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Apesar da solidariedade não ser um valor que desponta entre os irrigantes, conflitos são infrequentes e inimizades raramente são observadas.

Durante todo o período em campo, nas conversas, fossem formais, como no caso das entrevistas, ou as informais, obtidas no cotidiano da observação, raramente ouvi algum comentário negativo de algum irrigante sobre algum outro. Percebi um clima de harmonia e bom relacionamento entre os colonos em geral, o que vai no sentido das falas seguintes

quando está todo mundo no serviço, lá naquele recurso, como você andou lá, tem serviço e tem alegria, tem, tem alegria. Aquela roda ali, não tem assim: rixa, tristeza... Não, só tem alegria. Acha graça, conversa, grita e trabalha alegre. Aquele Agnaldo, Agnaldo é dos que fazem a gente achar graça. Evaldo, do lado assim. Zezim, Silva, Didi. É na brincadeira, alegre. Não tem cara ruim com ninguém não, tem não. Tudo numa luta unido, alegre. Irrigante - Sr. Dedé.

“Somos mesmo que irmãos. Aqui é uma família, os pais foram colonos, os filhos assumiram. Somos uma grande família” (DIÁRIO DE CAMPO, 2013).

Foi-me dito que, de maneira geral, existe um pensamento de alguns que o “presidente é ladrão”. Apesar de ter sido muito repetido a existência abstrata desse pensamento, apenas um irrigante me afirmou tal julgamento.

O próprio presidente Sr. Carlos Eduardo afirmou que um dos motivos de não valer a pena ser presidente é essa acusação em geral de que o presidente é ladrão. Tal acusação independe da pessoa a qual ocupa o cargo na cooperativa, são sempre taxados de ladrão.

Questionados sobre a existência de conflitos entre os irrigantes, esses afirmaram não serem comuns, sendo a situação mais citada entre eles a entrada de gado de um colono no lote de outro, o que gera prejuízo, pois o gado come o plantio alheio. Quando acontece essa situação, o dono do gado deve arcar com o prejuízo provocado pelo gado. Também na comunidade não são comuns conflitos, não tendo eu percebido também alguma eventual fofoca ou intriga.

Isso aí, às vezes existe, porque, mas é porque, às vezes coisinha de nada, o bicho entra na roça do outro, aí o caba não quer pagar, sempre existe assim uma coisinha, mas não é nada demais não. Irrigante - Sr. Zezinho.

De primeiro, os animais do campo eram tudo presos, aí de vez em quando os lotes que não é cercado, ele vão né, aí o bicho entra, come os legumes, aí o dono dos legumes vai brigar com o dono do gado, “ah, não foi o meu, foi de fulano de tal” aí fica por isso mesmo, fica só com o prejuízo. Aí são essas confusõezinhas aí, que tem. Os animais que solta. Irrigante - Sr. Reginaldo.

A baixa frequência de conflitos pode ser explicada devido ao intenso controle e moldagem que o DNOCS impôs ao conjunto de colonos ao longo dos anos. A estes foi ensinado sempre a obedecer, a não questionar, a não serem pessoas críticas, a aceitar passivamente tudo o que lhe fosse imposto.

Apesar da raridade de conflitos, na assembleia extraordinária do dia 02 de agosto de 2013, em que estive presente, Sr. Carlos Eduardo relatou sobre um conflito. A assembleia fora convocada para tratar sobre o problema do corte de energia elétrica e renegociação de dívidas com a Eletrobras. A renegociação era importante porque sem energia elétrica, o setor convocado para a assembleia, setor 2, não podia operar, pois é baseado na irrigação por aspersão e necessita de energia elétrica para bombear a água. Na ocasião, Sr. Carlos Eduardo relatou aos demais associados presentes que em uma conversa prévia argumentou com o irrigante Matias sobre a necessidade de divisão da dívida de energia com os associados do referido setor inadimplente. Matias não aceitou a ideia e discutindo ameaçou Sr. Carlos Eduardo, “me jurou de faca” (DIÁRIO DE CAMPO, 2013). Matias também não compareceu a assembleia.

Ainda sobre desentendimentos, o pagamento dos 13% a cooperativa, eventualmente é fonte de divergências. Quando o colono não entrega a sua produção a cooperativa, dessa forma, não colaborando com os 13%, ou quando desvia parte de sua produção, a diretoria discute a situação na reunião mensal dos conselhos e o adverte sobre a imprudência, chamando-o para conversar e caso não mude, este é impedido de usufruir dos serviços contratados pela cooperativa. A exemplo, temos o caso do Sr. Roberto que é colocado em discussão na reunião de diretoria do dia 28 de julho de 2005, “Sr. Presidente coloca em disculsão (sic) sobre o problema do Sr. Roberto Salvador dos Santos que está vendendo melancia para beber pinga, caracterizando desvio de produção” (COOPERATIVA AGROPECUÁRIA DOS IRRIGANTES DO CALDEIRÃO, 2005, p. 05).

Como também pode ter sido percebido na reunião conjunta do conselho fiscal e administrativo do dia 30 de outubro de 2007, em que foram convocados seis associados para prestar esclarecimentos sob a acusação de desvio de produção onde apenas três compareceram. Como medida ao problema do desvio de produção, na reunião do conselho administrativo do dia 30 de abril de 2009, a diretoria da cooperativa decide que os associados que incorrem da prática do desvio, só serão financiados e auxiliados pela cooperativa após conversar com a diretoria e assinar um termo se comprometendo a cumprir com suas obrigações. “ficou decidido que o associado que teve problema com a CAIC em 2008 só poderá ser financiado ou comprará insumos ou trabalho mecânico, depois de uma reunião com toda diretoria e que o mesmo assine um documento se comprometendo cumprir com todas as obrigações que diz no estatuto da mesma (...)” (COOPERATIVA AGROPECUÁRIA DOS IRRIGANTES DO CALDEIRÃO, 2008, p. 35). O problema do desvio de produção aponta que a contribuição com a percentagem correspondente a cooperativa é encarada por alguns como obrigação, ação compulsória e não como contribuição voluntária para a manutenção da organização.