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Hvilke psykiske og fysiske konsekvenser kan det ha for et barn å oppleve vold i

A pouca incidência das construções pronominais (FVP ou indefinidas) em C1 (19,4%) e C2 (16,2%) (ver capítulo III, tabela 12) atesta sua escassa produção pelos aprendizes. Conforme González (1994:372s), essa baixa produtividade reflete o fenômeno que vem ocorrendo na língua materna desses estudantes: a perda dos clíticos, dentre os quais o “se” 92. Na amostra da pesquisadora, os percentuais das FVP estão próximos aos verificados para C1 e C2: as FVP sintáticas atingiram 88% (ibid.:393), contra 12% de FVP pronominais.

Segundo meus dados, a freqüência das construções com se tende a aumentar com a maior exposição dos aprendizes ao input, sobretudo a partir das 90 horas de instrução formal (do nível Intermediário I em diante). Porém, em momento algum a hegemonia das FVP de particípio é posta em risco, conforme se mostrou nas tabelas e gráficos (ver capítulo III, figuras 2 e 3). Por um lado, pode-se detectar nesse aumento a marca da instrução formal, uma vez que a partir desses níveis os aprendizes foram expostos às expressões impessoais de possibilidade (se + poder na 3ª pessoa + infinitivo), necessidade (se + buscar/necesitar/requerer/pedir na 3ª pessoa), recomendação (se + recomendar na 3ª pessoa), aconselhamento (se + deber na 3ª pessoa + infinitivo), pedido/ordem (se + pedir/ordenar/exigir na 3ª pessoa), conforme os exemplos:

(6) En las dos situaciones, se puede perceber que todos están felices, pero em la primera tal vez porque tenga adultos, todos están más comportados. (C2: EC300214)

(7) No es necesario experiencia anterior, sólo se requiere buena capacidad de comunicación. (C2: ED400281)

92 A pesquisadora comenta o fenômeno de forma detalhada para o PB e discute seus efeitos na produção

(8) ¿Cuál es el horario que se debe cumprir? (C2: ED400701)

Por outro lado, embora em menor número, essas construções apareceram em todos os níveis, do B1 ao A2, antes mesmo de serem objeto de explicitação formal em cursos, o que de certa forma relativiza o peso do ensino formal. Caso interessante foi a incidência em C2 de construções de infinitivo com sentido passivo93 , com pronome:

(9) A mi me gustó mucho visitar Ouro Preto, una ciudad antigua, con muchas histórias y lugares encantadores de se conocer. (C2: EB200284)

(10) Pero cuando miramos las fotos en el ordenador nos quedamos surpresos y aflitos. Sólo había piedras y más piedras para se estudiar. (C2: EC201152) (11) Él no tiene su oficina particular. Cuando hay alguno caso a se resolver,

generalmente él se queda en la casa onde hay ocurrido el crimen. (C2: ED101722)

Essas construções com pronome são pouco produzidas no Espanhol. Uma consulta no Google Espanha para a construção problema a solucionar forneceu 17.300 ocorrências; a alternativa problema a solucionarse (com pronome) teve apenas 9 incidências, ficando abaixo de problema a ser solucionado (41 casos). Pesquisa semelhante foi feita no Google Brasil, para o PB, que forneceu 84 ocorrências para problema a se resolver, 7 para problema a ser resolvido, 2 para problema a resolver, e nenhuma para problema a resolver-se. No PB, portanto, o número de incidências da construção com “se” proclítico (problema a se resolver) é razoável. E como classificar a expressão? Pode-se identificar nela um sentido passivo; porém, a freqüência ínfima da correspondente problema a ser resolvido favorece a interpretação do exemplo como uma construção indeterminada. Conforme Bagno (2000)94, a base verbal (resolver) seleciona um sujeito com traço semântico [+animado], de caráter genérico, codificado na sintaxe pelo clítico “se”. Igualmente, a posição pré- verbal do “se” reflete a ordem Sujeito-Verbo (SV), predominante no PB, e reforça a leitura desse pronome como sujeito da expressão. Portanto, o caráter

93 Para detalhe dessas construções, ver exemplos de Mendikoetxea no capítulo I (p. 20 e seguintes). 94 Ver capítulo I, p. 39 e seguintes.

nominativo do clítico no PB95, assim como a maior rigidez na ordem SV para essa língua, produzem efeitos na produção escrita dos aprendizes em Espanhol, conforme se vê nos exemplos (9), (10) e (11).

Há outro aspecto, referente à questão pronominal, que poderíamos relacionar à maior ocorrência de FVP sintáticas na produção escrita dos aprendizes em língua espanhola: a pressão da norma culta do PB. Partamos do seguinte exemplo da amostra:

(12) (...)Fuimos recibidos por muchos y variados insectos que paseaban tranquilamente y nos invitaban a bañarnos con ellos en el charco que era la piscina climatizada. (C1: A1.2)

No Espanhol, é muito possível que (12) aparecesse na forma ativa, devido ao uso corrente dos clíticos (sobretudo em próclise) e à maior flexibilidade na ordem dos constituintes que se observa nessa língua:

(13) (...) Nos recibieron muchos y variados insectos (...)

Os dois aspectos mencionados fazem com que (13) seja mais palatável no Espanhol96. No PB não é exatamente assim: por um lado, a ordem dos constituintes nessa língua é mais rígida que no Espanhol, privilegiando o sujeito anteposto ao verbo (SV), conforme já comentado em IV.2.1.; por outro lado, as gramáticas normativas do PB e os manuais de estilo condenam o uso dos pronomes clíticos como introdutores de enunciados. No último caso, a norma, embora infringida a todo instante na oralidade e na escrita informal, costuma ser observada freqüentemente em elocuções formais e sobretudo na escrita. Uma versão de (13), segundo a norma, poderia ser:

(14) (...) Receberam-nos muitos e variados insetos que passeavam tranquilamente e nos convidavam a tomar banho com eles (...)

95 Segundo Bagno (ibid.), os falantes do PB só admitem o “se” como acusativo em construções reflexivas,

com sujeitos normalmente [+animados] (O artista olhou-se no espelho.). Com sujeitos [-animados], é freqüente o apagamento do “se” (A porta fechou. / O vaso quebrou.). A perda desse “se” intransitivador é uma das características presentes no PB, constituindo, segundo Kato & Taralo (1986, apud GONZÁLEZ, 1994:281) um dos fatos que apontam uma mudança em curso, que demonstra, por outro lado, uma “rejeição pelos clíticos” (clitic rejection).

96 Aqui cabe um esclarecimento: a sentença passiva produzida pelo aprendiz está bem construída e pode

ser perfeitamente interpretada por qualquer hispanofalante. Nela, o uso da passiva sintática ⎯ por não refletir a ordem habitual do Espanhol ⎯, destaca a ironia do enunciado e causa maior impacto no leitor. Daí a importância de não prender-se unicamente à estrutura morfossintática dos enunciados, e levar em conta seus aspectos pragmáticos.

Entretanto, a construção acima soa pesada e pedante aos ouvidos dos brasileiros, mesmo no discurso escrito97. A versão com sujeito anteposto e clítico em próclise tampouco funciona para o exemplo, pois a extensa oração de relativo (em aposição ao sujeito) ocasionaria problemas de gramaticalidade:

(15) ? (...) Muitos e variados insetos que passeavam tranquilamente e (...) nos receberam.

O uso de uma FVP sintática resolveria o impasse:

(16) (...) Fomos recebidos por muitos e variados insetos que passeavam tranquilamente (...)

Diante do exposto, é possível que o mesmo processo, condicionado pela norma culta do PB, esteja presente na produção escrita dos aprendizes.

O último aspecto que relaciono à baixa incidência de FVP pronominais nos corpora analisados é a tematização98. No Espanhol, a tematização mais freqüente ocorre por meio dos clíticos, segundo a estrutura complemento direto tematizado + clítico duplicado + verbo ativo:

(17) A Miguel lo despidió el director.

No Espanhol, caso quiséssemos apagar o agente em (17), poderíamos reescrevê-lo como:

(18) A Miguel lo despidieron.

As construções como (18) foram definidas por Lorenzo (1980:20) como impersonales activas. Outra possibilidade de que dispõe o Espanhol para tematizar é a passiva perifrástica, embora, segundo os estudos consultados, seu uso seja menos freqüente99:

(19) Miguel fue despedido (por el director).

97 Entretanto, reitero a importância de ater-se também aos aspectos pragmáticos do enunciado: se a

intenção do autor é a ironia, a construção do exemplo, com pronome enclítico e sujeito posposto, funciona perfeitamente.

98 Para definição do termo, ver nota 41 (capítulo I).

99 Conforme já comentamos no capítulo I, as passivas perifrásticas e lexicais são mais representativas nos

gêneros textuais associados à informação, especialmente aqueles presentes nos meios de comunicação escrita (jornais, revistas, páginas web, folhetos, etc.).

Tematizações nos moldes de (17) e (18), no PB, só ocorreriam em registros mais coloquiais, próprios da linguagem oral, e ainda assim o pronome repetido (de realização lexical facultativa) seria tônico e posposto ao verbo:

(20) O Miguel, o diretor despediu ele. / O Miguel, o diretor despediu. (21) O Miguel, despediram ele. / O Miguel, despediram.

O pronome tônico só viria antes do verbo numa FVP sintática: (22) O Miguel, ele foi despedido ( pelo professor).

Em suma, o Espanhol pode tematizar: 1) por meio do deslocamento à esquerda do complemento direto (cf. (17) e (18)), sendo esta, segundo atestam alguns estudos, a preferência nessa língua; 2) por meio da FVP sintática (cf. (19)). Por outro lado, a rejeição do uso dos clíticos pelos brasileiros praticamente converte a FVP sintática no único recurso (ao menos na modalidade escrita) de que dispõe o PB para tematizar.

Passando à produção dos aprendizes, tomemos exemplos coletados dos corpora:

(23) El Sr. López es respectado por su profesionalidad pero hay quien le tenga mucha envidia. Juanito no es admirado por nadie, pero es muy gracioso y tiene muchos amigos. (C1: A2.A.1)

(24) Miguel es un muchacho muy querido por sus compañeros de trabajo (...) (C2: EA100372)

Para o enunciado em questão, conforme assinalam alguns estudos e dependendo do gênero em que a construção aparece, seria mais freqüente a tematização por meio do deslocamento à esquerda do complemento direto da construção ativa (Sr. López/ Juanito), ficando a posição original desse constituinte ocupada por um clítico (lo):

(25) Al Sr. López lo respetan por su profesionalidad pero hay quien le tenga mucha envidia. A Juanito no lo admira nadie, pero es muy gracioso y tiene muchos amigos.

Nos corpora de aprendizes, entretanto, foi computado apenas um exemplo com deslocamento do complemento direto:

(27) ¡No pienses que podés librarte así tan fácil de la cuestión! Lo que escuché no eran chismes, eso lo tengo por cierto, porque lo escuché de gente confiable. (C2: EF600075)

Mesmo nos casos em que normalmente os hispanofalantes utilizariam clíticos, foi freqüente o uso de FVP sintáticas:

(28) Estoy ahora con la señorita Maria. Su apellido es Sanches y es conocida como: "la santa". (C2: EA100614) [Su apellido es Sanches y la conocen como (...)] A ausência quase total de enunciados como (25), (26) e (27) nos corpora são forte evidência de que tais construções são evitadas na produção escrita dos aprendizes brasileiros. Cf. González (1994), o evitamento (do inglês avoidance) é o fenômeno segundo o qual os aprendizes não produzem (ou produzem muito escassamente) determinadas estruturas da L2 por não tê-las incorporado ⎯ seja devido à falta de percepção, seja devido à não compreensão dessas construções. A pesquisadora considera que o evitamento está associado a uma visão seletiva da aquisição de L2. Liceras (1996: 238) refere-se ao fenômeno como inhibición, resenhando Smith:

(...) En la clasificación de errores que presenta [Smith], la inhibición se manifiesta en el uso de construcciones con las que los hablantes de L2 no se sienten cómodos y persisten hasta el tercer año de estudio del español. Las construcciones con subjuntivo, pasiva e impersonal con se, relativas y pronominales ⎯ que se consideran difíciles en las gramáticas del español ⎯ son las menos usadas en las composiciones de los estudiantes.

A duplicação e o deslocamento à esquerda constituem uma dificuldade para os aprendizes, porque tais recursos exigem o emprego de clíticos: cada vez menos usados no PB, acabam constituindo uma área problemática na aquisição do Espanhol por brasileiros.

A essa dificuldade, pode-se acrescentar a necessidade de marcação do caso acusativo com a preposição a, no caso dos complementos diretos com traço [+humano] e [+específico] (ver exemplo (24)). O estudo de Yokota (2001) revelou que a marcação de caso ⎯ existente, porém de incidência insignificante no PB ⎯ ocorre de forma bastante irregular na produção escrita

dos aprendizes brasileiros de E/LE100. Portanto, para averiguar o fenômeno nos meus dados, levantei as ocorrências da preposição a relacionadas à tematização101. Como resultados, só obtive construções intransitivas com verbos de percepção sensorial (a mí me gusta/ a ella le encanta/ a él le parece, etc.); as construções transitivas (A Juan lo vi ayer) não apareceram, nem mesmo considerando-se a omissão da preposição a.

Portanto, o não uso de clíticos (ou seu uso muito escasso) pelos aprendizes brasileiros ocasionaria o evitamento (ou inibição) da tematização, via estruturas duplicadas e deslocamentos, favorecendo a tematização unicamente por meio das FVP sintáticas e sua conseqüente proliferação na produção escrita desses aprendizes em língua espanhola.