Os estudos de língua portuguesa e da literatura dos países onde também se fala português podem, quando bem aprofundados em sala de aula, desempenhar um papel fundamental para a compreensão da formação da cultura brasileira. As análises de seu vasto campo literário trazem à tona o vínculo da memória coletiva que as ex-colônias portuguesas na África têm com o Brasil e evidenciam como a formação histórica e cultural dessas nações está profundamente imbricada entre si.
Ao estudarmos a literatura da Guiné-Bissau, país de ampla diversidade étnica e que passa por uma profunda reestruturação política e identitária, deparamo-nos com sua poesia compromissada com os atuais aspectos políticos e sociais e somos convidados a refletir a respeito do processo de formação da identidade do Brasil, país que, tal como a Guiné-Bissau, foi submetido à colonização portuguesa e incessantemente tem seu quadro de diversidade étnica redesenhado pelas inevitáveis transformações econômicas, políticas e religiosas em que o mundo globalizado se encontra.
Por meio da expressão literária bissau-guineense, fica-nos evidente a grande importância do papel dos escritores do país que, como agentes amalgamadores, comprometem-se a levantar denúncias contra as agruras, injustiças e opressões a que seu povo tem sido submetido. Como bem salientou Amílcar Cabral:
As manifestações culturais adquirem um conteúdo novo e novas formas de expressão. Tornam-se, assim, um instrumento poderoso de informação e de formação política, não somente na luta pela independência mas ainda na batalha maior pelo progresso. (FREIRE, 1984, p. 90).
Esse engajamento literário de muitos poetas bissau-guineenses suscitam oportunidades para que muito da história da África, que ficou encoberta durante o regime colonial e também nos dias atuais, venha à tona e coopere com o encadeamento da cultura, da literatura e da história que entrelaçam o Brasil e a África.
No presente estudo, pudemos constatar que, ao contrário do que muito se apregoa, a África é um continente repleto de criatividade literária a ser compartilhada
pelo mundo e tem lutado arduamente para reescrever sua história e reafirmar sua identidade. Haja vista que muitos poetas bissau-guineenses têm se posicionado face a face aos desafios, em prol do povo.
Algo que, semelhantemente, deve ser trazido como reflexão é o quanto o
status conferido à língua do ex-colonizador realmente representa a necessidade de
um país africano em se posicionar internacionalmente, no que diz respeito ao comércio, às ciências e à literatura. É essencial não deixarmos de ouvir o apelo que muitos intelectuais africanos fazem para que sejam preservados os patrimônios de suas línguas étnicas, principalmente na literatura, a fim de que essas línguas não fiquem preteridas em suas comunidades, correndo-se o risco de perder muito da memória cultural coletiva.
Os estudos de literatura no Ensino Médio no Brasil, tendo em vista a aplicabilidade da Lei nº 10.639 de 9/1/2003 em sala de aula, podem e precisam instruir o jovem a respeito da importância dos estudos da literatura do Brasil vinculada a dos demais países de língua portuguesa, em especial na África, para que tenham acesso a uma história que faz parte da realidade brasileira, a fim de não mais ser perpetuada a equivocada ideia de esvaziamento histórico, cultural e literário dos povos africanos e afrodescendentes no Brasil, como se estes vivessem passivamente à sombra das linhas históricas eurocêntricas.
Em suma, o que precisamos buscar são estratégias para o bom aproveitamento dos estudos literários em salas de aula, que são étnica e culturalmente diversificados, e mostrar aos jovens educandos que não somente os países africanos, mas o Brasil, considerado em muitos de seus aspectos, igualmente precisa reconstruir e resgatar boa parte de sua história e identidade, visando ao bem comum e ao estreitamento de laços culturais, internos e externos.
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ANEXO I