No âmbito da análise crítica do discurso, a linguagem é considerada como uma prática social. Nesse sentido, o contexto torna-se aspecto crucial para estudos inerentes a questões como domínio, controle e poder, relacionadas à questão hegemônica do discurso. Essa é a maneira de conceber a AD com base na tradição anglo-saxônica de Fairclough (1989, 1995, 2003, 2008), a qual será acomodada neste estudo.
Segundo Silva & Ramalho (2008), a Análise do Discurso Crítica (ADC) foi introduzida no Brasil em 1993, por meio da investigação de Magalhães (2001), realizada na Universidade de Brasília (UnB), fortalecendo-se em 1996 com a publicação do livro “Texts and practices: readings in critical discourse analysis”, organizado por Caldas-Coulthard e Coulthard, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Birminghan University, respectivamente.
A ADC, desenvolvida por Fairclough (2008), considera o texto, a interação (prática discursiva) e a ação social (prática social) como dimensões do discurso. A atividade crítica a que esse autor se refere consiste na capacidade de fazer emergir a natureza interligada das coisas. Nesta perspectiva, o texto é entendido como linguagem escrita ou falada que contribui para a transformação social, para a composição de identidades e relações sociais, bem como para compor um sistema de conhecimento e de crença (Halliday, 2004).
Nesta abordagem, a prática discursiva se realiza por meio da linguística. Ou seja, refere-se à utilização da linguagem nos procedimentos de elaboração, distribuição e consumo dos textos. Já prática social guarda relação com significado e construção da realidade (ideologia) e relações de dominação (poder). Segundo Fairclough (2008), as formações discursivas mantêm integração com outras formações discursivas por meio da interdiscursividade, afetando os sujeitos de maneira inconsciente e criando uma percepção utópica de que eles são fontes de sentidos. Todavia, esse entendimento de discurso como prática social, além de determinar uma maneira de os indivíduos agirem no mundo e sobre outros indivíduos, é também uma forma de representação social.
Wodak (2010) ressalta que a ADC considera o discurso, situado em tempo e espaço, como uma estrutura construída por meio da dominação institucionalizada por grupos poderosos. Portanto, favorece a análise das pressões e da resistência que emergem em forma
de convenções sociais. Tanto os discursos gerais quanto aqueles que se originam de disciplinas específicas que possuem enunciados específicos (discursivos e não discursivos), são modelados e alterados por estruturas sociais, as quais influenciam e sofrem influência desse discurso, estabelecendo, assim, uma relação dialética.
Fairclough (2008) se apropria das concepções de poder do discurso e agrega às concepções de ideologia e hegemonia, propiciando a implementação de um salutar avanço interpretativo para esta abordagem de análise, sobretudo no que diz respeito à ideologia.
A investigação do discurso como prática social é feita a partir de um conceito de discurso ao qual se relacionam “ideologia” e “poder”. Fairclough (2001:116) situa o discurso numa perspectiva de poder como “hegemonia” e de evolução das relações de poder como luta hegemônica. Para tanto, toma partido dos conceitos de hegemonia e poder conforme apresentados por Gramsci (1971) e de ideologia tomando por base o conceito de Althusser (1971); entretanto, problematiza-o por não dar atenção à resistência, à luta e à transformação. Permeia a proposta teórica faircloughiana a premissa de que as situações opressoras podem ser mudadas, uma vez que são criações sociais e, como tal, passíveis de transformações sociais.(Barros, 2008).
Compreendemos que a proposta faircloughiana se aproxima da proposta de hegemonia anunciada por Laclau e Mouffe em função da perspectiva de mutação e não perenidade decorrente das criações sociais propiciadas por meio dos discursos – em Gramsci a hegemonia há certa estabilidade hegemônica em função do poder coercivo do Estado. A instituição da desigualdade e da discriminação são objetos de análise da ADC, uma vez que seus estudiosos entendem que o discurso é meio de estabelecer relações de poder e dominação social. Nesta tese, consideramos que o discurso científico evidenciado nos textos de artigos da área contábil tem o poder de estabelecer uma hegemonia ideológica, reprodutora de uma maneira homogênea e pouco crítica de pensar e fazer ciência.
Ao tratar sobre a utilização da Análise Sociológica do Discurso (ASD) no contexto contemporâneo, Fairclough (2008, p. 272) ressalta que “uma das justificativas para uma abordagem da análise do discurso centrada na intertextualidade e na interdiscursividade, e noções associadas, tais como heterogeneidade e ambivalência do discurso, é que as ordens do discurso contemporâneas são cheias de semelhantes textos híbridos” – fato marcante quando nos referimos a textos científicos da área contábil, como os que nos propusemos a analisar.
A ASD de Fairclough (2008) foi, então, adotada como prática metodológica para essa investigação em virtude de suas concepções convergirem com aquelas inerentes à hegemonia do discurso empreendidas por Laclau & Mouffe (1987). Em outras palavras, pode-se afirmar que a teoria do discurso hegemônico estabelecida por meio da prática discursiva (Laclau & Mouffe, 1986) vai ao encontro do discurso como prática social em Fairclough (2008). Parte-se da concepção de que o discurso e o contexto social interagem, dialeticamente, em um
ambiente contemporâneo complexo e dinâmico, produzindo as identidades e impossibilitando a fixação de um sentido a esse discurso.
O discurso como prática social em Fairclough (2008) contribui sobremaneira para a constituição das identidades. Essas identidades são elementos que podem se manter vinculados à formação discursiva hegemônica por meio da prática articulatória, ou isolados da estrutura discursiva, constituindo o contra-hegemônico (Laclau & Mouffe, 1987). Além dos aspectos descritos, a ASD oferece dimensões e categorias de análise, verbal e não verbal, algumas das quais foram exploradas para o alcance do objetivo geral desta pesquisa.