Aristófanes nasceu no distrito urbano de Cítades, aproximadamente em 445 a.C., e costuma-se fixar a data de sua morte nos anos oitenta do século IV. Os dados que possuímos sobre sua biografia são muito escassos. Segundo Albin Lesky, Aristófanes teve três filhos que também foram autores de comédias. Um deles, Araros, foi o responsável por colocar em cena as duas últimas peças escritas por Aristófanes, Cócalos e Eolósicon. (LESKY, 1995: 456).
A participação do comediógrafo na vida pública está registrada numa inscrição do século IV que menciona Aristófanes de Cítades como prítane26 e cada uma de suas peças nos revela a estreita relação que o comediógrafo tinha com a política e literatura de seu tempo, além de uma grande familiaridade com os poetas de Atenas (LESKY, 1995: 455 - 456). Aristófanes viveu em um período em que Atenas estava envolvida na Guerra do Peloponeso e enfrentava uma grave crise política, onde a democracia via-se ameaçada por diversos motivos. Segundo Marvin Perry, “a Guerra do Peloponeso foi a grande crise da história helênica. As
cidades-estados jamais se recuperaram das feridas espirituais que infligiram a si próprias” (PERRY, 1999: 56). Por esse motivo Aristófanes aponta em suas peças tudo o que para ele estava ameaçado por este clima de guerra e insegurança
São atribuídas a Aristófanes quarenta e quatro peças, mas a autenticidade de quatro delas é questionada. Trata-se de Duas vezes náufrago; As Ilhas; Níobos e a Poesia.
26 Prítanes eram cinqüenta buletas de uma tribo, que administravam a polis durante a pritania, ou seja, durante a
décima parte de um ano. Buletas eram membros da Boulé, órgão público que tinha como função essencial a preparação dos decretos da Ecclesia (Assembléia) sobre qualquer assunto submetido ao voto popular (MOSSÉ, 1985: 57 – 60).
Segundo Albin Lesky: “o fato de conservarmos onze dramas de Aristófanes não se deve à
justa valoração dos seus méritos, mas sim aos aticistas, que apreciavam consideravelmente a sua obra por ser a fonte mais pura do atiço antigo” (LESKY, 1995: 456). Mário da Gama Kury acrescenta que em vida Aristófanes não foi devidamente reconhecido por seus contemporâneos, uma vez que apenas três de suas peças foram premiadas nos concursos oficiais: Os Acarnenses, Os Cavaleiros e As Rãs. (KURY, 1995: 15). Todavia, Platão prestou- lhe uma homenagem consagradora ao afirmar que “As Graças procuravam um altar perene;
acharam-no na inteligência de Aristófanes”27. (PLATÃO, apud: KURY, 1995: 16). Essa admiração de Platão pode ser ratificada com a inclusão do personagem Aristófanes no diálogo
O Banquete, onde Platão coloca na boca do comediógrafo uma das passagens mais importante da obra: o mito dos andróginos.
Sua primeira peça, Os Convivas28, foi encenada em 427 a.C. obtendo o segundo prêmio (LESKY, 1995: 456). Nela conta-se a história de um pai que ofereceu educação bastante distinta a seus dois filhos, uma calcada no modelo antigo e outra baseada nos modernos mestres de retórica. Depois apresenta os resultados num agon que os jovens travam diante de si e comprova a decadência da verdadeira educação (LESKY, 1995: 456). O tema da educação, abordado adiante em As Nuvens, já estava polemizada em Aristófanes desde sua primeira obra. Infelizmente Os Convivas é uma das obras de Aristófanes que não se conservaram completas até os nossos dias:
“Uma crítica recorrente na comédia aristofânica era também a que envolvia a geração educada na época do estadista ateniense Péricles e a geração mais jovem, que se servia de técnicas ensinadas pelos sofistas para rejeitar a religião tradicional dos deuses olímpicos, desprezar a lei e contestar a ética dos antigos” (ONELLEY, 2005: 54).
27 Mário da Gama Kury cita este epigrama de Platão a partir do livro Antologia Grega, publicado em Paris no
ano de 1927.
28 O título da comédia Dailetês (427 a.C) aparece em obras de língua portuguesa como Os Convivas, Os
Comilões e Os Celebrantes do Banquete. Em nossa pesquisa, adotaremos Os Convivas sempre que nos referirmos à comédia Dailetês de Aristófanes, por acreditarmos que esta é a melhor tradução do termo.
A comédia aristofânica mais antiga que chegou até os nossos dias é Os
Acarnenses (425 a.C). Os outros títulos conservados são Os Cavaleiros (424 a.C), As Nuvens (423 a.C), As Vespas (422 a.C), As Aves (414 a.C), Lisístrata ou A Greve de Sexo (411 a.C),
As tesmoforiantes ou As mulheres que celebram as Tesmofórias (411 a.C.), As Rãs (405 a.C)
e Pluto ou Um Deus Chamado Dinheiro (388 a.C.), sua última peça conservada. Todavia, As
Nuvens será a única peça analisada nesta pesquisa pois, das obras que nos chegaram completas, é a que trabalha os moldes educacionais vigentes em Atenas no século V a.C.
Assim como hoje a imprensa de oposição oferece aos leitores críticas acerca dos mais variados assuntos, de modo a criar no leitor uma opinião, Aristófanes utilizava-se de suas comédias para incitar o senso crítico em seus espectadores:
“A comédia de Aristófanes, em certos aspectos, tem a função de uma imprensa de oposição. Ao serviço de um certo ideal político (o conservadorismo, o respeito pelos valores, que, ao tempo das guerras Medo-Persas29, tinham feito furor em Atenas,
mas também o respeito pela vida humana, o horror à guerra, o sentimento muito forte dos prazeres da vida), o poeta denuncia tudo o que crê contrário ao interesse da cidade e ao espírito humanista” (GRIMAL, 1978: 61).
Aristófanes viveu de perto o desequilíbrio proveniente da Guerra do Peloponeso (431 a.C – 404 a.C). “No tempo de Aristófanes, a cidade estava ameaçada, declinada,
envolvida numa guerra sem fim” (GRIMAL, 1978: 63). E justamente neste período Atenas envolvia-se em um debate político muito intenso.
29 Guerras Greco-Pérsicas: enfrentamento entre gregos e persas no século V a.C. Em 499 os jônios gregos da
Ásia Menor revoltaram-se contra os persas, que sob liderança do rei Dario I, dominavam a região desde a segunda metade do século VI a.C. Inicialmente os persas venceram os gregos em mais de uma batalha. Todavia, quando tudo indicava que os ânimos gregos estavam desfalecidos, o general ateniense Temístocles derrotou a esquadra persa na baía de Salamina. Em 479 a.C, os espartanos derrotaram os persas na batalha terrestre de Platéias. Segundo Marvin Perry, as Guerras Persas foram decisivas para fortalecer a confiança e o orgulho de Atenas e fortalecer entre os atenienses o desejo de dominar a Hélade. As Guerras Greco-Pérsicas marcaram o início do imperialismo ateniense e a insatisfação nas cidades-Estado dominadas por Atenas, que mais tarde culminaria na Guerra do Peloponeso (PERRY, 1999: 51 – 52).
Aristófanes se apropria da temática sexual, de palavras ofensivas e por vezes imorais para reforçar o caráter cômico de suas peças. Contudo, conforme afirma Albin Lesky, muitas vezes a franqueza com que o comediógrafo trata o sexo é intolerável ao homem moderno, mas a comédia aristofânica é imprescindível sem esta temática. É preciso compreender historicamente a elaboração de tais peças para que estas não sejam alvo de preconceito por parte dos leitores atuais (LESKY, 1995: 472).
As comédias eram celebradas dentro dos rituais carnavalescos dionisíacos, que de acordo com Alexandre Lima, proporcionavam uma relaxação das normas e a subversão do sistema políade (LIMA, 2000: 18). Associada a esta liberação garantida pelas festividades dionisíacas estava a tarefa da comédia de criticar os assuntos públicos e denunciá-los à platéia. Segundo Jaeger:
“Na comédia literária, tal como a conhecemos em Aristófanes, fundem-se os elementos mais diversos provenientes das mais antigas festas dionisíacas (...) As vestes fálicas dos atores e os disfarces do coro, especialmente por meio de máscaras de animais – rãs, vespas, pássaros – provêm de uma antiqüíssima tradição, pois já se encontravam presentes em velhos autores cômicos, em que esta memória se mantém bem viva (...) (JAEGER, 1986: 289).
Após avaliarmos o papel do teatro, a vida e a obra de Aristófanes e entendermos a função da comédia em Atenas durante o século V a.C, partimos para a análise da peça As
Nuvens, afim de entendermos qual a visão do comediógrafo acerca da relação entre erastas e erômenos.