PIETRO UBALDI E A IGREJA
Da revista Alba
Spirituale – nº3, março de 1948. A Congregação do Santo Ofício, com o decreto de 8 de novembro de 1939, condenou e colocou no "Index" as duas maiores obras de Pietro Ubaldi: A Grande Síntese e Ascese Mística. Seguiram-se à condenação apaixonados debates de numerosa imprensa, na Itália e no estrangeiro. A católica, mais ou menos qualificada, fazia coro com as decisões do Santo Ofício, assumindo, às vezes, uma linguagem particularmente áspera e ofensiva; a espiritualista independente tomava ao invés a defesa do condenado, contra-atacando também asperamente.
A linguagem de ambas as partes, de qualquer forma, era excessiva, e pouco condizente com a delicadeza da questão controvertida.
A condenação colheu de surpresa o autor e lhe provocou admiração e profundo sofrimento. No Natal de 1939 ele enviava a Roma uma primeira declaração de obediência, na qual humilhava-se diante da Igreja. Declarava que sua fé era sincera, que seu objetivo era o bem das almas, que respeitava a autoridade da Igreja, que se sentia profundamente cristão. Mas isto não bastou. Foi- lhe pedida declaração explícita de reprovação e retratação dos erros contidos nos dois livros. Exigia-se dele, além disso, que retirasse do mercado todas as edições, mesmo as estrangeiras, de
que ele havia perdido o controle. Impunha-se ao autor um problema de consciência. Ele pediu que lhe fossem indicados os erros para que os pudesse retratar. Ou seja, pediu que se discutisse. A Igreja não aceitou a discussão. Assim, Ubaldi não se retratou, e os dois contendores encerraram a pendência com o silêncio.
Feita esta premissa, passemos agora a examinar o comportamento das duas partes, e procuremos penetrar suas razões. A Igreja foi coerente com seus princípios. Ela devia condenar, sem faculdade de defesa nem de apelação para o condenado. Os princípios teológicos da Igreja são conhecidos, estão codificados em dogmas bem definidos que se aceitam ou se rejeitam; de qualquer modo, nenhum católico os pode aceitar sob condições ou com reservas, mas só integralmente e sem discutir. A Igreja se declara infalível e qualquer dúvida no mérito pode ser considerada heresia.
Pietro Ubaldi terá sido coerente na mesma medida? Aparentemente, parece que não. Mas, examinando mais profundamente o caso, teremos de concluir que, também de sua parte, houve coerência. Ubaldi humilhou-se diante da Igreja, declarou obediência a ela, mas não se retratou. Como se concilia isso com a coerência? A resposta só pode vir depois que tiverem sido compreendidos o pensamento e os sentimentos do autor.
Comecemos afirmando que Ubaldi é cristão. É um místico cristão, que vive uma atividade religiosa muito intensa, e que constitui a nota dominante de sua vida. Quem conhece suas obras e conhece de perto sua pessoa, não pode pô-lo em dúvida. A Igreja católica, como todas as Igrejas de quaisquer confissões religiosas, cristãs ou não, vive uma atividade religiosa de tríplice natureza: a mais importante é a mística, que tem sua origem nas forças da alma e do coração; segue-se uma segunda atividade, a teológica, que constitui o invólucro intelectual da primeira, que tem sua origem na razão; vem depois a terceira atividade, externa às duas primeiras, e é a litúrgica, que tem sua origem numa necessidade dos sentidos. A atividade mística é o conteúdo essencial de toda atividade religiosa, é a alma vital de qualquer confissão religiosa digna desse nome. Alonga as próprias raízes bem no âmago da alma onde Deus fala, enxerta-se nas fontes arcanas da vida. Este é portanto o conteúdo essencial da vida religiosa da Igreja. Ela perderia toda a sua vitalidade se não haurisse nessa fonte sublime. Deus fala aos homens através dos grandes místicos; são estes os intérpretes e tradutores do pensamento de Deus, o maravilhoso elo que une o céu à Terra. Os místicos falam uma linguagem extraordinariamente eficaz: levam- nos a um plano em que o contingente cessa e o universal domina. Neste plano está a vitória do verdadeiro, do bom e do belo, que se acham fundidos em admirável harmonia, que ilumina a mente e dá paz ao coração. Todos os místicos da Terra, de todos os tempos, de todas as religiões, vivem as mesmas experiências místicas, falam a mesma linguagem, enunciam os mesmos princípios morais. No plano místico, calam todas as controvérsias religiosas e estabelece-se aquele ponto de contato que liga e irmana todas as confissões religiosas do mundo. No plano místico não há lugar para a discórdia, para a divisão, para a intolerância; não há lugar também para a condenação, para a luta. Aí reina o amor, a paz, a concórdia.
Ubaldi é um místico e como tal não podia ter sido condenado. Mas a Igreja o condenou da mesma forma, pois o julgou um falso místico. Baseada em que considerações, pôde a Igreja exprimir um julgamento tão grave? A resposta a este quesito foi dada pela imprensa católica. O misticismo de Ubaldi se afasta dos princípios teológicos do catolicismo. Por isso foi condenado. Mas o que é a teologia, e donde tira seus princípios? A teologia representa o pensamento filosófico da Igreja, ou melhor, dos Padres da Igreja, de seus Doutores. A teologia é um produto do pensamento humano e só tem relações indiretas com a mística; portanto, não está isenta de
todos os defeitos do pensamento humano, sendo o primeiro deles a falibilidade. Analisando-se bem o caso de Ubaldi, podemos verificar com facilidade que a Igreja quis condenar o pensamento não-ortodoxo dele. Mas, para condenar o pensamento devia também condenar a alma mística. A Igreja não pode admitir que um homem seja bom cristão, sem que também participe de seu pensamento teológico. Por quê? Porque no pensamento teológico se ergue o edifício social da Igreja mesma — derrubem o edifício teológico e desmoronará todo o edifício social da Igreja. Ubaldi tocou a teologia e portanto tocou ao vivo esse edifício social. A Igreja defendeu-se condenando. Através de uma experiência de milênios, a Igreja formou a sua atual estrutura, que ela julga a mais condizente à sua conservação e ao cumprimento de sua missão entre os homens Tem uma sólida organização hierárquica, experimentada durante séculos, grandes meios financeiros, escolas, partidos políticos que a protegem externamente, uma magistratura interna própria, e quando o pode, serve-se também do braço secular. Ela luta arduamente para manter o próprio domínio sobre as massas. Mas o meio mais poderoso de domínio é o de dominar as mentes dos homens, fazendo-os pensar segundo suas idéias. Quem diverge de suas idéias traz confusão à mente dos homens e ameaça sua existência. Portanto, ela condena inexoravelmente. É preciso reconhecer que o pensamento filosófico de Ubaldi, expresso nos dois volumes condenados, contrasta em muitos pontos com o pensamento oficial da Igreja. Dessa forma, esta não podia deixar de condená-lo. Bastaria sua concepção monística e imanentista do universo, para criar um contraste insanável com a Igreja.
Apesar de tudo isso, Ubaldi fez ato de submissão à Igreja. Por quê? Ubaldi sente-se profundamente cristão, individua no corpo místico da Igreja o anelo de sua alma de místico, está perfeitamente consciente da função vital dessa instituição milenar e, portanto, sente o dever e a necessidade de respeitar a Igreja. Ela tem, verdadeiramente, uma alta missão, é um organismo que, no interesse da vida, merece ser conservado e ajudado a viver. Massas ingentes de fiéis haurem na Igreja guia, conforto e inspiração. Não se pode deixar de levar em conta tudo isso, pois constitui um benefício imenso para os fiéis e para toda a sociedade, enquanto uma educação inspirada pelos princípios cristãos reforça os sentimentos de bondade, de altruísmo, de honestidade, e de convivência pacífica entre os homens. Por isso Ubaldi fez ato de submissão à Igreja. É uma homenagem justa à autoridade daquela Igreja que ele respeita, da qual se sente filho espiritual, daquela Igreja que se compenetra da alma mística de Cristo, que é também vida e conforto de sua alma. Não podia rebelar-se, sem, ao mesmo tempo, rebelar-se contra tudo o que nele há de mais sagrado, e sem perturbar as consciências de todos quantos crêem na Igreja e da Igreja recebem consolo. Mas então, por que não se retratou?
Não podia retratar-se por três motivos importantes. Primeiro, ele teria realizado um ato contrário à sua consciência, porque está persuadido de estar com a verdade. Sem esta profunda convicção, ele não teria escrito, nem escreveria. Além disso, retratando-se, ele teria transgredido também um princípio da própria Igreja, que foi sancionado pelo 4º Concílio de Latrão. Diz ele: "quid quid fit contra conscientiam, sedificat ad gehennam" ("Tudo o que se faz contra a consciência, prepara a condenação"). Segundo, a condenação foi, em grande parte, efeito de um mal-entendido. Olhou-se a letra e não o espírito dos livros. Ele esclareceu seu pensamento em obras posteriores, que quem condenou não conhece. Para ele, a imanência não exclui a transcendência. Ele diz com Santo Agostinho: "Deus est superior summo, interior intimo meo" ("Deus é o ser supremo, e é o mais íntimo do meu ser"). Terceiro, ele está plenamente convencido de que tudo quanto há de místico e de conceitual em suas obras, não pertence às suas faculdades pessoais, mas tem origem inspirativa, que parte de um plano conceitual que o
transcende, de onde comunica uma sublime Entidade que ele chama "Sua Voz". Julga que falou por virtude inspirativa, e tudo quanto disse, não lhe pertence. Não tem, portanto, a faculdade de se retratar: se o fizesse, trairia a Divindade. Achou-se ele então em tremenda alternativa: ou trair tudo quanto para sua alma havia de mais sagrado, ou rebelar-se contra a Igreja. Ele não pode ser traidor nem rebelde. Se traísse, cometeria uma monstruosidade que mataria sua consciência; se se rebelasse contra a Igreja cometeria um matricídio espiritual. Ele é cristão, e não quer perturbar as consciências dos fiéis à Igreja. Não está aqui para trazer a guerra e dividir, mas para trazer a paz e unir, sobretudo para unir, que é este o imperativo dos novos tempos. (. ...).
Por que a Igreja quer impor uma coisa que contrasta com a liberdade de consciência, sancionada por ela mesma no 4º Concílio de Latrão? Por que a Igreja, atualmente, vive esse contraste? O absolutismo, a intolerância teológica, chocam-se às vezes contra a consciência do homem. A Igreja é prisioneira da teologia e de sua filosofia particular em que se formou a teologia católica. Então, o caso Ubaldi adquire um valor que o transcende e se torna um dos tantos casos que condenam a atitude da Igreja, em confronto com todo o pensamento moderno. A filosofia da Igreja, como toda a escolástica, está permeada do pensamento aristotélico. Mas São Bernardo não concluía que a filosofia de Aristóteles era a oficina do diabo? Não declarava São Paulo que não se apoiava em argumentos humanos, mas na força do espírito? Não diz a Imitação de Cristo: "que nos importam os gêneros e as espécies"? Os grandes místicos disseram que ''Deus é mais íntimo a nós, do que nós mesmos”, que ''Deus é a superessência de nossa alma". Indubitavelmente, o "ipse dixit" da escolástica perdeu seu valor, porque depois de Aristóteles o pensamento humano caminhou muito e continua a caminhar. Como pode chamar-se errado a um pensamento, só pelo fato de que conclui partindo de premissas e com método diverso do de Aristóteles e da escolástica? Não vemos nisto nada de herético, mas apenas um pensamento humano que, impelido pelo amor à verdade e ao bem, caminha pela estrada da evolução. Razão e consciência levam a concluir que podemos ser bons cristãos, mesmo não aceitando determinado pensamento filosófico, embora seja este abraçado oficialmente pela Igreja. Trata-se, com efeito, de um pensamento que, por sua natureza e origem, pode errar ou ser insuficiente. Não escapa, porém, a verificação de que — como acima dissemos — a teologia católica nasceu sobre aquele pensamento, e dela saíram os dogmas e as instituições da Igreja. Portanto, uma vez derrubado esse pensamento, a Igreja se acharia numa posição insustentável, e deveria então ou renovar-se ou morrer.
Mas se os tempos estivessem realmente maduros para uma renovação? Se de fato fosse necessário o emparelhamento da Igreja com o progresso dos tempos que correm? Não seria danoso, para a própria Igreja, insistir em posições indefensáveis? A resposta será dada pelo tempo. Fazemos votos de que a Igreja tenha uma justificação que a nós escapa. Mas se tal não acontecer, poderá ser uma desgraça para o cristianismo e para a humanidade.
(a) PAOLO SOSTER NOTA DA REDAÇAO - O artigo do Dr. Soster é interessante, porque nos faz conhecer a personalidade do Professor Ubaldi em seu aspecto místico, em contraste com a Igreja católica. A ela, porém, não deve ser atribuída a responsabilidade dos julgamentos que os homens que a representam pronunciaram em certos períodos da história os julgamentos desses homens foram às vezes enganosos e injustos, até cruéis além de injustos, porque o sentimento da justiça estava neles obscurecido pela consciência dogmática A esse respeito, é necessário lembrar que a
maioria dos místicos que a Igreja santificou, saíram, em suas manifestações intelectuais ditadas pela inspiração, além daquelas duas linhas, com Krishnamurti representou as religiões dogmáticas, que assinalam a existência das almas comuns no caminho da vida...
Também Santa Teresa de Ávila, que definiu o paraíso e o inferno modos de ser das almas, e não lugares, podia ter sido, da mesma forma, condenada pela Igreja, e não o foi...
Quem leu os dois livros de Ubaldi, condenados pela Igreja, compreendeu facilmente a razão da condenação: o conceito da imanência divina, e que inspira os dois livros, é o que a Igreja rejeita, porque contraria a concepção dogmática da Divindade.
Diante dessa condenação, pronunciada num momento de trágica luta da espiritualidade contra o materialismo ateu, a condenação dos dois livros de Ubaldi, que são a apoteose do espírito, poderá parecer, mais do que inoportuna e injusta, paradoxal!
Mas não é igualmente paradoxal a atitude dos homens representativos da Igreja, diante da ciência metapsíquica, que poderia ser utilizada para demonstrar cientificamente a transcendência da vida e a imortalidade do espírito humano, para conforto e em apoio do ensino religioso?
É supérfluo recordar aqui os contrários julgamentos dos homens que encarnam a Igreja,
na distância dos tempos, como por exemplo, a respeito do conceito heliocêntrico do universo, aceito por Copérnico e condenado por Galileu Galilei.
O Professor Ubaldi fez bem em ser coerente com sua consciência, não retratando o que escreveu sob inspiração mística; e a Congregação do Santo ofício talvez tivesse feito melhor se não co- metesse o excesso de zelo dogmático, pondo no "Index" os dois livros que tanto conforto deram às consciências cristãs e despertaram a fé em outros que a haviam perdido !