Dois mil e quinhentos anos nos separam das centenas de tragédias, compostas por dezenas de poetas, e representadas no século V a.C. Destas. foram conservadas somente 32 peças 199 de três autores, que permanecem vivas até hoje e são em sua maior parte fundamentais para nossa civilização. Desse total, sete são de Ésquilo, sete de Sófocles e dezoito de Eurípides.
A seleção das obras conservadas era feita, provavelmente, pelo estabelecimento de compilações de peças escolhidas a princípio por eruditos alexandrinos, conforme critérios
197 Jean-Pierre VERNANT; Pierre VIDAL-NAQUET, Mito e Tragédia na Grécia Antiga, p. 150. 198 Jean-Pierre VERNANT, Entre Mito e Política, p. 364.
199 Eis a cronologia das diversas tragédias conservadas: Ésquilo: Os persas (472), Os sete contra Tebas (467), As
suplicantes (depois de 468, provavelmente em 463), Prometeu acorrentado (data desconhecida, autenticidade contestada), A Oréstia: Agamêmnom, As coéforas e As Eumênides (458); Sófocles: Ájax (data desconhecida), As
traquínias (data desconhecida), Antígona (442), Édipo-rei (talvez em torno de 420), Electra (sem data),
Filoctetes (409), Édipo em Colona (401); Eurípides: Alceste (438), Medeia (431), Os heráclidas (entre 430 e 427), Hipólito (428), Andrômaca (provavelmente em torno de 426-424), Hécuba (em torno de 424), As
suplicantes (entre 424 e 421), Héracles furioso (entre 420 e 415), Íon (entre 418 e 414), As troianas (415), Electra (413), Ifigênia em Táurida (entre 415 e 412), Helena (412), As fenícias (410 – data provável), Orestes (408), Ifigênia em Áulis (após sua morte), As bacantes (após sua morte), Reso (data desconhecida, autenticidade contestada). Cf. Jacqueline de ROMILLY, A tragédia grega, p. 8.
estéticos ou escolares: peças da maturidade dos poetas que traziam relações temáticas entre si ou que permitiam analogias entre os três grandes tragediógrafos.
Os maiores expoentes da tragédia grega foram de fato Ésquilo (525-456 a.C.), Sófocles (495-405 a.C.) e Eurípides (480?-406/405 a.C.). Trata-se de uma parte diminuta da produção, uma vez que Ésquilo, acredita-se, teria composto noventa tragédias, e Sófocles mais de cem (Aristófanes de Bizâncio menciona 130, sete das quais passam por inautênticas). Por fim, Eurípides foi o autor de 92, das quais 67 ainda seriam conhecidas à época em que foi escrita sua biografia 200.
A produção trágica grega, iniciada com a encenação de Os persas (472), de Ésquilo, alcança seu momento culminante no século V a.C., e é encerrada com a apresentação póstuma de Édipo em Colona (401), de Sófocles.
Em 480 a.C., durante a Segunda Guerra Médica 201, acontece a batalha naval de Salamina. Apesar da inferioridade numérica, a frota ateniense inflige uma derrota decisiva sobre os invasores persas. Certa tradição liga essa façanha guerreira aos três principais poetas trágicos gregos: Ésquilo, com 45 anos, participa do combate; o jovem Sófocles dirige o coro dos efebos que celebra a vitória; Eurípides, contam, nasce nessa ilha no mesmo dia da batalha. Essa tradição enfatiza que o teatro grego foi colocado sob o signo da guerra: primeiro, contra os persas e, depois, a dos gregos entre si, na Guerra do Peloponeso, e estabelece uma relação cronológica entre os três autores trágicos, considerados desde a Antiguidade os maiores e os únicos de que temos peças completas. Existem raros fragmentos dos predecessores de Ésquilo, como Frínico, relata Pascal Thiercy 202.
Os concursos dramáticos – tragédias e comédias – se desenrolam por ocasião de duas festas religiosas consagradas a Dioniso, deus do vinho e do teatro: as Leneanas, menos prestigiosas, no fim de janeiro e começo de fevereiro, e as Grandes Dionísias, ou Dionísias urbanas, celebradas no final de março e início de abril. O primeiro concurso trágico acontece em 534. Frínico, cujos cantos harmoniosos são, durante muito tempo, populares em Atenas, obtém sua primeira vitória entre 511 e 508. Esse autor é tido como o introdutor de personagens femininos nas peças e a compor tragédias sobre temas históricos, como A tomada
de Mileto (492) e As fenícias (476). A primeira peça lembra a revolta daquela cidade grega da
200 Cf. Jacqueline de ROMILLY, A tragédia grega, pp. 9-10.
201 Relativo à Média, região da Ásia incorporada ao Império Persa. As Guerras Médicas correspondem as
campanhas de 490 (Primeira Guerra Médica) e de 480-479 a.C. (Segunda Guerra Médica), que opuseram os gregos ao Império Persa. Cf. Pascal THIERCY, Tragédias gregas, p. 11.
Jônia contra os persas em 494, portanto, dois anos antes de sua encenação, e a repressão que se seguiu. Comoveu muito o público e chegou a ser interditada.
Quatro anos após a vitória grega em Salamina, em 480, Frínico é agraciado com o primeiro prêmio com As fenícias, em que o coro de mulheres de Sídon, atual Líbano, cidade aliada dos persas, lamenta a derrota de Xerxes. Assim, As fenícias anunciam Os persas, de Ésquilo, encenada quatro anos mais tarde.
Porém, o poeta ateniense Téspis costuma ser mencionado como o inventor da tragédia, pois, anteriormente, na metade do século VI a.C., teria acrescentado a fala ao canto do ditirambo – espécie de balé, de poema cíclico cantado e dançado por um coro em honra de um herói ou de um deus –, e encarregado um ator de recitar o “prólogo” e a “narração.” 203
Uma tragédia grega é composta em versos cuja variedade é determinada por um arranjo de combinações possíveis de sílabas curtas e longas. Não há atos, mas uma alternância de partes faladas pelos atores ou pelo corifeu 204, e de partes líricas cantadas pelo coro. As
partes faladas, chamadas episódios, consistem em diálogos escritos geralmente em trímetros iâmbicos – versos de três pés, com uma unidade breve seguida de uma longa; seu número varia de dois a cinco. Os cantos do coro são denominados estásimos, ou stasimon – palavra grega que significa “canto em movimento”. Há numerosos cantos e danças confiados ao coro, aos atores ou aos solistas. Um tocador de aulos – instrumento de sopro semelhante ao oboé ou à clarineta de duplo tubo – ingressa juntamente com o coro e faz o acompanhamento musical da peça; outros instrumentos de corda, como a lira e a cítara, ou de percussão, especialmente o tambor e o crótalo – espécie de castanhola –, podem eventualmente ser usados. As danças do teatro trágico são, sobretudo, a emelia, bem gestual e lenta, que acompanha o stasimon, e o hiporquema, bem mais ritmado e dinâmico 205.
A estrutura habitual da tragédia consiste de um prólogo, que expõe a ação ou o desfecho, seguido do párodo – entrada do coro –, dos episódios, que são separados por estásimo, e do final ou êxodo, que, tradicionalmente, se inicia após o último estásimo. A duração desses elementos é muito variável e o esquema tradicional não dá conta da variedade das partes cantadas, pois não raro um ator se une ao coro, ou vice-versa, para compartilhar, por meio do canto, uma emoção comum. Esse canto dialogado chamava-se kommos, derivado
203 Cf. Pascal THIERCY, Tragédias gregas, p. 12.
204 Corifeu é o chefe do coro, ou seja, dos coreutas que são amadores. Cf. Pascal THIERCY, Tragédias gregas,
p. 14.
do verbo koptô, que significa “bater”, pois, na origem, à medida que se cantava, batia-se a mão no peito, simultaneamente, em sinal de luto 206.
Dentre os diversos cantos das celebrações dionisíacas, destaca-se o ditirambo – canto lírico composto por elementos alegres e dolorosos que, além de narrar os momentos tristes da passagem de Dioniso pelo mundo mortal e seu posterior desaparecimento, exprime, de forma exuberante, uma quase intimidade dos homens com a divindade que possibilita àqueles atingir o êxtase.
Esse canto em coro acaba por se definir como trágico e dele resulta a tragédia: representação viva feita por atores que narram os fatos acontecidos no plano mítico e que, ao problematizarem a situação do herói, discutem os valores fundamentais da existência humana. A princípio, o coro cantava em uníssono, mas, progressivamente, “foi-se dividindo em duas seções, cada uma das quais perguntava e respondia à outra alternadamente. Esse diálogo, porém, ainda não tinha caráter dramático” 207. Cabia ao corifeu – membro destacado do coro
que podia cantar sozinho – coordenar esse diálogo.
Para responder às perguntas dos coreutas e dos cantores fez-se, então, necessário introduzir uma nova figura, a do exarconte. Este se distingue como uma voz autônoma em relação ao canto coletivo e torna-se um elemento indispensável do ditirambo. Novas funções são incorporadas ao seu ofício com o transcorrer do tempo, dentre elas a representação. E, nesse momento, o exarconte passa a se chamar hypokritès – “aquele que finge” –, ou seja, ator.
Os temas do ditirambo, bem como os da tragédia, estão vinculados, de início, com a lenda de Dioniso e raramente eram extraídos da história. Mais tarde, seu âmbito se estende para toda a mitologia. As máscaras são igualmente substituídas a partir dessas transformações: máscaras humanas passam a ocupar o lugar das máscaras animalescas dos sátiros.
O número de atores também sofre alterações com o desenvolver da tragédia. Téspis, o mais antigo tragediógrafo que conhecemos, utiliza apenas um ator que recita e um coro que canta. Em Ésquilo, posteriormente, esse número dobra e, além do protagonista, surge o deuteragonista para reforçar a dramatização. A partir da época de Sófocles, os papéis se distribuem em três e se faz presente a figura do tritagonista. Uma relação hierárquica é estabelecida à medida que o número de atores aumenta: o protagonista (primeiro ator) ocupa o papel de personagem principal; o deuteragonista (segundo ator) a posição de opositor ao protagonista; o tritagonista (terceiro ator) desempenha os terceiros papéis da tragédia. Cada
206 Cf. Pascal THIERCY, Tragédias gregas, pp. 14-15. 207 Victor CIVITA, Mitologia, p. 771.
um dos três atores podia desempenhar diversos papéis mediante o tradicional recurso das máscaras, nessa fase da dramaturgia. Com esse conjunto, o teatro grego adota a sua forma acabada de espetáculo.
O grande interesse que a tragédia vai despertando seguido de uma intensificação da produção teatral são os fatores responsáveis pela introdução, nas Grandes Dionísias Urbanas, de um concurso de tragédias – evento instituído oficialmente por Pisístrato e patrocinado pelo Estado. A própria cidade, a polis, se incumbe dos preparativos para a sua realização. Cabe salientar que essa regulamentação das representações teatrais, em uma das festas mais populares, apresenta forte cunho político, pois, como já dissemos, é o apoio popular que está em jogo.
Das Leneanas participam apenas dois dramaturgos, com duas peças cada um; já nas Grandes Dionísias cada um dos três autores trágicos apresenta uma tetralogia, composta de uma trilogia trágica e um drama satírico de um autor previamente selecionado 208. Têm-se,
portanto, três trágicos em competição. As apresentações do festival ocorrem em três dias consecutivos e a cada dia é apresentada uma tetralogia. A trilogia pode ilustrar um único mito – como A Oréstia, de Ésquilo – e, nesse caso, é chamada de trilogia ligada, ou ser formada de elementos independentes, o que é mais frequente.
Durante a organização do concurso, um cidadão considerado o mais importante de Atenas, chamado de arconte – magistrado da Grécia Antiga que, antes de Sólon, detinha o poder de legislar e, depois, tornou-se um simples executor de leis–, designa para cada autor , um corega, que será o responsável pelas representações. Ao corega delegam-se, às suas expensas, a função de escolher os jovens coreutas que formam o coro, os atores – apenas pessoas do sexo masculino –, e o ensaio de ambos.
Todo o povo de Atenas, as mulheres, os escravos e até mesmo os estrangeiros são convidados a assistir ao concurso: “Por consequência, o espetáculo revestia-se do carácter de uma manifestação nacional.” 209 A entrada é cobrada, porém, para aqueles que não podem pagar, o Estado se responsabiliza pelas despesas e ainda contribui com uma quantia em dinheiro para o pagamento dos dias de trabalho.
Ao fim do festival, um tribunal, que funcionava como o tribunal de Atenas e cujo corpo era formado por indivíduos representantes das diferentes tribos, decide quem ocupará o
208 No drama satírico, os temas míticos eram tratados de forma divertida, por meio de um coro de sátiros
conduzido por Sileno, um dos filhos de Pã – ou Hermes –, que havia educado Dioniso. Cf. Pascal THIERCY,
Tragédias gregas, p. 13.
primeiro, o segundo e o terceiro lugar: “A decisão era assim a expressão do corpo cívico em seu conjunto.” 210 O poeta vencedor era coroado com uma coroa de hera, a planta sagrada de Dioniso.
Não podemos deixar de enfatizar como o vínculo entre as esferas da religião cívica, do político e do social prossegue fortemente na tragédia. Ao comentar sobre o laço do Estado com a tragédia, Vernant e Vidal-Naquet afirmam:
A tragédia não é apenas uma forma de arte, é uma instituição social que, pela fundação dos concursos trágicos, a cidade coloca ao lado de seus órgãos políticos e judiciários. Instaurado sob a autoridade do arconte epônimo, no mesmo espaço urbano e segundo as mesmas normas institucionais que regem as assembleias ou tribunais populares, um espetáculo aberto a todos os cidadãos, dirigido, desempenhado, julgado por representantes qualificados das diversas tribos, a cidade se faz teatro, ela se toma, de certo modo, como objeto de representação e se desempenha a si própria diante do público. 211