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In document Skildringer av klassereiser (sider 69-72)

À medida que o campo educacional se estrutura, ele influencia o campo editorial que, por sua vez, reage sobre o primeiro, de modo que eles mantêm relações de interferências mútuas e relativas às especificidades de cada posição no campo intelectual6. Se, por um lado,

o campo educacional é dominante num momento de formação do público leitor, ou seja, de alfabetização, por outro lado, o campo editorial se autonomiza à medida que a escolarização básica se completa e as possibilidades de escolha da política editorial e do público alvo se ampliam. As publicações existentes antes da estruturação do sistema educacional na Terceira República estavam restritas à lógica da publicação erudita, ou seja, eram diretamente dependentes do campo social e, nele, das posições dominantes. A partir da estruturação do ensino primário, secundário e universitário, as editoras se especializaram para atender, em primeiro lugar, a enorme demanda por manuais escolares e de preparação para concursos diversos: a Hachette, a Armand Colin e a Félix Alcan se dividiram para atender, respectivamente, o ensino primário, secundário e universitário. Apesar das três editoras ocuparem posições próximas, elas se diferenciaram enormemente pelo volume do capital e da estrutura do negócio. Para se ter uma idéia da diferença de tiragens, uma edição na Hachette poderia chegar a milhões de exemplares em poucos anos, caso do manual escrito pela Sra. Fouillée7, enquanto uma edição universitária na Alcan geralmente não alcançava mais do que 1.200 exemplares nos primeiros dez anos após a publicação. Os grandes best-sellers na Alcan poderiam atingir, em dez anos, a marca de 10.000 exemplares vendidos, como é o caso de La

psychologie des foules (1895), de Gustave Le Bon.

O ensino primário universal elevou rapidamente o número de leitores: no fim do século, 95% dos franceses, tanto no campo quanto na cidade, estavam alfabetizados, fazendo com que o crescimento do mercado se fizesse tanto na direção de nichos específicos quanto na direção da massa de leitores médios8. Conforme afirma Mollier, a leitura de jornais, revistas ou livros foi significativamente aumentada nos primeiros anos da República em razão do investimento governamental em educação. Isso significa que a exigência de um menor ou maior capital cultural específico tornou-se, a partir de então, um critério fundamental para se

6 “A edição científica segue a evolução das estruturas do ensino superior. (...) O surgimento progressivo da

universidade atual sob a Terceira República faz brilhar esse mercado que sai de seu quadro confidencial para atingir um público mais largo”, TESNIÈRE, Valérie, Le Quadrige, op. cit., p. 217.

7 Mulher de Alfred Fouillée, Augustine Tuillerie (que assinava G. Bruno em homenagem a Giordano Bruno)

se tornou famosa escritora de manuais escolares com o célebre Le tour de la France par deux enfants (Paris, Eugène Belin, 1877), que vendeu três milhões de cópias nos dez primeiros anos de publicação.

8 CRUBELLIER, Maurice, in CHARTIER, Roger – MARTIN, Jean-Henri (éds.), Histoire de l’édition française,

compreender as posições no campo da edição e, particularmente, no da edição científica, recortado, de um lado, pela edição de vulgarização e, de outro lado, pela edição especializada.

É importante qualificar o termo “vulgarização”, pois ele passou a ter, a partir da década de 70, uma conotação pejorativa, pois usado para significar a edição de baixa qualidade; por outro lado, adotou-se o termo “popularização” no sentido de uma publicação de qualidade para um público não especializado. Pretendia-se, com isso, encontrar um espaço entre a vulgarização stricto sensu, caracterizada por autores provenientes do meio jornalístico, pela simplificação do conteúdo e pela utilização excessiva de imagens, e a publicação erudita ou especializada, ligada às antigas sociedades científicas e voltadas a um público restrito9. As coleções Bibliothèque Scientifique Internationale, da Germer Baillière, e Bibliothèque des Sciences Contemporaines, de Reinwald (futura Schleicher Frères), foram as primeiras a investir na publicação científica de qualidade para um público não especialista e uma de suas principais características foi o fato dos autores serem homens de ciência e não mediadores culturais10.

No campo das ciências sociais, as publicações se posicionaram em sua maioria exatamente nesse nível intermediário, ou seja, entre as publicações dominantes (eruditas ou especializadas) e as dominadas (jornalísticas ou escolares). Se recortarmos o campo editorial a partir de um eixo vertical, o lado esquerdo representando a refração do campo social e o direito do campo educacional e, além disso, traçarmos planos horizontais para dividir as posições mais dominantes e mais dominadas, é possível representar o campo editorial da seguinte forma: DOMINANTES CAMPO SOCIAL Erudito Profissional-Técnico Jornalístico CAMPO CULTURAL Especializado Pedagógico-Político Manuais Escolares DOMINADOS

As publicações do lado esquerdo do quadro tendem a ser, portanto, não mediadas pelo sistema educacional, enquanto as publicações à direita são mais dependentes dele,

9 A publicação de vulgarização científica era composta principalmente por manuais diversos, dicionários,

ensaios de atualidade, artigos na grande imprensa e breviários.

respectivamente do ensino primário, secundário e superior. As publicações na área de ciências sociais tiveram início nos anos setenta e conquistaram uma relativa autonomia no fim do século, quando elas se diferenciaram em vários gêneros: especializadas, generalistas e comerciais. As publicações que visavam atingir um público medianamente culto, de caráter profissional ou militante, mantinham uma posição difícil, dado que não tinham o prestígio mundano ou simbólico das publicações eruditas e especializadas (posições dominantes), nem os ganhos materiais das publicações comerciais (posições dominadas). Esse nível intermediário foi ocupado pelas iniciativas de René Worms e dos herdeiros de Le Play, sob a rubrica “profissional-técnico”, e pelas instituições de Dick May, sob a rubrica “pedagógico- político”.

Algumas das polarizações que marcaram as posições dominantes em ciências sociais se materializaram através da edição de revistas. A Revue des Deux Mondes (1836), a Revue Philosophique (1876) e L’Année Sociologique (1898), fundadas em momentos distintos do século, competiram pela legitimidade intelectual no campo, pois representavam temas ou áreas do conhecimento de prestígio diferenciado  respectivamente, literatura/política, filosofia/psicologia e sociologia/etnologia e, mais do que isso, grupos sociais distintos  desde a nobreza e a alta burguesia culta até a média burguesia intelectual. A Revue des Deux Mondes, dominante no campo social, passou a sofrer nova concorrência, em primeiro lugar, da Revue Philosophique e, posteriormente, de L’Année Sociologique, ambas críticas do diletantismo das revistas burguesas. Se a entrada da Revue Philosophique no campo representou a polarização entre a literatura de salão e a psicologia científica, a entrada de L’Année Sociologique inaugurou uma segunda tensão, entre moral e ciência ou entre filosofia e sociologia. O campo das ciências sociais se profissionaliza, portanto, sob o domínio da filosofia, o que relegou a sociologia de L’Année à posição dominada no campo dominante; por sua vez, a revista de Durkheim respondeu com críticas impiedosas às ciências sociais “diletantes”, o que lhe rendeu a perda do apoio de gente importante na política e na própria academia.

Nas posições dominadas intelectualmente, tais como a edição científica comercial, o desenvolvimento editorial também foi intenso na segunda metade do século XIX. A queda no preço das publicações foi conseqüência da profissionalização da edição, da modernização dos métodos de trabalho, da revolução na impressão gráfica e de nova política editorial, principalmente com a criação de coleções, catálogos e a venda por fascículos a preços

populares11. O critério de Parinet estabelece que deva ser considerada edição “popular”, ou seja, para o grande público, obras cujo preço não ultrapassasse, em moeda da época, 1 fr., bem como as que tinham tiragem acima de 10.000 exemplares12. Por oposição, uma edição de luxo poderia custar até 60 fr., principalmente as obras ilustradas, com papel e encadernação sofisticada. No caso da edição de ciências sociais, os preços variaram, nesse período, de 2,50 fr. a 14 fr., a média girando em torno de 6 fr. As principais temáticas eram de curiosidade popular, de informação geral e de aventura, tais como astronomia, geografia, saúde e história13. Numa área que se poderia chamar de ancestral das ciências sociais de vulgarização, o grande sucesso foi a publicação de “histórias das civilizações”, juntamente com dicionários ilustrados de culturas e povos exóticos. Não é por acaso que a carreira de Le Bon de escritor de vulgarização teve início com obras sobre a história das civilizações orientais.

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