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5 Brospennet fra fengsel til frihet

6.3 Hvor bør ansvaret ligge?

É importante lembrar, desde o início deste subitem, que, para Winnicott, o complexo de Édipo é considerado um estágio do amadurecimento humano que indica saúde. Segundo Winnicott, uma criança só pode vivenciar as ansiedades desse estágio edípico se ela alcançou a identidade unitária. O autor escreveu:

23 No texto “O primeiro ano de vida” (1958j) Winnicott escreveu: “A mãe é capaz de desempenhar esse papel se sentir-se segura; se sentir-se amada em sua relação com o pai da criança e com a própria família; e ao sentir-se aceita nos círculos cada vez mais amplos que circundam a família e constituem a sociedade” (1958j, p. 3).

66 Se vemos saúde como a ausência de doença neurótica (descontada a hipótese de doença psicótica), então a saúde se estabelece na organização do primeiro relacionamento triangular onde a criança é impulsionada pelos instintos de natureza genital recém-surgidos, característicos do período entre 2 e os 5 anos. É desta forma que, pessoalmente, interpreto o complexo de Édipo freudiano para os meninos e o que quer que lhe corresponda nas meninas (Édipo invertido, complexo de Electra, etc.). Acredito que alguma coisa se perde quando o termo “complexo de Édipo” é aplicado à etapas anteriores, em que só estão envolvidas duas pessoas, e a terceira pessoa ou o objeto parcial está internalizado, é um fenômeno da realidade interna. Não posso ver nenhum valor na utilização do termo “complexo de Édipo” quando um ou mais de um dos três que formam o triângulo é um objeto parcial. No complexo de Édipo, ao menos de meu ponto de vista, cada um dos componentes do triângulo é uma pessoa total, não apenas para o observador, mas especialmente para a própria criança. (1990, p. 67)

No caso Piggle, é fundamental que o leitor conheça o que o autor escreveu sobre o complexo de Édipo. A problemática do caso certamente envolveu questões edípicas, porém, essas questões não são consideradas por Winnicott como estruturantes da personalidade. Isso fica muito claro no caso de Gabrielle, pois, desde o início, Winnicott a considerou como uma menina saudável. As tarefas que seriam estruturantes para Gabrielle referiam-se à conquista do eu-não-eu, da integração da mãe real com a mamãe preta e da integração da agressividade pessoal.

Uma das primeiras referências de Winnicott no relato do caso sobre o complexo de Édipo está em uma carta da mãe, após a segunda consulta, na qual a mãe comentou com Winnicott que Gabrielle havia se queixado de que seu “pipi” estava doendo. A mãe lhe disse que era porque ela havia coçado e Gabrielle respondeu que sim e que isso fazia com que ela ficasse com medo e preta também. A menina disse ainda que sonhou com a mamãe preta fazendo um creme com passas para ela e logo em seguida disse: “estou com raiva do papai. Porque eu gosto muito dele”. Winnicott comentou na lateral: “excitação erótica e fantasias edipianas” (1977, p. 41).

Na ocasião da terceira consulta, Gabrielle trouxe um bebê e brincou de trocar fraldas e alimentá-lo. Winnicott comentou que “seu bebê (a boneca) deu-lhe lugar como uma menina com identificação com a mãe = eu (self)”. (1977, p. 53). Sobre esta questão, Dias (2003) escreveu que “as fantasias relacionadas com a genitalidade completa – o ser penetrada, a gravidez, o amamentar etc. – que ainda são concretamente longínquos, aparecem associadas, em jogos e nos sonhos, à capacidade da menina de identificar-se com a mãe e com a mulher” (Dias, 2003, p. 281).

67 Winnicott observou, na quarta consulta, que Gabrielle fez um comentário que o levou a pensar nos termos de um flerte. Ela perguntou para Winnicott se ele ouviu o rouxinol e ele comentou: “romance, flerte. Transferência” [flirtatious romance: father transference] (1977, p. 60). O autor observou a amor da menina pelo pai, típico do estágio edípico.

Ainda na quarta consulta, Gabrielle disse que estava crescendo e ficando grande. Disse também que havia uma senhora bonita esperando por um carro, “uma senhora boa para vir buscar as crianças. A mamãe preta é ruim” (1977, p. 61). Winnicott percebeu que Gabrielle ficou ansiosa no momento em que associou seu crescimento ao aparecimento da mamãe preta e comentou: “manifestação da ansiedade devido provavelmente aos medos edípicos” (1977, p. 61).

Nessa quarta consulta, Winnicott introduziu o tema da “mãe ciumenta”. Gabrielle estava chupando o polegar do pai e Winnicott disse para ela que ela queria o pai só para ela, e queria com isso fazer a mamãe ficar preta. Foi quando Gabrielle disse: “mamãe quer ser a menininha do papai” (1977, p. 63). Winnicott comentou: “Desenvolve-se tema alternativo com o pai como o pai e o analista como mãe ciumenta” (1977, p. 61) e “a ideia em evolução da mamãe ficando com raiva de Gabrielle por ser a menininha do papai – sobrepondo-se à ideia da raiva de Gabrielle com relação aos novos bebês nascidos do papai” (1977, p. 65).

É interessante observar como questões edípicas levam Winnicott a refletir sobre outras questões, como por exemplo, no caso desse trecho de sessão, sobre o tema da expressão da raiva, da comunicação, da percepção de pessoas inteiras. De acordo com Winnicott: “essa liberação da fantasia levou a uma liberdade maior na comunicação e na exploração de mau, de preto, de destruidor, e de outras ideias” (1977, p. 64). Nessa citação, o comentário de Winnicott:

Achei que era possível ver nisso uma capacidade crescente para deixar as pessoas representarem as figuras básicas de pai-mãe, e que aquela observação se referia à maneira como ela usava a mim e ao pai de acordo com a sua vontade, de tal forma que trocávamos os papéis à medida que o jogo se modificava. Em outras palavras, o que importava era a comunicação – e experiência de ser compreendida. Atrás de tudo isso, o sentimento de segurança com relação ao pai e à mãe reais. (1977, p. 64)

Na décima-primeira consulta, Gabrielle pediu para Winnicott desenhar em uma lâmpada e ele desenhou o rosto de um homem. Gabrielle disse: “um pipi grande como um seio” e perguntou também “o que é isso? O que é isso?”. Winnicott disse à ela que ela estava com raiva do pipi do homem e que o homem não deveria ter aquilo. Então Gabrielle disse: “o

68 homem é um grande ladrão; ele é terrível”. Winicott anotou na lateral: “inveja do pênis” (1977, p. 128). Para Winicott, a inveja do pênis como fonte de motivações poderosas na menina não pode ser ignorada, apesar disso, ele afirmou que existe uma fantasia e uma sexualidade femininas básicas que têm sua origem na mais remota infância. Winnicott escreveu que, décadas atrás, não havia lugar para outra coisa sobre a genitalidade feminina que não fosse a ideia do macho castrado.

No relato do caso há inúmeras evidências de que Gabrielle estava passando pelo estágio edípico e pela fase genital, Winnicott fez vários comentários desse tipo: “Piggle desempenhando o papel de mãe” (1977, p. 38), “referência a masturbação clitoriana” (1977, p. 42), “símbolo de desespero de ficar grávida como um adulto” (1977, p. 47), “preferência por ideias genitais a ideias de gravidez pré-genital” (1977, p. 51), “progressão dos seios da mãe para o pênis do pai” (1977, p. 71), “masturbação com fantasia de uma forma de relações sexuais entre as pessoas” (1977, p. 78), “mamãe preta: são rivais com relação à cama, conceito de ser „maldosa‟” (1977, p. 109), “a caminho da masturbação” (1977, p. 115), entre outros. Essas são algumas evidências teóricas de que Gabrielle estava amadurecendo suas ideias sobre sua sexualidade e vivenciando o estágio edípico.