açúcar em todas as classes de renda, consumo muito baixo e insuficiente de frutas, legumes e verduras e consumo exagerado de gorduras totais e saturadas entre as classes de rendimentos mais elevados (BRASIL, 2005a; CNDSS, 2008).
Para as camadas populares o feijão, o arroz, a carne, as massas e o milho, são alimentos classificados como “comida” e nas representações aparecem como alimentos “fortes”, que sustentam, garantem a resistência e aptidão para o trabalho e protegem contra a
fome, prolongando a sensação de saciedade (ZALUAR, 1982 apud ROMANELLI, 2006; CANESQUI, 2007).
Por outro lado, legumes, verduras e frutas são considerados alimentos que servem para “tapear” a fome, associam-se à leveza e a não-saciedade. Não se trata de desconhecimento da população sobre o valor nutricional de frutas e hortaliças, mas na sensação deixada por esses alimentos (ZALUAR, 1982 apud ROMANELLI, 2006).
Canesqui (2007) ao rever estudos antropológicos de 1975 a 2005, que trabalharam as categorias alimentares (“quente/frio”, “forte/fraco” e “reimoso”), destaca que os diferentes estudos direcionam o fato de a carne de gado e o feijão preto serem considerados “fortes”, enquanto outros alimentos sofrem variações na sua classificação. Diferentemente do apontado por Romanelli (2006), as comidas ou alimentos considerados “fracos”, são vistos como destituídos de “sustança” e eles demarcam a identidade do ser pobre, sendo expressão simbólica de uma dieta empobrecida e de condição de pobreza.
Outro ponto que pode ser considerado no presente estudo é que o fator econômico também pode ter influenciado na disponibilidade dos alimentos, ainda que esse dado não tenha sido investigado diretamente com as famílias do presente estudo.
O padrão de consumo alimentar é influenciado pela renda e escolaridade (CNDSS, 2008). Claro et al. (2007) ao analisar a influencia da renda e do preço dos alimentos sobre a participação de frutas, legumes e verduras no consumo alimentar das famílias encontrou que a aquisição desses alimentos aumenta com o incremento da renda familiar, aumento no preço dos demais alimentos e diminuição do próprio preço de frutas e hortaliças.
As verduras, carnes, legumes e bebidas são classificados como itens menos necessários para as unidades domésticas estudadas por Canesqui (2005), podendo ser dispensados da dieta e considerados facultativos na provisão do pai de família. Esses alimentos eram adquiridos, pela primeira geração do estudo (anos 1970), segundo a disponibilidade de dinheiro na casa, já na segunda geração (anos 2000) eles são incorporados a partir de compras mensais ou semanais.
Rotenberg e De Vargas (2004) apontam que ao lado da carne, as frutas, verduras e legumes, são os alimentos que mais podem faltar nos domicílios e quando há uma hierarquização dos alimentos, predominam-se os básicos como primeira escolha nas compras. Em dois domicílios foi verificado que o leite recebido como benefício para auxiliar na alimentação das crianças era compartilhado com os outros membros da família, principalmente com as outras crianças do domicílio, conforme se percebe abaixo:
A Lauren estava cortando pedaços de banana, colocou em uma caneca plástica e a mãe disse que amassava para ela, ela trouxe a caneca e a mãe amassou a banana, a filha acrescentou leite (“Leite das Crianças”), açúcar e comeu (Extraído do diário de campo da Paola, criança Isabela, 1 ano e 3 meses). A Silvia disse que o filho não toma um pacote de leite por dia, que é muito para a criança, que então os sobrinhos também tomam esse leite (“Leite das Crianças”), ela falou que não tem problema, porque não vai deixar o leite estragar, que pelo menos assim ela aproveita (Extraído do diário de campo da Silvia, criança Cristiano, 1 ano e 11 meses).
O irmão chegou e logo pediu café e pão para a mãe, a mãe disse que ele come na escola e toma café, ainda, em casa, ele se serviu de café e colocou leite (“Leite das Crianças”), a mãe cortou duas fatias grossas de pão caseiro e ele passou doce e margarina (Extraído do diário de campo da Paola, criança Isabela, 1 ano e 3 meses).
Fato semelhante foi encontrado por Frota e Barroso (2005) quando buscaram compreender como a família convive com a problemática da desnutrição infantil. Nessas famílias foi comum as mães dividirem o leite recebido no posto de saúde com todos os membros familiares.
Os momentos da alimentação da família foram importantes para se observar a disponibilidade de alimentos no domicílio, se existia diferenciação entre a alimentação da criança e da família e como aconteciam as refeições.