O fenômeno “avaliação do ensino-aprendizagem na modalidade a distância” se desenhou com a ajuda da abordagem metodológica da fenomenologia, sob duas ópticas: a proposta husserliana de “ ir às coisas mesmas” como elas são na realidade, empregando-se,
para tanto, a redução fenomenológica, momento em que a pesquisadora pôs entre parênteses suas próprias concepções sobre o objeto estudado; e a concepções pontianas de fé perceptiva, julgamento, atenção e noção de juízo.
O encontro da essência do fenômeno se deu por meio das falas dos sujeitos, perspectiva trazida por Heidegger, que evidencia a articulação da existência da pessoa e as significações que ela tem em relação às coisas vividas. Esse fundamento possibilitou entender o próprio “ser-no-mundo” e as conexões que o sujeito interpreta, as quais são explicitadas por ele mesmo. A fala é o momento de encontro consigo mesmo, no qual o indivíduo expõe seu mundo vivido, isto é, abre-se para uma próxima e significativa relação do eu com o mundo, apresentando a linguagem, um modo de fazer liga entre o discurso da pessoa e de seu mundo cotidiano.
Desse modo, apresenta-se, na sequência deste capítulo, a essência revelada do fenômeno. Primeiramente, desvela-se a identidade do sujeito no mundo, isto é, a existência do Dasein. Esse sujeito evidencia-se por meio de intencionalidades que vão se tornando realidade com base em sua capacidade de decidir em função das oportunidades. Quando os estudantes expõem em suas falas o desejo de resgatar a autoestima e, em função disso, decidem cursar uma faculdade, mostram sua intenção de vir a ser no mundo, ou seja, evidenciam o Dasein a partir de si mesmos. Nesse sentido, a existência desses indivíduos também se faz segundo seu cotidiano, carregado de positividades e problemas que os desafiam a articular esses aspectos em compreensões e significações para efetividade de sua razão de ser.
Assim, os sujeitos, ao dirigirem-se a um propósito, “cursar uma faculdade”, percebem que esse “estar-aí” por um tempo (período do curso) está diretamente articulado com sua própria forma de ser, isto é, com seu modo de vida e com suas experiências. Isso se apresenta pela facticidade da vida, uma vez que os estudantes são moradores de municípios do interior com oportunidades limitadas de acesso à cultura e à tecnologia. Esses atores, em função das exigências da rotina de adulto, são impelidos a trabalhar, o que, por consequência, faz com que se vejam obrigados a adiar o sonho de uma formação acadêmica.
Dessa forma, ratifica-se que a existência do Da sein se efetiva como consequência de suas interações com o objeto e, no sentido de cursar uma faculdade na modalidade a distância, configura-se no modo com o qual ele utiliza a ferramenta. Percebe-se que a Educação a Distância (EaD) é entendida como técnica, e o seu desabrigar está relacionado com o grau de pertencimento e entendimento que estabelece com a coisa. No contexto da pesquisa, constata-se que o aprendiz tem consciência da necessidade do uso dos instrumentos contidos na EaD, no entanto, depara-se com a limitação de sua utilização, sentindo-se inseguro no manejo das ferramentas e tecnologias disponibilizadas, demonstrando, assim, interdependência. Essa realidade se configura na prática quando da dificuldade de acesso ao ambiente tanto por falta de inter net como por deficiência e inabilidade com o computador.
Dessa forma, percebe-se que o discente necessita compreender não só a utilidade da ferramenta, como também a armação da técnica, haja vista que é nesse sentido que o indivíduo desoculta a realidade para sua subsistência, ou seja, transforma o uso da EaD/computador pela exploração que faz dela enquanto técnica. Com isso, a existência do
Dasein (“ser-no-mundo”) também se relaciona pela forma com que se usa o objeto, seja
como instrumento ocupacional (Zeug), condicionante importante para a realização do curso, seja pela esporadicidade, uso de vez em quando do instrumentum.
Ao se deparar com o instrumental da técnica, o estudante se confronta com seu próprio desejo de realizar o sonho, que, por vezes, está latente nas expressões “ter nível superior”, “vontade de fazer um curso superior”. Esse interesse de cursar uma faculdade é colocado à prova ao tempo em que problemas pessoais e estruturais da EaD aparecem na formação, todavia, são revestidos pela fé perceptiva, na esperança de concretizar o sonho. Isso se configura com a idealidade da fé, pois pela necessidade o indivíduo acredita em si mesmo e na arquitetura da EaD e prossegue o percurso da formação com o otimismo de melhorar profissionalmente por meio do curso universitário.
A fé percepção reflexiva do aprendiz também se evidencia diante da sua existência; seu vir a ser no mundo está diretamente relacionado com as tomadas de decisão no tocante à interatividade que tem com as “coisas”: as ferramentas no ambiente da EaD, os conteúdos e os colegas. O corpo chamado de quiasma é feito da mesma carne/matéria do mundo. Nessa perspectiva, o indivíduo deve interagir com o objeto, assumindo uma postura ativa, de curiosidade e de busca para “formar-se no estudo”, ou seja, ao mesmo tempo em que se relaciona com a técnica (EaD), está desenvolvendo habilidades, capacidades autônomas e conhecimentos necessários à formação.
Dessa forma, pode-se dizer que as atitudes proativas e conscientes do educando,
no processo de construção do saber, não são condicionantes isolados, elas se inter-relacionam com os outros elementos impulsionadores de um clima propício para a
aprendizagem, como interação e empatia. Esses comportamentos agem como mecanismos de aproximação entre os sujeitos e os recursos, principalmente entre docentes e discentes, promovendo, destarte, um clima de confiança, receptividade e diálogo.
A interação do estudante com o conteúdo é elemento importante em cursos a distância, pois favorece a articulação dos assuntos discutidos em sala com a experiência do indivíduo. Isso evidencia que é necessário relacionar os saberes inerentes à vida cotidiana do discente com os conhecimentos curriculares e com as particularidades atinentes à ocupação que exerce, fortalecendo o “ser-no-mundo”, pois se reveste de possibilidades teóricas, fundamentos para contextualizar o mundo e assumir uma consciência humana acerca da realidade social, funcionando, assim, como mecanismo de mudança e de construção de conhecimento.
Outra interação fundamental no processo de ensino-aprendizagem é a estabelecida entre os educandos e os docentes. A profissionalização docente implic a uma relação empática entre os sujeitos envolvidos, na qual a comunicação e os vínculos afetivos se constroem à medida que assumem atitudes de conexão e rede. Ratifica -se, portanto, que a empatia constrói elos entre sujeitos aparentemente isolados, desmistificando, desse modo, o paradigma de que o contato com a técnica só propicia distanciamento e individualidade.
O que se afirma é que o clima do curso e os recursos existentes devem possibilitar a aproximação e a construção de pontes relacionais entre os pares, estabelecendo, assim, conexões de aprendizagem. Acredita-se, pois, que o contexto técnico e estrutural do curso e que a empatia e a interação entre as pessoas favorecem um clima não só de diálogo, mas também de múltiplas aprendizagens. Estas, por sua vez, estão diretamente relacionadas ao compromisso pessoal de cada estudante ao realizar o que está sendo proposto, isto é, para atingir uma meta, é imprescindível esforço e investimento individual, mesmo que haja queda, situação inerente ao processo de busca/conquista e à própria existência.
Assim, a percepção do Da sein acerca do seu eu, lançado em curso de nível superior, também se manifesta na sua relação com a avaliação, condição importante no processo de formação, pois retroalimenta as decisões e a continuidade ou não das possibilidades formativas. O “ser-no-mundo” revela a prática avaliativa “feita na antiga”,
“educação passada” e “aquela prova é passada, dali é a avaliação”, representações pessimistas do ato de avaliar, isto é, a prova é feita com enfoque na avaliação tradicional, perspectiva da primeira geração. Essa visão, aparentemente limitada da avaliação por parte do alunado, enseja a reflexão de que as práticas avaliativas em cursos na modalidade a distância devem caminhar para a abertura de um fazer construtivista, formativo, no qual o processus possibilita o movimento para a ação, para antecipar e progredir.
A avaliação em EaD precisa revestir nos sujeitos, tanto estudantes como docentes, atitudes positivas, de autorreflexão e de idealidade do avaliar na tendência progressista. Essa perspectiva modifica as “antigas” concepções de verificar para a adoção do Ato Avaliativo Dialógico, o qual articula, no fazer diário da prática avaliativa, diálogo entre os princípios filosóficos, pedagógicos, políticos e curriculares da formação, em que o
Dasein é o centro desse processo.
Assim, o ato avaliativo deve considerar o “ser-no-mundo” em sua totalidade, como ser integral, dialógico e histórico, de modo a potencializar o amadurecimento do ser para si, de experiências autônomas e responsáveis, estabelecendo, assim, aprendizagem ativa, consciente e significativa. Nesse contexto, afirma-se que a essência do ato de avaliar está nas possibilidades construtivas que ele desenvolve nos sujeitos, como autonomia e autoformação.
Como o próprio Paulo Freire (2009, p. 107) expressa, a autonomia “é processo, é vir-a-ser”. Dessa forma, considera-se que a avaliação do ensino-aprendizagem é propulsora do desenvolvimento da autonomia e da autoformação do indivíduo, pois, à medida que possibilita no estudante de EaD a capacidade de tomar decisão, refletir sobre as escolhas e as experiências avaliativas, está promovendo a posição consciente, crítica e ativa e ecoando um SER ativo no processo de formação.
Desse modo, ratifica-se a função formativa de que a avaliação é aprender- fazendo e configura-se como um processo contínuo, democrático, participativo e significativo para os sujeitos envolvidos nesse cenário. Uma prática que transcende os documentos formativos para de fato ser aplicada como princípio educativo que estimula experiências nos discentes de amadurecimento da capacidade de análise, de pesquisa, de estudo autônomo, de articulação de saberes e resolução de problemas, enfim, uma consciência da prática avaliativa como mecanismo para autoaprendizagem e autoformação.
Nesse contexto, os professores também precisam valorizar o fenômeno “avaliação do ensino-aprendizagem” como mecanismo de articular ação, reflexão e ação, assumindo uma postura consciente do ato de avaliar, com a utilização de variados
instrumentos, metodologias e processos avaliativos mobilizadores e reguladores da aprendizagem, despertando nos discentes a autodisciplina, a autoaprendizagem, a autoavaliação e a autoria. Esses processos, se bem articulados e cuidadosamente planejados, retroalimentam a formação com releituras do universo construído e da realidade posta, construindo posturas reflexivas e ativas para a concretização do projeto de Dasein. Nesse sentido, além de uma prática avaliativa que inspire confiança e autoformação, estão envolvidos nessa formação: arquitetura do curso, estrutura dos espaços, escolha assertiva dos profissionais, metodologias adequadas e recursos coerentes ao curso ministrado.
Dessa forma, acredita-se que o desabrigar da prática da avaliação envolve várias dimensões, tanto as existenciais do ser como as estruturais da técnica. Por isso, o significado e o sentido da “coisa” estão relacionados com a consciência que o sujeito tem de si, de sua existência, de sua relação com o mundo de experiências e da compreensão que ele tem sobre o fenômeno, visto não só pela utilidade, mas pelo propósito, armação, capacidade de transformar o “ser-no-mundo” e pertencimento à realidade desvelada.
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