Como salientado anteriormente, o Extremo Noroeste Paulista (ENP) é composto por 5 municípios: Santa Fé do Sul, Santa Clara d‟Oeste, Santa Rita d‟Oeste, Santana da Ponte Pensa e Rubineia (Figura 1), colonizados pela CAIC, localizados na divisa dos estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, às margens da Estrada de Ferro (antiga Araraquarense), e possuem inúmeras semelhanças entre si, embora o município de Santa Fé do Sul se sobressaia pelo seu tamanho (populacional) e pelos serviços oferecidos.
Com população de quase 30.000 habitantes, em comparação com a media de pouco mais de 2.000 habitantes dos outros 4 municípios do ENP, Santa Fé do Sul pode ser considerado um centro de consumidores e polarizador regional de oferta de bens e serviços, que busca atender às perspectivas e necessidades dos moradores dos outros municípios, quanto à saúde, produtos e serviços, mão-de-obra, bancos, faculdade, escolas, dentre outros. Os moradores do campo e da cidade dos municípios menores se deslocam frequentemente para Santa Fé do Sul para suprir suas necessidades. Neste caso, as ofertas encontradas nos municípios diferenciam claramente este dos demais da região delimitada, podendo ser considerado mais urbanizado que os outros.
O ENP possui diversas rodovias asfaltadas e uma ferrovia que já serviu para escoamento de produção agrícola e de pessoas à capital do estado, que dista aproximadamente
600km da região. Além das rodovias principais, como a Euclides da Cunha (SP 320) que oferece acesso ao Mato Grosso do Sul (20km), através da ponte Rodoferrroviária a oeste a Jales (40km), São José do Rio Preto (180km) e São Paulo (625km), a leste, e a Rodovia dos Barrageiros (SP 595), que dista 65km de Ilha Solteira ao sul, possui diversas outras estradas ligando os municípios, asfaltadas e em terraceamento, através de projetos de desenvolvimento rural entre as prefeituras municipais e o Estado, como o Fehidro (Fundo Estadual de Preservação dos Recursos Hídricos) e o Programa Estadual de Microbacias Hidrográficas, em programas designados “Melhor Caminho”, com adesão ao consórcio Pró-estrada, que atende a todos os municípios do ENP, totalizando mais de 200km de estradas asfaltadas e/ou em processo de manutenção, como tapar buracos e desassorear caixas de contenção de água, desde 1997. Por esse motivo, os produtores rurais de tais municípios não possuem dificuldades em escoar seus produtos, exceto aqueles estabelecidos em áreas de difícil acesso.
A estrada de ferro que já serviu para escoamento da produção agrícola, principalmente o café até meados da década de 1980, atualmente tem sua concessão vendida para a América Latina Logística, servindo apenas de passagem de produtos oriundos do centro-oeste brasileiro, como a soja e grãos em geral, retornando com calcário, óleo combustível, entre outros, não atendendo desse modo, à população local.
Com relação à renda dos habitantes, no contexto geral e em setores específicos da economia (primário, secundário e terciário), observa-se na Tabela 19 que Santa Fé do Sul possui o maior PIB do ENP e praticamente a melhor distribuição de renda, perdendo somente para o município de Rubineia, que também tem no setor terciário o maior valor adicionado no montante municipal.
Tabela 19 - Produto Interno Bruto do ENP - 2004 PIB (mil
reais) PIB capita per (reais) Valor adicionado no Serviço (mil reais) Valor adicionado na agropecuária (mil reais) Valor adicionado na indústria (mil reais) Santa Fé do Sul 207.618 7.347 114.296 13.471 85.063
Santa Clara d’Oeste 16.424 8.505 6.793 8.985 930
Santa Rita d’Oeste 32.310 14.115 9.798 21.431 1.396
Santana da Ponte
Pensa 18.831 11.399 6.486 11.468 1.108 Rubineia 19.621 6.985 9.978 7.693 2.093
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais, 2004. Org.: ROSAS, 2008.
Pode-se considerar que o município mais pobre é Santa Clara d‟Oeste, e possui no setor primário da economia o maior investimento no município, acima do setor
terciário de serviços, assim como ocorre em Santa Rita d‟Oeste e Santana da Ponte Pensa. Desconsiderando Santa Fé do Sul num primeiro momento, observa-se que Santa Rita d‟Oeste, além de ser o mais rico, também é o mais desigual na distribuição dessa renda e o que possui maior valor adicionado na agropecuária, bem mais do que Santa Fé do Sul, considerado centro regional do setor primário.
Praticamente todos os municípios do ENP possuem elevado valor adicionado na agropecuária, ultrapassando os valores da indústria e dos serviços, exceto Santa Fé do Sul e Rubineia, já que o primeiro possui elevado índice de empreendedorismo e ofertas de serviços, além dos produtores rurais possuírem outras fontes de renda (artesanato, confecção de doces caseiros, queijos), oriundos muitas vezes da própria cidade e do setor terciário, e o segundo, pelas áreas alagadas e pelos ranchos, caracterizando-se como terciários.
A relação interpessoal desses municípios também é de grande valia na análise proposta, já que os técnicos das Casas de Agricultura do ENP possuem boa relação com os trabalhadores do meio rural, tendo maior atenção e sendo mais prestativos, facilitando a liberação de verbas de crédito junto ao Banco do Brasil, como o Pronaf, como se observa nas Tabelas 20 e 21.
Tabela 20 – Utilização de crédito rural no ENP
Utiliza crédito rural? Quantidade Percentual (%)
Sim 48 69
Não 22 31
Total 70 100
Fonte: ROSAS, 2009. Pesquisa de campo no ENP. Tabela 21 – Utilização de assistência técnica no ENP
Utiliza assistência técnica? Quantidade Percentual (%)
Sim 62 89
Não 8 11
Total 70 100
Fonte: ROSAS, 2009. Pesquisa de campo no ENP.
Vale ressaltar que, neste caso, a confiança mútua e a reciprocidade entre os responsáveis pelo banco e os produtores rurais, em todos os municípios, embora se apresente menos fortalecido em Santa Fé do Sul devido ao seu tamanho, caracteriza e indica um caminho na criação de um capital social que, embora tímido, possui base sólida construída culturalmente, para se consolidar e ser trabalhado através de projetos de desenvolvimento territorial rural.
Tal confiança, porém, se esvai quando a ganância toma frente das questões ligadas à acumulação de capital, já que o sistema capitalista de produção cria condições de
individualismo que extrapolam as formas de cooperativismo existentes, principalmente quando advém de um inchamento da própria coletividade, como também ocorre em indústrias, necessitando de planos administrativos para se gerir tal conglomerado de pessoas, antes expropriadas de seus meios de produção. Outro aspecto que deve ser analisado nesta questão é o grau de escolaridade das pessoas, como demonstra a Tabela 22, onde a maioria das pessoas não terminou o ensino medio, caracterizando o tempo em que vivem na região, sua origem, e as dificuldades e falta de oportunidades para prosseguirem com o estudo.
Tabela 22 – Escolaridade dos entrevistados no ENP
Escolaridade Quantidade Percentual (%)
Analfabeto (ou funcional) 8 11
Ensino fundamental incompleto 12 17
Ensino fundamental completo 18 26
Ensino medio incompleto 16 23
Ensino medio completo 6 8,5
Ensino superior incompleto 4 6
Ensino superior completo 6 8,5
Total 70 100
Fonte: ROSAS, 2009. Pesquisa de campo no ENP.
Isso ocorre pela necessidade da sobrevivência pelas atividades agrícolas, e pela dificuldade de acesso às escolas no meio rural, principalmente em meados do século XX. Muitos deles são bons pagadores, pois conforme observado prestam muito à palavra e ao acordo, via de regra. É claro que não cabe aqui apontar pessoas com má índole e conduta, pois em todo o mundo existem aqueles que se aproveitam da situação e até mesmo da amizade para ganhar com isso, típico do patrimonialismo brasileiro (SORJ, 2000).